'Mãe e Filho', que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, relembra a força do cinema iraniano
Drama iraniano dirigido por Saeed Roustaee concorreu à Palma de Ouro, 'Mãe e Filho' estreia no Recife; trama explora o sofrimento de uma mulher batendo de frente com seu próprio pai após uma grande tragédia
Publicado: 30/04/2026 às 08:00
Atuação de Parinaz Izadyar é o grande destaque do filme (Retrato Filmes/Divulgação)
Uma enfermeira viúva de 40 anos chamada Mahnaz (vivida por Parinaz Izadyar) está recebendo diversas reclamações pelo jeito rebelde de seu filho, Aliyar (Sinan Mohebi). Seu relacionamento conturbado e a dificuldade de conter os modos do filho assoberbam cada vez mais uma rotina que, em um país cujo clima só cresce na sensação de desespero, parece sempre à beira do colapso.
Em “Mãe e Filho”, longa que foi exibido na competição pela Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025 e chega nesta quinta-feira (30) ao Cinema da Fundação, no Recife, o cineasta iraniano Saeed Roustaee, do elogiado “Os Irmãos de Leila” (2022), leva a situação da protagonista a testes impressionantes. Uma grande tragédia muda os rumos do filme completamente e, à medida que a história avança, ele carrega o espectador para relações igualmente complicadas com os personagens.
Semelhante a um dos maiores clássicos do cinema iraniano contemporâneo, “A Separação”, de Asghar Farhadi, “Mãe e Filho” transforma a ambiguidade moral em uma poderosa arma de melodrama. Aqui, no entanto, o teor intenso do acontecimento que muda o jogo dita uma energia muito mais sentimental, que algumas pessoas poderão associar a um estilo mais próximo da telenovela.
A discussão torna-se menos sobre o momento atual do Irã, no entanto, e mais sobre relações entre mulheres e homens dentro do próprio círculo familiar, já que o grande conflito que se desenrola coloca a protagonista em oposição ao seu pai de modo assustadoramente angustiante.
A vilania do filme é, desse modo, bem mais definida e clara do que no filme citado de Farhadi, em que o registro se atinha a uma crueza do realismo. “Mãe e Filho” foge de um tom possivelmente documental e explora bem o potencial cinematográfico da dor dessa mãe. Ao mesmo tempo, ancorado na atuação de Parinaz Izadyar, o trabalho banca com firmeza o seu apetite melodramático, culminando em uma das cenas finais mais emocionantes do último ano.
Vale lembrar que, assim como ocorreu com o vencedor do prêmio máximo de Cannes, “Foi Apenas um Acidente”, a exibição de “Mãe e Filho” no maior festival de cinema do mundo aconteceu sem a autorização do governo iraniano. O diretor e a produção inteira foram acusados de fazer propaganda para a oposição, levando Saeed à condenação a seis meses.