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"Nagi Notes" abre a competição pela Palma de Ouro, em Cannes, com drama rural morno

Dirigido pelo japonês Koji Fukada, "Nagi Notes" narra a história de uma mulher que aceita ser modelo de escultura para sua ex-cunhada em um vilarejo que guarda várias histórias. O filme compete pela Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano

André Guerra - Enviado Especial

Publicado: 14/05/2026 às 12:55

Cena do filme

Cena do filme "Nagi Notes" (Divulgação)

Sentimentos reprimidos ameaçam ganhar a superfície no drama japonês “Nagi Notes”, que abriu a mostra competitiva pela Palma de Ouro do 79º Festival de Cannes, nesta quinta-feira (14), mas, infelizmente, nenhum deles se aproxima da plateia de verdade. Dirigido por Koji Fukada, o longa é um dos representantes asiáticos de uma seleção dominada por produções europeias. E, apesar de preservar referências célebres de mestres japoneses clássicos e contemporâneos, a obra soa como um exemplar inexpressivo da cinematografia de seu país.

Na trama, Yoriko (interpretada por Takako Matsu) é uma escultora que vive em Nagi, vilarejo da zona rural de Okayama, onde recebe uma ex-cunhada recém-divorciada que aceita ser modelo de suas obras de arte. Durante as sessões em que Yuri (Shizuka Ishibashi) posa para Yoriko, a relação entre elas revela peculiaridades sobre as escolhas de vida de cada uma e como seus caminhos transformaram ou não suas personalidades.

À medida que as protagonistas passam por pequenas tensões e transformações no modo como se enxergam, outros personagens crescem e se tornam essenciais nos desdobramentos da trama: Haruki (Kawaguchi Waku) e Keita (Kiyora Fujiwara), dois meninos adolescentes que desejam desesperadamente se casar e sair de casa sem avisar aos pais.

Os paralelismos que “Nagi Notes” estabelece a partir desse novo elemento da história são bastante claros e, em teoria, interessantes. A ideia de trazer as esculturas como representação visual dos rostos das personagens também é promissora, especialmente porque os enquadramentos frequentemente enfatizam a distinção entre o que essas mulheres são e o que elas observam em si mesmas.

O problema é que o diretor Koji Fukada carece aqui de qualquer variação de tom para dar conta dessas emoções reprimidas. Enquanto cineastas claramente inspiradores para o filme, como Yasujir Ozu e sua aparente simplicidade estética, conseguem adentrar o coração da plateia aos poucos, “Nagi Notes” não ambienta o drama bem o suficiente para que o espectador sinta esse palpitar emocional das protagonistas, tampouco dos coadjuvantes tardios.

Apesar das interpretações sinceras do elenco, a encenação perde várias oportunidades de investir nas dores que o tempo inteiro imploram para emergir na tela. Ou de, em uma outra chave possível, abraçar as possibilidades razoavelmente cômicas das situações.

Não há sentimento que resista a um tratamento tão plano e desinteressado quanto esse. Espera-se que, nos próximos dias, a competição do Festival de Cannes mostre a que veio. Contenção demais para lidar com certos assuntos nem sempre parece vantajoso.

O filme ainda não possui previsão de estreia no Brasil.

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