Documentário sobre uso de IA por Israel para atacar Gaza é ovacionado no Festival de Veneza e disputa o prêmio principal
É a única obra documental selecionada entre os 21 títulos que disputam o prêmio máximo do festival italiano
Publicado: 11/09/2026 às 17:39
O filme foi realizado pelos jornalistas de investigação Yuval Abraham e Rachel Szor, e produzido pelo jornal britânico The Guardian. ( Foto: Stefano RELLANDINI / AFP)
O documentário israelense "Naza" ("danos colaterais" na gíria militar) estreou ontem no 83º Festival de Cinema de Veneza e concorre ao Leão de Ouro na competição principal. É a única obra documental selecionada entre os 21 títulos que disputam o prêmio máximo do festival italiano. O filme, realizado pelos jornalistas de investigação Yuval Abraham e Rachel Szor, e produzido pelo jornal britânico The Guardian, quebrou o recorde da edição ao receber 25 minutos de aplausos do público presente.
O longa examina os sistemas militares e os mecanismos estatísticos de ataque usados pelas forças israelenses que resultaram na morte de civis palestinos na Faixa de Gaza. Baseado em 24 testemunhos anônimos de membros das próprias forças armadas e dos serviços de informações de Israel, o filme aborda a alegada estratégia seguida pelo exército israelense para devastar Gaza, com destaque para o uso de componente tecnológico da inteligência artificial (IA).
No documentário alguns oficiais revelaram que podiam vigiar qualquer pessoa com um celular no enclave. Outro entrevistado se apresentou como o criador de um sistema que, usando algoritmos e IA, conseguia determinar onde e quantas as pessoas estavam concentradas dentro de um edifício. Também há relatos sobre bombardeios que matam mulheres e crianças no caso de um membro do grupo Hamas for detectado na mesma área. A partir daí, a decisão de bombardear foi estatística, não levando em conta os danos colaterais, as vítimas civis de cada ataque.
A dupla de cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor dirigiu também, com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, o documentário "No Other Land" (Sem Chão), vencedor de um Oscar em 2025, sobre o plano israelense de destruição e desalojamento dos habitantes palestinos de uma aldeia na Cisjordânia.
Israel nega as acusações
O Exército de Israel rejeitou categoricamente que as decisões sobre bombardeios na Faixa de Gaza sejam tomadas por inteligência artificial (IA), contrariando os testemunhos do documentário "Naza". “As decisões relativas à seleção e aprovação de ataques são tomadas exclusivamente por pessoal humano, de acordo com as diretrizes das Forças de Defesa de Israel, e não por inteligência artificial", declarou.
O Exército israelense também questionou a veracidade dos testemunhos e critica o filme por se basear em testemunhas anônimas cuja identidade não pode ser verificada, nem se serviram nas Forças de Defesa de Israel, em que função ou se estiveram envolvidas nos assuntos em causa.
Mas esta prática não é desconhecida no país dada à seriedade e sensibilidade do tema, segundo publicou a agência de noticias EFE, como é o caso da ONG israelense de defesa dos direitos humanos Breaking the Silence, formada por ex-militares veteranos. Estes coletam e publicam depoimentos confidenciais de soldados e reservistas sobre suas experiências militares nos territórios palestinos ocupados.
"Incluem afirmações sobre estratégia nacional e militar que excedem claramente o conhecimento dos soldados de baixa patente. Qualquer soldado que testemunhe uma violação da lei é obrigado, de acordo com as ordens militares, a denunciá-la para que a necessidade de abrir uma investigação possa ser avaliada", contestou o Exército, sublinhando que isto também se aplica às pessoas entrevistadas para o filme.
Entretanto, as poucas investigações que o exército israelense abre em casos comprovados de ataques dos seus soldados contra civis na Faixa de Gaza raramente resultam em acusações formais ou condenações
A guerra na Faixa de Gaza foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns. Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave palestino, que causou uma catástrofe humanitária, com mais de 73 mil mortos, milhares de feridos e doentes, fome, escassez de itens essenciais, deslocação de centenas de milhares de pessoas e destruição de quase todas as infraestruturas do território.
Desde o início do atual cessar-fogo, acordado em outubro do ano passado, as autoridades de Gaza contabilizam mais de 1.300 palestinos mortos em ataques das forças israelenses, que ainda mantêm altas restrições à entrada de jornalistas e observadores independentes no território.