Em Gramado, atuação de José Loreto como Chorão salva cinebiografia do líder da Charlie Brown Jr.
Exibido na competição de longas brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, cinebiografia é inspirada no livro 'Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? — Minha História de Amor com Chorão', escrito pela viúva do artista, Grazi
Publicado: 18/08/2026 às 16:39
Totalmente entregue ao filme, José Loreto considera que sua performance como Chorão é o papel de sua vida (Divulgação)
Seguindo a onda das cinebiografias de artistas da música que dominou o cinema nacional e internacional nos últimos tempos, chega ao 54º Festival de Cinema de Gramado uma das mais aguardadas. Estrelado por José Loreto, em um papel que o próprio ator define como sendo a performance da sua vida, o filme "Chorão: Só os Loucos Sabem", narra a história de Alexandre Magno Abrão, líder da banda Charlie Brown Jr. e ídolo máximo de toda uma geração.
Responsável pelo documentário "Chorão: Marginal Alado", o cineasta Felipe Novaes divide a direção com Hugo Pratta (de "Elis" e "Ângela", também lançados no Festival de Gramado) e adapta aqui o livro "Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz — Minha História de Amor com Chorão", escrito pela viúva Graziela Gonçalves. Apesar de a obra literária ser o norte principal da adaptação, no entanto, é curioso que boa parte da narrativa encena situações em que a companheira do biografado sequer estava presente.
Há, então, um problema sério de conceito já de largada. A tentativa de conciliar a história de romance, descrita pela narradora como algo próximo de um "conto de fadas", e as batidas protocolares de uma cinebiografia musical prejudicam fatalmente a estrutura do filme. A voz de Grazi (interpretada por Nanda Marques) entra de maneira pontual através de frases de efeito que parecem lidas no papel e que pouco acrescentam na construção do protagonista. Na sua ausência, diga-se, o longa parece esquecer do livro-base e focar apenas na figura do Chorão, lembrando-se dela somente quando convém.
Falecido em março de 2013, aos 42, vítima de uma overdose, o cantor paulista se tornou uma das marcas mais reconhecíveis na formação de identidade do rock brasileiro entre o final dos anos 1990 e toda a década de 2000. A influência inestimável de suas letras e a autoralidade inconfundível de canções como "Proibida pra Mim", "Zóio de Lula", "Dias de Luta, Dias de Glória" e, claro, "Só os Loucos Sabem" estão presentes no filme de Hugo Prata e Felipe Novaes apenas melodicamente. Não existe uma contextualização temporal, midiática ou popular que permita o espectador entender a dimensão do sucesso colossal de Charlie Brown Jr. A ascensão dele ao estrelato ocorre tão rápido que mal dá tempo de processar o tamanho do seu alcance.
Assim como ocorre em "Bohemian Rhapsody" e "Michael", a presença e personalidade dos integrantes da banda são completamente negligenciadas em função dos holofotes no astro central. Com exceção do baixista prodígio Champignon (vivido por Pedro Tirolli), que morreu precocemente meses após a morte do próprio Chorão, nenhum dos outros personagens recebe qualquer atenção do roteiro ou da câmera. Os guitarristas Marcão (Gustavo Cintra) e Thiago Castanho (Rony Frauches), além do baterista Renato Pelado (Gabriel Ferrara), aparecem apenas como figuração.
As faixas célebres entram a cada pequeno bloco da trama para sinalizar alguma passagem de tempo importante, sem que o espectador, familiarizado ou não com a discografia de Chorão, entenda o processo criativa do artista e de seus parceiros. Interessa mais a "Chorão: Só os Loucos Sabem" explorar as fatalidades que permearam a biografia de Alexandre Magno, das perdas devastadoras de amigos próximos ao seu crescente vazio emocional preenchido pelas drogas, do que sua genialidade musical. Os diretores presumem que o espectador será capaz de identificar esse valor artístico se o filme constantemente colocar para tocar títulos antológicos.
O comprometimento de José Loreto para dar vida à confluência de confusão mental com pulsão criativa é, sem dúvidas, o que mantém o filme de pé. Carregado no sotaque e cheio de gestos extravagantes — que não fogem tanto ao que costuma interpretar —, o ator não se rende à boa escalação e abraça os excessos de Chorão com um misto acertado de carinho pelo personagem e entrega às suas toxicidades.
"Acho que quando existe um comprometimento tão grande com o personagem, mais de meio caminho já foi andado", afirmou Loreto à imprensa durante o Festival de Gramado. "Eu brinco que existe uma espiritualidade grande nesse filme a que estou dando passagem, mas é verdade. Eu lutei muito para conseguir esse personagem e o mínimo que eu poderia fazer era transbordar em sentimento".
Frequentemente as premiações confundem a comoção por um ícone com a qualidade artística impressa no projeto. Não vai surpreender, portanto, se o longa se confirmar favorito aos principais Kikitos, as estatuetas cobiçadas do evento, que serão entregues no próximo sábado (23).
*O jornalista viajou a convite do Festival de Gramado