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De Timbaúba a Massachusetts: o pernambucano eleito nos EUA que levou o estado na bagagem

Reeleito para o quinto mandato, Danillo Sena contou em entrevista exclusiva ao Diario como é sua vida nos EUA, os costumes pernambucanos que mantém e como entrou na política

Por Nilton Vilanova

Aos 14 anos, Danillo deixou Timbaúba para morar nos Estados Unidos, onde cursou Ciências Políticas e seguiu na vida pública

O pernambucano até sai de Pernambuco, mas Pernambuco não sai dele. Com Danillo Sena foi mais ou menos assim. Aos 14 anos, ele deixou Timbaúba, na Zona da Mata Norte do estado, para morar nos Estados Unidos. Mais de duas décadas depois, o menino que atravessou o continente para começar uma nova vida está prestes a assumir o quinto mandato na Câmara dos Representantes de Massachusetts.

A política entrou na vida de Danillo depois de uma trajetória marcada pela adaptação a uma nova língua e uma nova cultura e pela distância da família que ficou em Pernambuco. Hoje, o cientista político atua em terras yankees principalmente em pautas ligadas aos imigrantes, além de defender educação, moradia e proteção ao meio ambiente.

A distância, contudo, não apagou as referências de casa. Timbaúba, para o deputado, continua sendo sinônimo de família, com as lembranças da infância ainda vivas, inclusive na culinária. O cardápio pernambucano atravessou o Atlântico junto com Danillo, que faz questão de manter cuscuz, macaxeira, charque, pipoca doce e, claro, bolo de rolo no dia a dia. Até o futebol entrou na conversa, embora Danillo admita que não seja exatamente um craque de bola.

Em entrevista exclusiva ao Diario, o deputado falou sobre a sua trajetória política, a vida de imigrante, a presença brasileira em Massachusetts e a sua relação com Pernambuco. Danillo deixa claro ainda que, mesmo vivendo nos Estados Unidos há 25 anos, continua tendo duas casas.

Confira a entrevista completa:

Danillo, vamos começar do começo. Você nasceu em Timbaúba e deixou Pernambuco ainda adolescente. Como foi essa mudança?

Timbaúba é a minha cidade natal. Meu pai mora lá e eu tenho um irmão lá. Tenho uma família muito grande em Timbaúba, muitos primos, tias e tios. Eu vim morar aqui com meus 14 anos. Minha mãe já era aposentada no Brasil, era professora em uma escola do estado. E aí ela veio morar aqui em Acton, em Massachusetts, onde moro desde que a gente se mudou, em janeiro de 2001.

Eu fiz Ciências Políticas aqui, mas antes disso fiz o segundo grau, onde conheci o senador James Eldridge, que é o senador estadual aqui em Massachusetts. Eu o conheci e me senti bem representado por ele. Foi depois disso que fui estudar na faculdade e, quando me graduei no curso de Ciências Políticas, fui trabalhar para esse senador - fui o diretor distrital dele por seis anos, representando a região onde moro.

Você chegou aos Estados Unidos com 14 anos. O que lembra desse primeiro período? Sentiu um choque ao sair de Timbaúba, do Nordeste, para os Estados Unidos?

Com certeza foi muito difícil esse princípio porque tem a língua e a família grande que já não tínhamos mais chegando aqui. A dificuldade principal não foi só a língua, mas estar distante da família, do calor humano do brasileiro e da nossa cultura. Ainda bem que tem o Spotify para eu escutar minhas músicas brasileiras. Mas, para mim, a língua e estar distante dos familiares foi o mais difícil.

Quando você ainda morava no Brasil ou no começo da sua vida aí nos Estados Unidos, pensava em atuar na política?

Eu sempre quis estar numa posição onde pudesse ajudar a população. Eu tinha um tio, Zé Canela, que era vereador de Timbaúba. Eu vi de perto como a política funcionava quando tinha uns 8, 9, 10 anos de idade.

Quando vim para cá, nunca imaginei ser deputado estadual, nunca. Para mim, era um sonho que parecia inalcançável, mas trabalhando para um senador estadual eu já cumpria uma função que desejava, que era trabalhar em algum departamento do governo onde pudesse ajudar a comunidade e aproximar o governo das pessoas. Essa é a minha maneira de sempre estar trabalhando para o governo.

Você passou por uma questão migratória complicada antes de conseguir a regularização. Isso influenciou sua entrada na política?

Isso influenciou não a entrar na política, mas a lutar pela pauta do imigrante. A maioria dos imigrantes está aqui para trabalhar, mora há muitos anos, tem família e filhos nascidos aqui. O governo atual querer deportar essas pessoas não faz sentido para mim.

Por isso, sempre tento lutar em defesa dos trabalhadores e dos imigrantes. Aprovamos uma lei que permite a carteira de motorista sem checar o status migratório e aprovamos o Protect Act, que dá mais segurança para o imigrante para que o ICE não prenda pessoas em locais como instituições de ensino, religiosas, fóruns e hospitais.

E você vê um pouco da sua própria história nessas pessoas?

Com certeza. Eu acho que a política é formada pelas experiências de vida de cada um de nós.

Danillo, tem algum costume pernambucano que você exportou para aí? Comida, futebol, música, São João... Tem algo de que você não abre mão?

Eu até brinco que não posso dizer que sou do Brasil, porque o pessoal pensa que jogo futebol muito bem. Fui melhorando depois, mas eu sinto falta.

Lembro-me de que depois da igreja a gente saía e comia aquelas pipocas doces. Quando fui ao Brasil no ano passado, fiz questão de levar meus filhos para experimentar essa pipoca, pois o cheiro e o sabor são inigualáveis.

Adoro comer carne de charque com macaxeira e cuscuz, e tento trazer um pouco dessa cultura para os meus filhos nos Estados Unidos.

Você tem acesso a essas coisas aí?

Sim, muitos supermercados aqui já têm produtos do Brasil.

Você já encontrou muitos pernambucanos em Massachussetts? E como é essa identificação?

Demais, muitos. Recebi muitos telefonemas e mensagens nas redes sociais me parabenizando, pessoas dizendo que é um orgulho, inclusive familiares no Brasil. Para mim, esse reconhecimento é muito bom, pois às vezes o servidor público trabalha e não é reconhecido. Para mim, essa é a minha função.

Quatro brasileiros foram eleitos aí em Massachusetts, você e mais três. Como você avalia esse crescimento da presença brasileira na política do estado?

Acho que quebrei barreiras em 2020 como o primeiro. Agora temos três deputados trabalhando em Massachusetts; duas já trabalham comigo e a terceira está vindo. Isso fortalece nossa comunidade, pois queremos representação no nível estadual, já que em Massachusetts há uma grande população brasileira, vinda de Pernambuco, Minas Gerais e de todas as partes do Brasil.

Você acompanha a política brasileira?

Sim, sempre tento assistir ao jornais brasileiros.

Danilo, pensei em te poupar dessa pergunta, mas o meu dever me obriga. Tem algum político brasileiro ou pernambucano com quem você se identifique ou admire? Seu tio não vale.

Eu me identifico bastante com o presidente Lula e fico feliz por ele ter sido reeleito. Aqui nos Estados Unidos, o senador Ted Kennedy me motivou muito por sua luta pelos direitos dos imigrantes. Eu me conectei muito bem com ele também. Dei um do Brasil e um da América para você.

Se pudesse trazer uma coisa de Massachusetts para Pernambuco e uma de Pernambuco para Massachusetts, o que você levaria de um lugar para o outro?

Em termos de comida... o bolo de rolo seria algo incrível para integrar mais a cultura americana, pois ainda é desconhecido. De Massachusetts, eu levaria a Cherry Pie, a torta de cereja, que aprecio muito aqui, assim como gosto da Apple Pie, a torta de maçã, mas a Cherry Pie é algo que acho que o brasileiro também iria gostar.

Você já voltou a Timbaúba depois que foi morar nos Estados Unidos?

Sim, várias vezes. Tento ir ao Brasil a cada um ou dois anos para ver minha família. Continuo muito presente em Pernambuco e quero uma maior aproximação entre Massachusetts e Pernambuco em termos de exportação e importação, para unir mais os dois estados. Quando estive no Brasil, cheguei a me reunir com a vice-governadora de Pernambuco (Priscila Krause) para buscar essa integração.

Qual é a sua lembrança mais forte de Timbaúba? Quando você pensa na sua cidade natal, o que vem à cabeça?

São os familiares e as festas de aniversário de quase todo fim de semana. Sempre havia motivos para celebrar com os primos e tios. Essa convivência familiar marcou minha infância e é do que mais sinto falta.

Hoje você se considera mais americano, mais brasileiro ou está no meio do caminho?

Eu me considero os dois. Sinto-me em casa tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, pois já convivi muitos anos nos dois lugares. Massachusetts é minha casa, e Pernambuco também é minha casa.

O deputado gosta de futebol?

Gosto, gosto. Eu jogo nos fins de semana, mas no inverno dou uma parada porque é muito frio, embora o pessoal não pare e jogue até de jaqueta e calça comprida.

 E qual é o seu time aqui em Pernambuco?

Na verdade, eu não sigo muito esses times, mas tenho que torcer para o Sport, porque o Sport é de Pernambuco.

E se você tivesse que descrever Pernambuco para um americano, o que diria? Como descreveria para eles?

Eu sempre falo das praias nordestinas, de Porto de Galinhas, e de Pitimbu e João Pessoa, na Paraíba, com seus arrecifes e peixinhos. É uma experiência única para os americanos, pois o Brasil é um país tropical de águas quentes, enquanto aqui temos as quatro estações bem definidas.

E, para finalizar, depois desse novo mandato, qual é a primeira coisa que você gostaria de oferecer aos seus eleitores? Qual é a sua bandeira?

Minhas pautas prioritárias continuam sendo moradia, educação e proteção ao meio ambiente. Tenho um projeto de lei para testar a qualidade da água de poços artesianos em transações imobiliárias para evitar problemas de saúde por contaminação do solo em certas cidades que represento.

Alguma chance de voltar ao Brasil e trabalhar com política aqui?

(Risos) Não faça essa pergunta! Eu moro aqui, mas se estivesse no Brasil, acho que também estaria na política, pois gosto de ajudar e representar a comunidade. Estou numa posição que sempre sonhei e devo muito disso à mentoria e ao apoio do senador Jim Eldridge, que me ensinou bastante a representar a população.