Entre a memória de Eduardo Campos e a promessa de renovação: a estratégia de João para 2026
Em 2026, João Campos lança, por ora, o seu projeto político mais ambicioso: disputar o Paláio do Campo da Princesas
Aos 32 anos, após um mandato como deputado federal, sendo o mais votado do estado, duas vezes eleito prefeito do Recife e, atualmente, presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB), João Campos lança, por ora, o seu projeto político mais ambicioso: disputar o Governo de Pernambuco.
Filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes, João coloca à prova nas eleições de 2026, além da popularidade construída dentro e fora das redes sociais, o legado familiar. Em ritmo de pré-campanha desde que saiu da gestão da capital pernambucana, ele tem optado por percorrer municípios do Agreste e Sertão do estado.
A estratégia, segundo a análise do cientista político Hely Ferreira, vai muito além da tentativa de se desvencilhar do título de “político TikTok”. “Quem acompanha o comportamento político dos pré-candidatos observa claramente que ele deixou o tom de brincadeira e passou a adotar um perfil mais sério, demonstrando que está maduro e, por isso, tem condições de ser o governador de Pernambuco. Então, ele sai dessa bolha de rede social e vai em busca de outros eleitores”, disse em entrevista ao Diario de Pernambuco.
Ainda segundo Hely Ferreira, o desenho que se forma já neste período de pré-campanha aponta antecipação, principalmente no que se refere ao anúncio da chapa majoritária.
“João Campos tem utilizado muito mais o caminho da antecipação, deixando, em alguns momentos, os adversários em saia justa. Por exemplo, quando ele anunciou a sua chapa majoritária, ele deixou no colo dos seus adversários eleitorais a dificuldade de montar a chapa”, analisou.
Para alguns, a saída de João Campos da prefeitura do Recife foi precipitada. Contudo, na percepção de Ferreira, a pré-candidatura ao governo estadual foi bem articulada.
“Ele escolheu a dedo o vice-prefeito [Victor Marques]. Ele colocou alguém de confiança, com o qual ele tem a certeza de que poderia contar durante a campanha, tendo, assim, um fiel escudeiro na prefeitura da cidade do Recife. A partir disso, ele vai construir uma visibilidade com alguém em quem ele deposita confiança no seu lugar”.
Mirando o futuro e usando o passado
A caminhada de João Campos ao Palácio do Campo das Princesas também está acompanhada das lembranças, feitos e semelhanças com as campanhas do pai, Eduardo Campos. Para Hely Ferreira, a figura do ex-governador de Pernambuco é uma tentativa de João mostrar que pode fazer mais.
Como exemplo prático, as iniciativas "Anota Aí" e "Chega Junto Pernambuco", que promovem encontros em municípios para ouvir demandas e sugestões da população, reproduz a lógica da "Tribuna 40", iniciativa utilizada por Eduardo na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas em 2006, quando percorreu o estado promovendo espaços de escuta direta com os eleitores.
A evocação constante do pai e do bisavô ao longo da carreira política é apresentada como uma estratégia que utiliza memória e herança, o que, conforme o cientista político, mexe com a sensibilidade do eleitorado.
“O eleitor brasileiro é muito levado, às vezes, pela questão da emoção. Quem trabalha com estratégia política está atento a isso. Logo, a campanha, naturalmente, quanto mais ela for ganhando força e visibilidade, vai ser muito mais perceptível essa tentativa de mexer com a memória e o imaginário popular”.
Ao Diario, Hely Ferreira destaca que a figura de Miguel Arraes possui status de “mito” com expressão nacional e de maior lembrança no estado. “Um mito nunca morre. Mito permanece vivo no imaginário das pessoas. Com o falecimento de Miguel Arraes, aquelas pessoas que o seguiam se sentiram órfãs e viram em Eduardo Campos a possibilidade de certa continuidade”.
Na análise de Ferreira, a morte precoce de Eduardo Campos deixou essa parte dos eleitores “duplamente atingida”. “Sabiamente, a gente vai perceber isso na campanha de João Campos, porque ele vai querer trazer de volta a figura do seu bisavô e a figura do seu pai, fazendo com que isso provoque uma nostalgia e uma necessidade de dar continuidade a todo um discurso do mito na política, que é tão presente na história do Brasil”.
Lulismo
Desde o início da pré-campanha eleitoral, João faz questão de frisar que é o único candidato em Pernambuco que tem o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A aliança entre o chefe do Executivo e o ex-prefeito do Recife foi consolidada durante evento no município de Gravatá, no Agreste, no início de junho deste ano.
Na ocasião, Lula declarou, por meio de um vídeo, apoio à pré-candidatura de Campos. “Nós estamos juntos de verdade. O meu partido e eu estamos apoiando João Campos para candidato a governador do estado de Pernambuco, afirmou o presidente.
Para Hely Ferreira, a presença de Lula no palanque do João Campos tem um peso. Entretanto, ele pondera: "Na eleição passada, Lula foi derrotado eleitoralmente em Pernambuco no que diz respeito aos candidatos que apoiou. Ele apoiou Danilo Cabral no primeiro turno, e Danilo sequer chegou a disputar o segundo [turno]. Lula apoiou Marília Arraes, e ela foi derrotada no segundo turno por Raquel Lyra”.
Ao Diario, o cientista político considera que a figura de Lula pode ser usada por João Campos em consonância com a trajetória política, com a memória do bisavô e do pai. “Mas resta saber se ele terá competência para que isso realmente venha a se converter em voto para ser o futuro governador de Pernambuco”.