Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux são homenageados no 36º Cine Ceará
Homenagens a Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux marcam a abertura do 36º Cine Ceará, em Fortaleza, após o sucesso internacional de "O Agente Secreto"
Publicado: 08/11/2026 às 15:26
Kleber Mendonça Filho e Emilie estão juntos na vida e no cinema há mais de duas décadas (Foto: Chico Gadelha)
A temporada histórica de “O Agente Secreto”, que rendeu quatro indicações ao Oscar 2026, terminou há pouco mais de oito meses. As celebrações em torno do diretor Kleber Mendonça Filho e da produtora Emilie Lesclaux, no entanto, continuam.
Em reconhecimento à contribuição de ambos para o audiovisual brasileiro ao longo de quase três décadas, o 36º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema prestou homenagens a cada um com o troféu Eusélio Oliveira durante a cerimônia de abertura, realizada no último sábado (7), no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza. O Diario de Pernambuco acompanhou o evento e conversou com exclusividade com os homenageados.
A história do casal começou no Recife, em 2002. Recém-chegada à cidade para trabalhar no Consulado-Geral da França, Emilie conheceu Kleber na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Na época, o cineasta era programador de cinema da instituição, enquanto a produtora ajudava a organizar mostras e retrospectivas de filmes franceses.
O encontro deu início a uma parceria que entrelaçou a vida afetiva e a produção cinematográfica dos dois. “No começo, talvez tivéssemos mais divergências e conflitos. Hoje, já conheço muito bem o Kleber. Sei quando ele não vai gostar de alguma coisa e também sei que posso contar com ele para encontrar soluções. Somos muito parceiros nessas situações”, observa Emilie. Juntos, eles fundaram, em 2008, a CinemaScópio Produções, que já lançou mais de dez filmes.
A homenagem ao cineasta pernambucano é carregada de simbolismo: foi exatamente no Cine Ceará que “Enjaulados” (1997), seu curta de estreia, teve a primeira exibição nacional. 29 anos depois, ele retorna ao festival com um novo curta-metragem, exibido neste sábado fora da competição.
Trata-se de “Sul do Teerã”, que investiga a trajetória do diretor iraniano Jafar Panahi e sua resistência diante da censura no Irã. “Fico muito feliz porque meus filmes são muito vistos no Brasil. Talvez eu lidasse com as coisas de outra maneira se eles não tivessem essa circulação por aqui e eu recebesse reconhecimento apenas no exterior”, diz Kleber.
Para Emilie, a distinção concedida pelo festival foi uma oportunidade rara de ter o próprio trabalho colocado em evidência. Sua atuação, concentrada sobretudo nos bastidores, ainda não havia recebido um reconhecimento individual dessa dimensão.
“Estamos sempre reagindo aos problemas e encontrando soluções para aquilo que aparece durante o processo”, resume a produtora, cujo primeiro trabalho foi o curta “Eletrodoméstica (2005) . Entre os filmes que produziu ao lado de Kleber, ela aponta “Bacurau” (2019) como o mais difícil de realizar.
“Era o mais ambicioso até aquele momento, mas o orçamento não correspondia a essa dimensão. Em determinado momento, eu não sabia se conseguiríamos continuar a produção. Foi muito difícil, mas, ao mesmo tempo, uma experiência incrível”, relembra.
A dupla já tem um novo projeto no horizonte. Com o título provisório de “O Correspondente Estrangeiro”, o filme vai explorar a presença de nazistas no Recife dos anos 1930 e poderá reunir novamente Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura. “O desafio é fazer um filme historicamente correto, tanto na pesquisa quanto na reconstrução de época, mas que também seja muito moderno. Não quero fazer um filme de museu. Quero fazer uma obra sobre o presente, mesmo estando ambientada nos anos 1930”, destaca Kleber.
Programação do Cine Ceará
Também na abertura do festival, foi exibido o longa brasileiro “Terra Firme”, responsável por inaugurar a Mostra Competitiva Ibero-americana de Longa-metragem. A disputa segue até a próxima sexta-feira (13), com mais um representante do Brasil: o documentário “Trapiá, Um Outro Sertão”, dirigido por Bertrand Lira.
Completam a seleção os filmes “Sob o Mesmo Sol” (República Dominicana/Espanha), de Ulises Porra; “Nunkui” (Equador/Chile/Alemanha), de Verenice Benítez; “Eu não morrerei de amor” (Espanha/Bélgica), de Marta Matute; e “Não Há Ida Sem Retorno” (Peru), de Carlos Sánchez Giraldo.
*O jornalista viajou a convite do evento