A malandragem de Homero ou A Odisseia de Nolan?
Entre Aquiles e Odisseu, a literatura de Homero apresenta dois modelos de virtude que ajudam a pensar um dilema brasileiro: seguir as regras ou sobreviver pela astúcia?
João Evangelista Tude de Melo Neto
Publicado: 08/08/2026 às 09:45
Artigo de João Evangelista Tude de Melo Neto (Divulgação)
Quem é o melhor modelo moral para o Brasil, o tipo “caxias” (termo que nos remete ao patrono do exército brasileiro, o Duque de Caxias), identificado com a disciplina, o dever e a retidão; ou o tipo “malandro”, celebrado pela esperteza, pela improvisação e pela capacidade de contornar regras? Para tentar responder a esta questão, vamos trazer à baila o velho Homero, pois entendemos que, neste caso, ele é mais pertinente do que o cineasta britânico que dirigiu o filme A Odisseia.
Se nos confrontarmos com os dois poemas homéricos que chegaram aos nossos dias, parece que podemos encontrar dois paradigmas “morais” conflitantes. A Ilíada – que ressalta as façanhas heroicas de Aquiles – é permeada por uma mentalidade bélica que valoriza a figura dos bravos e honrados guerreiros de areté. Este termo grego designa uma espécie de excelência na arte da guerra e, simultaneamente, uma virtude ligada ao cumprimento de um código de honra guerreira. Num primeiro sentido, os guerreiros de areté se caracterizam, portanto, pelo vigor físico, pela coragem e pela destreza no manejo de suas armas. Eles integram o grupo dos aristoi, uma espécie de aristocracia de heróis que buscavam expressar seu valor numa bela luta, isto é, uma espécie de duelo justo que pressupõe uma igualdade de condições para o combate. Num segundo sentido, por conseguinte, o guerreiro de areté se distingue por respeitar uma moral guerreira, a qual se opõe à trapaça e à burla. Os aristoi devem, nesse sentido, evitar o embuste e lutar de forma franca e leal. A respeito dessa mentalidade homérica, a fala do troiano Heitor direcionada a Ájax, no canto VII da Ilíada, é bastante ilustrativa: “‘não quero atacar com nenhuma artimanha um inimigo como és, mas, lealmente, tentar alcançar-te’”. Esse trecho também explicita outra exigência da moral guerreira em questão: o guerreiro de areté deveria enfrentar um adversário valoroso, ou seja, outro guerreiro de areté. Isso porque é apenas a luta contra um oponente valoroso que lhe confere a glória (Kleos). Esse kleos poderia, inclusive, ser conquistada por meio de uma bela morte – a morte gloriosa resultado de um valente e justo combate. Por exemplo, Aquiles, o melhor entre os aristoi, recusa uma vida longa, tranquila e obscura. Ele prefere uma existência breve e heroica que será cantada pelo poeta (aedo), o qual vai fazer com que seus feitos heroicos sejam lembrados por muito tempo. O canto do aedo irá, nesse sentido, conferir ao guerreiro uma espécie de eternidade simbólica e imanente, pois durante séculos as proezas do herói serão faladas e lembradas.
Na Odisseia, as coisas são bem diferentes, pois o importante é sobreviver e a trapaça e a esperteza passam a ser a regra. Odisseu, o protagonista do poema, é célebre por suas artimanhas, sendo identificado pelos epítetos de “o multifacetado” e “o rico em ardil”. Ele caracteriza-se por possuir um tipo de inteligência pragmática: a métis – termo que expressa a astúcia, o senso de oportunidade e a capacidade de decisões rápidas e certeiras frente a problemas práticos que são resolvidos, muitas vezes, por meio de recursos como o disfarce e o embuste. É justamente por intermédio de sua métis que Odisseu consegue sobreviver aos colossais perigos contra os quais tem de deparar-se ao longo de sua jornada de retorno à Ítaca, sua terra natal. Na verdade, Homero inicia a Odisseia pedindo inspiração às musas para que ele consiga contar os feitos do “herói astucioso”. Curiosamente, essa passagem não expressa um valor depreciativo acerca da maneira ardilosa de Odisseu. Ao contrário, o modo de ser engenhoso e versátil do herói, além de ser ressaltado, é cultuado. Há, por exemplo, uma passagem em que a maior “trapaça” de Odisseu é lembrada ao mesmo tempo em que ele recebe o adjetivo de “divino”: “o cavalo de pau (...) que o divo Odisseu com astúcia pôs dentro de Troia, cheio de heróis destemidos, que os muros sagrados saquearam”. Ora, a exaltação e divinização do caráter astucioso e ardiloso do herói nos mostra que Odisseu era entendido, pelo autor da Odisseia, como um modelo a ser seguido. O herói constituía, portanto, um paradigma que estava à disposição do homem grego e que era passível de ser utilizado conforme a necessidade das circunstâncias.
Aqui, uma questão se impõe: quem é o verdadeiro paradigma moral de Homero, o honrado Aquiles ou o ardiloso Odisseu? Percebem que esta pergunta nos conduz de volta à questão com a qual abrimos este editorial? Enfim, a astúcia literária do aedo grego se mostra atemporal, pois nos revela a complexidade da cultura grega antiga que – tal como a nossa – não deve ser reduzida a fórmulas maniqueístas tão caras à indústria cultural de nossa época.