Na comédia 'Muito Prazer', motel é cenário de um perigoso esquema de exposição de privacidade
Filme é dirigido por Jorge Furtado, de clássicos como 'Ilha das Flores' e 'Saneamento Básico — O Filme', e traz Daniel de Oliveira e Luisa Arraes nos papéis principais
Publicado: 27/08/2026 às 07:30
Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones criam um esquema lucrativo criminoso para reativar motel (Foto: Fabio Rebelo)
Quando tudo parece perdido para o motorista de aplicativo Rubem (vivido por Daniel de Oliveira), uma herança inusitada cai de paraquedas: um motel em ruínas que era propriedade de seu tio, sem filhos. A sensação de solução para todos os problemas dura pouco, já que o lugar está afundando em dívidas e mal conseguia pagar a ex-funcionária Grace (Luisa Arraes), que ficou morando lá desde o fechamento. Junto com ela, o novo dono bola um plano mirabolante para a reativação: gravar os clientes para vender os vídeos para sites eróticos.
Já em cartaz no Recife, a comédia "Muito Prazer", novo trabalho de Jorge Furtado, recupera a energia satírica de alguns de seus filmes mais célebres, em especial o jovem clássico "Saneamento Básico — O Filme". Mas, desta vez, com um tom contemporâneo particular. A partir do momento em que os dois personagens centrais ganham a colaboração digital de Nalva (Samantha Jones), os temas que compõem o roteiro se desdobram em consequências comicamente reais, com reflexões que vão do vouyeurismo ao direcionamento virtual da pornografia.
Em entrevista ao Diario, o cineasta gaúcho destaca que a ideia surgiu da intenção de abordar o universo dos algoritmos. "Lembro das primeiras vezes que apareciam para mim recomendações do tipo: 'se você gostou desse filme, vai gostar desse outro', entre outras coisas. Isso me fez pensar em como isso se aplicaria à paixão, à sexualidade e aos afetos", explica. "O universo da pornografia existe há muito tempo, mas o meio digital o difundiu de forma exponencial, já que hoje qualquer um tem acesso a ele, do seu próprio quarto, sem ser visto. Eu queria explorar como esses desejos são catalogados, e isso me levou a uma pesquisaque revelou números impressionantes".
A abordagem contemporânea é perceptível na textura digital da fotografia assinada por Livia Pasqual e no design de produção de Fiapo Barth e Dayane Paz, que aposta em um colorido das cenas internas em contraste com o motel em ruínas que foi cenário do filme. A locação teve sua estrutura reformada pela produção para, ainda assim, parecer em um estado bem específico de abandono.
A fisicalidade desse espaço é essencial para a atmosfera do filme, que, como reitera Jorge Furtado, lida tanto com a esfera analógica da sexualidade quanto com a virtual. "Enquanto a internet é esse universo digital gigantesco, o motel é um mundo físico, que, no caso aqui, materializa diversos tipos de fetiche. Queria relacionar os dois pólos que, juntos, se unem a um debate sobre o desejo do ser humano por observar a privacidade do outro, o que é, essencialmente, a lógica do próprio cinema", reflete o realizador.
Personagens erráticos afáveis aos olhos do público fazem parte da filmografia de Furtado desde sempre, como no icônico "O Homem que Copiava", de 2003. O uso do senso de humor como convite inicial para introduzir temas pesados também se mostram presentes desde "Ilha das Flores", curta antológico de 1989. Em "Muito Prazer", a leveza toma conta da maior parte da duração, mas a urgência ainda se faz sentir.
"As pessoas tem que torcer pelos personagens. São jovens desempregados, mas talentosos, cada um na sua área. Acho que esse quadro dos protagonistas reflete muito o mundo atual, com tantos jovens sem tanta perspectiva de qual é de fato a sua vocação", acrescenta o diretor. "Vejo tanta gente monetizando conteúdo digital e saindo daquele padrão de profissões que antigamente as pessoas tinham na ponta da língua. Meu interesse era contar uma história sobre o presente".
Durante a conversa com o Diario, Jorge Furtado, perguntado sobre a lista de possíveis representantes na busca por uma vaga no Oscar 2027, declara ainda a importância do cinema brasileiro produzir pensando sobretudo no público nacional. "É excelente quando conseguimos chegar naquela premiação porque, evidentemente, ajuda a divulgar e difundir a nossa produção. Mas os nossos filmes e realizadores não podem ficar reféns do Oscar", afirma.
Ele conclui apontando números alarmantes: "Mais de 100 filmes do último ano não alcançaram nem 1000 espectadores nas salas do Brasil, então algo está errado aí. Será filmes demais sendo lançados na tela grande e que deveriam ir para outros lugares? Obras que não se conectam com o público? Má distribuição? Tudo tem que ser pensado. Precisamos debater mais sobre como chegar nas pessoas do que sobre como chegar ao Oscar", enfatiza o diretor.