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Flávio Bolsonaro vence em 9 das 10 cidades mais afetadas pelo tarifaço

Entre as 10 mais afetadas, o candidato do PL perdeu apenas em Camaçari (BA); Campanha de Lula associou o senador às tarifas de Trump, o que rejeita

Por Nilton Vilanova

Flávio Bolsonaro (PL) atribuiu o tarifaço de Trump ao PT e ao presidente Lula

O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, foi o mais votado em nove das dez cidades mais afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos no primeiro turno, em 4 de outubro. O presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu só em Camaçari (BA). Considerados os 100 municípios mais afetados, Flávio liderou em 92 e Lula, em apenas 8. Os dados são de um levantamento do jornal Folha de S.Paulo, publicado nesta quinta-feira (8). Em todo o país, Flávio venceu em 2.907 municípios (52%) e Lula, em 2.663 (48%).

Tarifaço é o nome pelo qual ficaram conhecidas popularmente as tarifas adicionais que o governo do presidente americano, Donald Trump, aplica a produtos brasileiros, que, em muitos casos, somam 37,5%. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que cerca de R$ 55 bilhões em mercadorias brasileiras estejam sujeitas à dupla taxação.

A Folha de São Paulo cruzou as exportações de 2025 de cada município, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, com a lista de produtos tarifados pelos EUA. As capitais ficaram de fora do estudo, porque, segundo a Folha, possuem economia mais diversificada.

As dez primeiras mais afetadas pelo tarifaço, excetuadas as capitais, em ordem de exportações taxadas são:

  1. Piracicaba (SP): US$ 1,12 bilhão. Flávio, 63,4%; Lula, 27,6%.
  2. Serra (ES): US$ 1,10 bilhão. Flávio, 49,2%; Lula, 42,1%.
  3. Leme (SP): US$ 142,9 milhões. Flávio, 63,5%; Lula, 29,3%.
  4. Camaçari (BA): US$ 137,2 milhões. Lula, 62,2%; Flávio, 30,8%.
  5. Volta Redonda (RJ): US$ 120,4 milhões. Flávio, 50,1%; Lula, 42,1%.
  6. Cruzeiro do Sul (RS): US$ 120,1 milhões. Flávio, 64,4%; Lula, 27,5%.
  7. Santa Cruz do Sul (RS): US$ 118,2 milhões. Flávio, 59,4%; Lula, 30,6%.
  8. Sorocaba (SP): US$ 116,8 milhões. Flávio, 56,5%; Lula, 32,9%.
  9. Ouro Branco (MG): US$ 110,2 milhões. Flávio, 46,4%; Lula, 43,4%.
  10. São Leopoldo (RS): US$ 103,4 milhões. Flávio, 52,8%; Lula, 38,3%.

Piracicaba, polo de máquinas e equipamentos, lidera com cerca de R$ 5,4 bilhões em exportações anuais sujeitas às tarifas. O resultado de Flávio ali supera o de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, quando o ex-presidente teve 61,1% e Lula, 29,4%. O município abriga empresas que fornecem máquinas às indústrias agrícola e automotiva dos EUA, além de exportadores de químicos orgânicos, papel e etanol.

As disputas mais apertadas foram em Ouro Branco, onde a diferença foi de três pontos percentuais, em Serra e em Volta Redonda. Camaçari, no Nordeste, é a única das dez com vitória de Lula. Ouro Branco, de forte indústria siderúrgica, votou em Lula em 2022 e em Flávio agora. A Folha cita outras cidades da lista que também inverteram o voto, como Ribeirão Pires (SP), com queda nas exportações de munições para os EUA, e Bituruna (PR), dependente do setor madeireiro. No total, oito das cem mudaram de lado.

A primeira onda de tarifas, de 50%, foi anunciada por Trump em carta a Lula em 9 de julho de 2025. No texto, ele cita Jair Bolsonaro, então réu no Supremo Tribunal Federal (STF), e diz que o julgamento não deveria estar ocorrendo. Trump chamou o processo de "caça às bruxas". A mesma carta mandou abrir uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras, com base na Seção 301 da lei comercial americana e é a origem das tarifas atuais.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, agradeceu a Trump nas redes sociais pela medida. Duas semanas depois, afirmou que “não haveria recuo” e que só haveria negociação “se o Brasil desse um primeiro passo” nos pontos da carta. O Planalto atribui o andamento da investigação a "ingerência" e "sabotagem" da família Bolsonaro, especialmente após a viagem de Flávio aos EUA. Os Bolsonaro negam.

A nova rodada veio depois do encontro de Flávio e Eduardo com Trump na Casa Branca, na última semana de maio de 2026. Em junho, Trump publicou uma foto ao lado de Flávio após apresentar a proposta de novas tarifas. O PT passou a chamar o episódio de "Tariflávio", e Lula responsabilizou o senador. Flávio diz que pediu a Trump que não taxasse produtos brasileiros. Eduardo disse ter apelado para que uma negociação comercial ficasse para um futuro governo de Flávio.

Em 23 de junho, Flávio anunciou viagem aos EUA para "fazer a defesa das empresas brasileiras". Enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) um documento de 86 páginas pedindo suspensão imediata da tarifa e uma trégua de 180 dias. No texto, escreveu que adiar a medida para depois da eleição eliminaria a impressão de tentativa de influenciar o resultado.

Na audiência, em 7 de julho, disse que a tarifa beneficiaria Lula. Depois, à imprensa, falou em cancelamento: "só quem quer tarifa é o Lula". O então candidato do PSD, Ronaldo Caiado, que declarou nesta quarta (8) apoio a Flávio no segundo turno, chamou de "inaceitável" o pedido de adiamento.

Aliados de Flávio admitiram que o tarifaço favorecia Lula num primeiro momento. Disseram que a visita à Casa Branca o havia "vacinado" contra o desgaste. No Datafolha de 27 de julho, 52% viam o tarifaço como apoio à campanha dele, 34% diziam que Lula tinha razão ao responsabilizá-lo e 28% culpavam Trump.