Escritores e jornalistas celebram o legado de Raimundo Carrero para a literatura e o jornalismo
Profissionais que trabalharam com Raimundo Carrero no Diario e colegas escritores relembram vida e obra do autor pernambucano, que faleceu nesta terça
Publicado: 16/06/2026 às 17:41
(Foto: Benedito Soares/Acervo DP)
A literatura, o jornalismo e a cultura pernambucana se despediram nesta terça (16) de uma de suas vozes mais influentes. Nacionalmente celebrado pelo poder transformador de obras que marcaram gerações, Raimundo Carrero, que faleceu aos 78 anos nesta madrugada, em decorrência de um câncer, atravessou a própria história do Diario de Pernambuco em diferentes momentos. Em seus dois últimos meses de vida, compartilhou com o leitor, em sua coluna semanal, reflexões sobre cultura brasileira, ecoando ideias que já são parte do imaginário do jornal.
Nascido em Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, em 1947, Carrero se formou em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mas sua carreira como jornalista, no Diario, reforçou desde muito cedo a força de sua escrita. Em novembro de 1969, ele entrou como estagiário na redação e, a partir daí, passou por diversos cargos — entre eles, o de editor-chefe.
O escritor marcou época por 25 anos no jornal, trabalhando com alguns dos nomes mais importantes do período, como Gladstone Vieira Melo, Geneton Moraes Neto, Lêda Rivas e Fernando Spencer. Ele se tornou, nessa mesma época, um dos principais autores responsáveis pela difusão Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna — cuja data de nascimento coincide com a data do falecimento de Carrero.
Foi na época de redação que, ao ouvir uma pitoresca história contada por um morador de São Lourenço da Mata, ele teve a inspiração para escrever o que se tornaria uma das lendas urbanas mais conhecidas do Recife: a Perna Cabeluda. Neste ano, a história ficou mundialmente conhecida depois de ser levada ao Oscar pelo filme “O Agente Secreto”.
“A História de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão”, de 1975, foi sua estreia em grande estilo no romance, narrando a história de uma mulher sertaneja que desafia o coronelismo e impõe sua vontade. “Viagem no Ventre da Baleia” (1987), “Maçã Agreste” (1989), “Sinfonia para Vagabundos” (1992) e “O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo” (2015) estão entre os mais marcantes momentos de sua rica bibliografia. Vários de seus títulos foram premiados, como “As Sombrias Ruínas da Alma”, que venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro em 2000.
Autores da cena literária pernambucana lamentaram a perda do escritor. Em depoimento ao Diario, Samarone Lima relembrou um momento emocionante com ele: “Participei de uma a mediação em que precisei fazer a leitura de 30 páginas de uma de suas obras-primas, ‘Somos Pedras que Se Consomem’. Fiquei nervoso e emocionado com a força de suas palavras. Me confortou vê-lo feliz em me assistir lendo aquele texto. Era uma pessoa festiva e animada, que colocava os outros para cima”, conta.
Atualmente vereadora do Recife, a poetisa Cida Pedrosa também expressou sua tristeza. “Eu nunca escrevi um livro que ele não falasse sobre e ele nunca escreveu um livro que eu não fosse estar na fila para ler. Tenho toda a obra dele na minha casa. Ele é dono de personagens absolutamente marcantes, principalmente mulheres, que são uma constante no seu trabalho. A literatura perde um de seus maiores escritores. O país inteiro está menor, mais triste”, declarou.
O escritor Marcelino Freire também se manifestou: “Se hoje eu sou quem sou, se escrevo, se ajudo outras autorias a se firmarem nas páginas de um livro, foi Carrero quem pegou na minha mão. Eu fui da sua primeira turma de oficina no Recife. Ele me ajudou a ler. Dissecou ‘Vidas Secas’, ressuscitou ‘Memórias Póstumas’. Continuarei na batalha para honrar o seu legado, a sua catártica existência, a sua memória”, exaltou.
Crítico literário e escritor, Sidney Rocha salientou como o ofício de Carrero se misturava com sua essência de ser humano. “Ele sempre foi uma ponte e uma fonte de liberdade na literatura. Seu grau de compreensão literária sempre foi gigantesco. A gente nota como existe no seu trabalho um espírito interessado em transformar o texto em algo vivo. A sua vida e a sua literatura eram praticamente uma coisa só. Perco um grande amigo, mas todos ganhamos uma grande obra”, pontuou.
TEMPO NO DIARIO
Colegas de trabalho que dividiram a redação do Diario com Carrero também prestaram suas homenagens a ele. A jornalista Kethuly Góes destacou a inteligência e o humor de Carrero. “Ter convivido com ele foi como testemunhar o quanto a literatura e a vida podem andar de mãos dadas. Como jornalista, tive o privilégio de partilhar redações com ele, no Diario e na TV Universitária. Como amigo, as conversas que tínhamos sempre nos deixavam melhores do que quando começávamos. E mesmo com a carreira amplamente reconhecida, no Brasil e no Exterior, ele nunca abandonou a simplicidade”, lembra.
Ivana Moura, que atuou como repórter e editora do caderno Viver, reafirmou o carisma do Carrero jornalista. “Ele tinha aquele vozeirão, aquela gargalhada típica, um raciocínio rápido para tudo. Era uma daquelas figuras que magnetizam a atenção. Quando o conheci no Diario, ele cuidava da editoria de Últimas Notícias, mas já tinha publicado alguns livros e estava em plena ascensão literária. Não só a literatura fez muito por ele como, principalmente, Carrero e a sua literatura salvaram muita gente”, disse a jornalista.