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José Rufino retorna ao Recife com a exposição "Dura Naturalia", que destaca a materialidade da arte

Artista paraibano José Rufino retorna ao Recife com a exposição "Dura Naturalia", que abre para o público nesta quinta-feira (30), na Galeria Marco Zero, em Boa Viagem

André Guerra

Publicado: 30/04/2026 às 06:00

Artista se formou em Geologia e Paleontologia na década de 1980, no Recife, e incorpora seu conhecimento a suas obras há 40 anos/Foto: Marina Torres/DP

Artista se formou em Geologia e Paleontologia na década de 1980, no Recife, e incorpora seu conhecimento a suas obras há 40 anos (Foto: Marina Torres/DP)

Expor no Recife depois de mais de 15 anos confere um sabor — e um gesto — simbólico para o artista José Rufino. Formado na capital pernambucana em Geologia e Paleontologia, o paraibano sempre teve um trabalho voltado para a escavação, um olhar sobre a natureza e uma observação cuidadosa sobre a materialidade das coisas, tal qual sua passagem pelo tempo. Agora, com a mostra “Dura Naturalia”, que terá abertura nesta quinta-feira (30), às 18h, na Galeria Marco Zero, onde seguirá em cartaz até 19 de junho, ele faz um movimento de resgate de suas mais de quatro décadas de produção e pesquisa e, ao mesmo tempo, de conexão com novos conceitos da arte contemporânea.

“Desde o começo, a minha ideia, ao voltar para Pernambuco, era trazer um projeto o mais ‘rufiniano’ possível, com essas formas mais fortes, cortantes e com bastante vermelho. Não é exatamente uma retrospectiva, mas resgata diferentes fases da minha obra, da minha trajetória artístico-política e da minha vida no Recife, cidade que influenciou bastante todo o meu trabalho”, descreve Rufino em entrevista ao Diario. Ele destaca o escritor, poeta e cineasta Jomard Muniz de Brito como uma de suas maiores influências recifenses do seu período formativo: “Conheci aqui várias figuras essenciais, mas ele foi muito importante pelo modo transgressor de lidar com a arte, por esse componente mais visceral que acabei abraçando também”.

Com curadoria de Daniel Donato, o projeto traz instalações, pinturas, desenhos e esculturas que aprimoram técnicas já utilizadas por Rufino anteriormente, propondo um olhar sensível sobre objetos cortantes de grandes dimensões, objetos brutos que dialogam com a permanência material e quadros feitos em apenas um dia durante a pandemia. “Tem peças que originalmente eu pensei que seriam menores, mas, naquele momento, precisaram ser telas grandes, com traços brutos, sem retoques. Fiz dezenas delas enquanto estávamos em isolamento social e trouxe algumas para a exposição”, explica o artista.

A expressão do título, “Dura Naturalia”, não diz respeito apenas a essa materialidade pesada de alguns dos objetos apresentados na mostra, mas à durabilidade com que eles são carregados pelo tempo e ultrapassam barreiras da história. Dividida em três núcleos, a galeria vai agrupar peças nas quais se sedimentam camadas de história, as quais ganham sentido a partir da árdua tarefa de ficcionalização por parte de José Rufino.

Ele reflete menos sobre o que está vivo biologicamente e mais sobre aquilo que sofre transformações e, ainda assim, se mantém como corpo tátil e perceptível, nomeando seu projeto recente como uma justaposição entre os saberes da arte e da geologia. “Estou chamando por esse nome de ‘Artiência’ o que faço, porque a minha proposta é fazer com que o conhecimento da ciência, que tem seus próprios princípios e dogmas, se alie à criação artística. O paleontólogo que existe em mim vai analisar um certo objeto de modo científico, e o artista acrescenta todo um olhar sensível voltado para a sensorialidade”, revela.

José Rufino não deixa passar despercebida a noção de que, cada vez mais, a criação vem perdendo protagonismo dentro do processo de exposições diante de todo o arcabouço midiático responsável por um lançamento. Ele classifica “Dura Naturalia” como um manifesto de resistência. “Sou professor e já acompanhei diversas modificações, muitas delas inevitáveis, ao longo do tempo”, salienta.

“Mas precisamos retomar essa relação imediata com a própria materialidade da arte. Estamos em um cenário gigantesco, no qual o artista dedica menos tempo à própria criação e mais a esses atores externos que influenciam esse universo. Essa exposição advoga em favor de uma arte que fale por si mesma, que exija a força da presença, em suas diversas significações possíveis”, conclui o artista.

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