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Com Filipe Bragança, ‘100 Dias’ reconta aventura do homem que cruzou o Atlântico em um barco a remo

Na cinebiografia dirigida por Carlos Saldanha (de 'Rio' e dois 'A Era do Gelo'), o ator encarna Amyr Klink, que fez história em 1984 ao cruzar o oceano Atlântico em um barco a remo

André Guerra

Publicado: 29/10/2026 às 18:40

Filme aborda desafios físicos e emocionais da jornada de Amyr na forma de aventura clássica/Foto: Adriano Vizoni/Disney

Filme aborda desafios físicos e emocionais da jornada de Amyr na forma de aventura clássica (Foto: Adriano Vizoni/Disney)

Em uma das mais impressionantes travessias da história, o navegante brasileiro Amyr Klink partiu sozinho, em junho de 1984, do porto de Lüderitz, na Namíbia (sudoeste africano), em direção à Praia da Espera, na Bahia. A bordo de um barco a remo, ele enfrentou cerca de 6.500 km até chegar ao território brasileiro, trajeto que inspirou o livro autobiográfico “Cem Dias entre o Céu e o Mar”, lançado em 1985. O autor viria a lançar várias outras publicações baseadas nas suas viagens.

A aventura de Amyr, que segue fazendo várias outras até hoje, inspirou a aguardada adaptação cinematográfica “100 Dias”, em cartaz nos cinemas, protagonizada por Filipe Bragança. Carlos Saldanha, diretor celebrado de animações como “A Era do Gelo” e “Rio”, faz aqui seu primeiro longa-metragem em live-action e importa muito do espírito da animação para o projeto.

Adaptado por Elena Suarez e Thais Tavares, o roteiro faz o possível para contornar o fato de que o público, em tese, já entra na sessão sabendo o final da travessia. Toda a tensão prática que o cineasta busca construir com os desafios externos do protagonista acaba tendo impacto apenas momentâneo. O foco, assim, acaba recaindo sobre os flashbacks, que levam o espectador a conhecer melhor a relação dele com os pais e o que o levou a se arriscar dessa maneira.

Felipe Camargo, que interpreta Jamil Klink, pai de Amyr, torna-se o mais próximo de um antagonista que a narrativa ganha, já que os obstáculos do mar, por mais extremos que sejam, parecem, dentro da abordagem branda de Carlos Saldanha, alguns percalços de percurso, pequenas tarefas diárias.

As participações de Philippine Leroy-Beaulieu, no papel da mãe (Asa Frieberg Klink), e de João Vitor Silva como o irmão (Tymur Klink), complementam bem a tentativa de conexão com o público, mas Para toda sua competência plástica e funcionalidade estrutural, "100 Dias" carece justamente de um impulso emocional e um senso de perigo. que segurem o peso das quase duas horas.

Nesse sentido, Filipe Bragança precisa carregar um peso dobrado nas costas, não só para dar conta de transmitir o cansaço físico, que a montagem insiste em quebrar, como em revelar elementos psicológicos mais específicos dessa jornada. As cenas mais quietas, dentro do barco, são simples, mas eficazes em termos de dramaturgia. 

Os efeitos visuais têm um aspecto lúdico que quase leva a imaginar como "100 Dias" teria sido caso fosse uma animação como outras de Saldanha. O formato de desenho possibilita coisas que a cinebiografia clássica, por se ater demais às miudezas da verossimilhança, frequentemente transforma em amarras. 

Que bom, por outro lado, que o filme existe tal foi concebido e pensado. Raros são os projetos desse gênero específico na produção brasileira de grande porte e, certamente, o estilo tradicional visto aqui tem potencial de atingir uma plateia grande. O saldo é tão aprazível que quase convence o iniciante no remo de que uma aventura dessa grandeza seria viável em alguma realidade que não na das causas impossíveis. E, talvez, tenha sido justamente essa a intenção.

Em entrevista ao Diario, o diretor fala sobre a transição entre formatos cinematográficos e como ela ajudou na criação do longa. “Na animação, a gente se acostuma a imaginar as coisas antes de tê-las na nossa frente, o que foi muito importante, especialmente em um filme que envolve efeitos especiais bastante complexos”, destaca Saldanha. “Aprendemos também a importância da imagem, de falar pouco e dizer muito. Nessa jornada de Amyr, isso foi essencial”.

Filipe Bragança, que também ressalta a rotina desafiadora de “100 Dias”, seu papel de maior destaque no cinema até hoje. “Tive que ficar sozinho bastante tempo, aprender a remar, compreender a dinâmica do barco e também emagrecer para entrar totalmente no personagem. Mas, independentemente de ser uma história verídica ou não, minha abordagem é sempre a mesma: entender o que o roteiro e a direção pedem e jamais fazer uma imitação”, explica o ator.

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