Líderes mundiais reagem à vitória dos democratas nas eleições EUA
A repercussão internacional também reflete a preocupação dos governos estrangeiros com os possíveis efeitos da mudança
A vitória histórica do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos provocou repercussão internacional e, segundo os especialistas, acendeu um alerta político para o presidente Donald Trump e o Partido Republicano.
O resultado, considerado uma derrota expressiva e sem precedentes para os republicanos, foi interpretado como um sinal de insatisfação geral do eleitorado norte-americano com os rumos do governo, sobretudo devido a derrotas republicanas nos principais estados-chave, inclusive em tradicionais redutos, como Texas, Kansas, Carolina do Sul, Iowa, Ohio. As eleições intermediárias, conhecidas como midterms, são tradicionalmente vistas como um importante termômetro da aprovação presidencial. A conquista democrata na Câmara dos Representantes e do Senado, as duas casas do Congresso, representa uma mudança significativa no equilíbrio de forças em Washington e poderá limitar a capacidade de Trump de implementar sua agenda política nos próximos dois anos.
A repercussão internacional também reflete a preocupação dos governos estrangeiros com os possíveis efeitos da mudança na correlação de forças do Congresso americano sobre a política externa dos EUA. Para os líderes mundiais, entretanto, o resultado representa um recado político que ultrapassa as fronteiras americanas: a insatisfação com o populismo, a polarização, as dificuldades econômicas e os conflitos internacionais começa a produzir consequências eleitorais de grande dimensão.
A vitória democrata, portanto, não representa apenas uma derrota histórica para os republicanos. É também um acontecimento com potencial para alterar o equilíbrio político global e influenciar as relações diplomáticas, comerciais e estratégicas dos EUA com seus principais aliados e adversários.
Uma das reações internacionais mais enfáticas foi do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, um dos principais críticos europeus de Trump. Em manifestação nas redes sociais, ele afirmou que os americanos votaram contra políticas que empobrecem a população, contra o ódio, o machismo, o negacionismo climático e os privilégios das elites. Sánchez interpretou o resultado como mais um sinal de enfraquecimento da onda populista de direita no cenário internacional.
Na Europa, as manifestações foram marcadas por uma mistura de otimismo e cautela. A diplomacia da União Europeia demonstrou expectativa de que o novo Congresso americano amplie o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia e fortaleça a cooperação em questões ambientais e de segurança internacional. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, destacou que EUA e Europa são mais fortes quando trabalham juntos. “A expectativa é que a nova composição parlamentar facilite a articulação de medidas de apoio a Kiev e aumente a pressão internacional sobre Moscou”, avaliou.
Na Alemanha, o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, manifestou expectativa de ampliar a cooperação com Washington. O governo alemão também vê a mudança no Congresso como uma oportunidade para fortalecer o apoio americano à Ucrânia, embora reconheça que as relações bilaterais continuarão dependendo das decisões de Trump.
O primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, considerou o resultado como um poderoso sinal de mudança na orientação política dos eleitores americanos. DE acordo com o premiê, as novas vozes que ganham espaço no Congresso estão mais próximas das posições norueguesas e europeias em temas como meio ambiente, política externa e ajuda ao desenvolvimento.
Já o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, buscou destacar a oportunidade de cooperação britânica e internacional, que poderá ajudar a concentrar os esforços dos governos no fim dos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, além do enfrentamento da crise do custo de vida.
Em Israel, a derrota republicana foi recebida com preocupação por setores políticos próximos ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, um dos principais aliados internacionais de Trump. O resultado representa um possível enfraquecimento de uma parceria política que vinha exercendo forte influência nas relações entre Washington e o governo israelense.
Mas, na África do Sul, o presidente Cyril Ramaphosa disse que o resultado poderá inaugurar uma nova etapa nas relações internacionais. O líder sul-africano demonstrou esperança de que essa vitória abra espaço para uma aproximação diplomática entre Washington e Pretória, apos meses de tensões com a administração Trump.
A Rússia, por sua vez, adotou uma postura mais reservada. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou esperar que Trump continue seus esforços de negociação pela paz. Enquanto, o vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, alertou que o retorno dos democratas no controle do Congresso deve dificultar ainda mais as relações entre os dois países.
O Japão e a China adotaram discursos mais diplomáticos. Tóquio salientou que a aliança estratégica com os EUA permanece sendo essencial para a segurança global. Por sua vez, Pequim apontou as eleições como um assunto interno americano e defendeu a continuidade do diálogo entre as duas maiores economias do mundo.
Apesar das manifestações de satisfação de alguns governos, analistas advertem que a vitória democrata não significa uma mudança imediata na política externa dos EUA. Trump continuará na presidência e manterá poderes importantes para conduzir decisões diplomáticas, comerciais e militares. Além de já ter ressaltado que irá priorizar o seu poder de veto nas demandas legislativas.
A principal consequência da derrota republicana deverá ocorrer dentro dos EUA, com o Congresso sob controle democrata e maior capacidade de fiscalizar o Executivo, convocar investigações e bloquear iniciativas presidenciais.