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CRÍTICA

'Vicentina Pede Desculpas' usa acidente de ônibus para examinar múltiplas camadas do luto materno

Exibido na Premiere Brasil do 28º Festival do Rio, drama dirigido por Gabriel Martins (de 'Marte Um') terá exibições em cinemas selecionados a partir de 5 de novembro e chega ao catálogo da Netflix no dia 20 do mesmo mês

André Guerra

Publicado: 10/10/2026 às 06:00

Comovente atuação de Rejane Faria no papel principal é o ponto alto do filme/Netflix/Divulgação

Comovente atuação de Rejane Faria no papel principal é o ponto alto do filme (Netflix/Divulgação)

Uma das produções brasileiras de maior destaque internacional desta temporada, o drama "Vicentina Pede Desculpas" teve sua estreia latino-americana na Première Brasil do 28º Festival do Rio. Dirigido por Gabriel Martins (de "Marte Um"), o filme foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto 2026 e chega ao catálogo da Netflix no dia 20 de novembro, após exibições em cinemas selecionados a partir do dia 5 do mesmo mês.

A trama parte da trágica queda de um ônibus de um viaduto. O veículo estava sendo conduzido por Wesley, que morreu junto com diversas vítimas do acidente. Terá sido mesmo um acidente? Essa é a dúvida que assombra Vicentina (Rejane Faria), a mãe do motorista. Professora aposentada de 75 anos, ela decide contatar os familiares mais próximos dos falecidos para conversar e pedir desculpas em nome do filho.

Ao longo de quase 2h30 de duração, o trabalho de Gabriel Martins é uma meditação que investiga muito mais do que o luto dessa mãe atormentada. Trata-se de uma protagonista que mal conseguiu absorver todo o sentimento de perda que a consome. O ato de se dirigir a essas pessoas desconhecidas em uma circunstância tão delicada se transforma, assim, em um misto de compartilhamento da dor e tentativa de desvendar um mistério.

Se "Marte Um", primeiro longa-solo do diretor, tirava momentos de leveza genuína dos problemas familiares, "Vicentina Pede Desculpas" estabelece o peso da situação logo na impressionante cena inicial. O contraste entre a brutalidade do acidente e a linguagem contemplativa de Gabriel Martins confere ainda mais impacto à abertura — e estabelece uma sensação de fatalismo que perdura pela maior parte da projeção.

Ainda que a abordagem episódica ameace se tornar repetitiva (e frequentemente, de fato, acabe caindo na reiteração emocional), a cada novo encontro de Vicentina a narrativa descasca uma nova camada do seu sofrimento. O roteiro foge de romantizações fáceis dessa atitude, em princípio tão nobre, da parte dela. Participações de Fábio Leal, Carlos Francisco e Flávio Bauraqui explicitam justamente esses diferentes pontos de vista diante da situação, enriquecendo o conflito e confrontando a percepção do espectador.

Nenhum questionamento, no entanto, é capaz de abalar a conexão afetiva do público com Rejane Faria. Um dos mais reconhecíveis rostos da Filmes de Plástico, produtora mineira responsável pelo filme, a atriz ganha aqui espaço de sobra para explorar sua capacidade imediata de gerar empatia. A sequência final, que adiciona esperança e delicadeza ao conjunto sem cair no sentimentalismo, revela o poder dramático que seu close é capaz de provocar.

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