° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Recuperação judicial das Casas Bahia e de outras grandes redes do varejo não é uma mera coincidência

Juros altos, endividamento das famílias e marketplaces chineses têm sua responsabilidade, mas o setor vem passando por um processo de transformação há décadas que levou ao esgotamento a estratégia do "Quer pagar quanto"

Por Pedro Ivo Bernardes e Pupi Rosenthal

Casas Bahia é uma das grandes companhias que entraram com pedido de recuperação judicial neste ano

O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, que assumiu ares de escândalo na última semana, pegou o Brasil de surpresa com a demissão de 2 mil trabalhadores, o fechamento de 300 lojas e leilão de eletrodomésticos com descontos de até 60%. A insolvência da rede infelizmente não é um caso isolado no varejo brasileiro, ela repete o que aconteceu com Americanas, Polishop, Tok&Stok e, também este ano, o Grupo Pão de Açúcar.

Colocar a culpa nos juros, no endividamento das famílias e nos marketplaces chineses (Shein, Shopee e Aliexpres) é simplificar o debate. Esses componentes têm sim a sua relevância e sua parcela de responsabilidade, mas o setor enfrenta atualmente um cenário de “tempestade perfeita”, jargão econômico que se refere a uma conjunção de fatores que amplia o potencial de uma crise.

“Quer pagar quanto?”

A taxa Selic, a baliza dos juros no mercado brasileiro, atualmente está em 14%, mas entre junho de 2025 e março deste ano ficou estacionada em 15%. Esse período de alta, que ainda persiste, representa custos maiores para as companhias financiarem investimentos, capital de giro e seus passivos. Na outra ponta, significa maior endividamento das famílias (que chegou a 82% no primeiro semestre) e dificuldade de obtenção de crédito.

Para uma empresa que sempre teve como carro- chefe produtos de maior valor e dependente do crediário, como TVs, geladeiras, fogões e máquinas de lavar, a queda nas vendas foi inevitável. É o caso das Casas Bahia, que tinha o slogan “Quer pagar quanto?” repetido pelo seu garoto-propaganda, Fabiano Augusto, a cada novo produto, enquanto apresentava o parcelamento em 24 vezes.

Shopee, Shein e Aliexpress

Apontadas como as grandes vilãs do varejo brasileiro, as plataformas de e-commerce chinesas nunca tiveram grande impacto nas vendas de produtos de maior valor, como os vendidos pela rede. O impacto existe sim, mas é bem concentrado no segmento de moda e vestuários, produtos eletrônicos e eletrodomésticos de pequeno porte.

Isso não significa, no entanto, que as Casas Bahia ficaram imunes ao comércio eletrônico. Eles apenas mudaram de nome: Mercado Livre, Amazon e Magazine Luiza - marketplaces que, inclusive, desempenham o papel de colocar micros e pequenos negócios no jogo, oferecendo vitrine e logística.

Transformação do varejo

As mudanças no varejo brasileiro vêm acontecendo há décadas. Primeiro entraram em cena os shopping centers, que passaram a competir com as lojas de rua oferecendo comodidade, ambiente climatizado e diversificação de serviços.

Grandes corredores do comércio recifense, como as Rua Nova, Imperatriz e Duque de Caxias sofreram o primeiro baque. O segundo veio com as plataformas de comércio on-line, intensificado na pandemia, que acelerou o processo de transformação no setor.