Jornalista e escritor Homero Fonseca morre no Recife, aos 78 anos
Autor premiado e ex-editor-chefe do Diario de Pernambuco, ele deixa um legado de mais de uma década à frente de redações e 15 livros publicados
Publicado: 22/08/2026 às 19:22
O jornalista Homero Fonseca na sacada do Diario de Pernambuco, no edifício-sede na Praça do Diario, em dezembro de 2000 (Alcione Ferreira/Acervo DP)
Na tarde deste sábado (22), o jornalista, escritor e curador pernambucano Homero Fonseca faleceu aos 78 anos, no Recife, em decorrência de um câncer de pâncreas. A informação foi confirmada pelo filho do profissional, José Henrique Fonseca.
Homero foi editor-chefe do Diario de Pernambuco e abrilhantou o jornalismo brasileiro com seu trabalho durante décadas. Descrito por colegas de profissão como "dono de um texto de muito estilo, verve e humor" e como "um editor rigoroso", o jornalista manteve sua produção ativa até dezembro do ano passado, quando lançou o romance "Jaraguá: O Herói Inzoneiro".
Ao longo de sua trajetória profissional, Homero Fonseca colaborou com importantes redações do país. Natural de Bezerros, no Agreste de Pernambuco, foi repórter d'O Estado de S. Paulo, do Jornal do Brasil e do Jornal do Commercio. Como editor-chefe do Diario, ele conduziu a informatização do jornal, quando substituiu as máquinas de escrever por computadores, e implementou a função de repórter especial.
"Como diretor de redação, ele era um chefe que acreditava nas pessoas, na equipe. Era ousado. Arriscava", recorda o jornalista Inácio França, um dos primeiros repórteres especiais do Diario e atual editor-chefe da Marco Zero Conteúdo. "[Homero] era um editor rigoroso, que não se contentava com meias verdades e apurações incompletas", acrescentou.
Foi a atuação comprometida no jornalismo que lhe rendeu uma menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos, concedida pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em 1984. Também dedicado à formação de profissionais de imprensa, foi professor de Teorias da Comunicação na extinta Escola Superior de Relações Públicas, no Recife.
Fonseca foi ainda diretor de redação da Folha de Pernambuco e comandou a revista Continente Multicultural. "No ano passado, recebi uma ligação dele. Me disse que estava partindo e me perguntou se estávamos preparando seu obituário. Falei que não, que ele ainda tinha muita vida pela frente", relembra a jornalista Paula Lousada, titular da coluna Giro, deste Diario.
Diante do voto de otimismo da ex-colega das bancadas do Diario e Folha de Pernambuco, Homero riu e fez um pedido. "No dia que eu partir, publique por favor essa foto", disse Fonseca. "Ele tinha muito orgulho de ter comandado a informatização do Diario, juntamente com Ivan Maurício. Foi um grande mestre. Uma das pessoas mais íntegras que conheci, além de muito realista e pragmático. A partida dele é uma perda enorme para o jornalismo pernambucano", conclui Losada.
Na foto mencionada, de outubro de 1996, Homero Fonseca está cercado do corpo de reportagem do Diario de Pernambuco, entre editores, pauteiros, revisores, repórteres e outros profissionais. Antes da virada do século, destacam-se também os computadores de tubo. Em 7 de novembro daquele ano, o jornal publicaria o artigo "Unindo tradição e tecnologia", em que dividia com o público a modernização da sua redação.
Autor da obra "200 Anos - Diario de Pernambuco", o jornalista Ennio Benning trabalhou com Homero no jornal em 1990. "Além de um grande jornalista, ele foi um escritor fantástico. O livro 'Tapacurá - Viagem ao Planeta dos Boatos' (Cepe, 2011) é extraordinário", destacou Benning. "Homero atuou para informatizar a redação do jornal e também ajudou a formar muitos profissionais."
Como escritor, Homero construiu um legado de 13 títulos originais e duas reedições, entre coletâneas de crônicas de humor e crítica social, biografias, ensaios, ficção e literatura infantojuvenil. Entre os destaques estão "O Computador Que Queria Ser Gente" (Cepe, 2013), vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Infantil daquele ano e a adaptação infantojuvenil de "Pernambucânia - O Que Há nos Nomes das Nossas Cidades" (Cepe, 2015).
Inácio França recorda, emocionado, da sua despedida: "Ele estava lúcido até o final, e eu tive a oportunidade de lhe dizer que tinha um orgulho imenso de ser tratado como um igual por ele, que estava em outro patamar. Ele tratava todos os jovens repórteres como iguais. Respeitava as pessoas, e sua posição foi essencial na minha construção como repórter", disse.
Homero Fonseca faleceu ao lado da família. Ele deixa quatro filhos, Pedro, Ana, José Henrique e Clara; os cinco netos, João, Irene, Tereza, Helena e Joaquim; e a esposa, Iracema Rodrigues, com quem teve um relacionamento de 22 anos. O velório será neste domingo (23), das 12h às 18h, na Sala 4 do Cemitério Morada da Paz, no município do Paulista, no Grande Recife.