Fundador da Imovision destaca desafios do cinema autoral: "Precisamos unir entretenimento e reflexão"
Responsável pelo Festival de Cinema Europeu Imovision, disponível no Recife, Jean-Thomas Bernardini destaca a importância de preservar a distribuição de projetos independentes
Publicado: 26/04/2026 às 06:00
"Sou um entusiasta da cultura pernambucana desde que fui ao Recife pela primeira vez", afirma Jean-Thomas Bernardini (Foto: Beto Vale)
Fazer distribuição de cinema independente é uma tarefa complicada em qualquer parte do mundo, mas as dificuldades não pararam o francês radicado no Brasil Jean-Thomas Bernardini, que fundou, em 1987, a distribuidora Imovision.
Formado em psicologia, mas totalmente dedicado ao cinema desde a década de 1970, ele passou a lançar no país longas que marcaram época no circuito alternativo, como, por exemplo, os primeiros filmes iranianos que chegaram aos cinemas do Brasil: “O Balão Branco”, de Jafar Panahi, e “Gabbeh”, de Mohsen Makhmalbaf, além de clássicos como o dinamarquês “Dançando no Escuro”, de Lars von Trier, e o chinês “Amor à Flor da Pele”, de Wong Kar-Wai.
Agora à frente do Festival de Cinema Europeu Imovision, que está em cartaz no Recife, no Cinema da Fundação e no Moviemax Rosa e Silva, ele conversou com o Diario sobre o cenário atual para os lançamentos autorais independentes, destacando a força que o estado de Pernambuco tem demonstrado há tantos anos.
“Sou um entusiasta da cultura pernambucana desde que fui ao Recife pela primeira vez, quando estava começando os negócios aqui no Brasil. Não conhecia o passado cinematográfico tão rico da cidade, mas me fascinou a maneira como os cineastas conseguiam fazer filmes com tantas ideias e audácia na forma e, ao mesmo tempo, dialogavam com o público”, salientou Jean-Thomas.
“Isso não vem do nada. As pessoas têm que entender que a força cultural do estado, em tantas frentes, é o que move o cinema também. Os filmes nascem no roteiro e, para isso, essa terra tem tradição gigantesca na literatura. E, para a construção de imagens, nem precisamos falar do histórico que Pernambuco tem com as artes visuais”, acrescentou, lembrando que foi responsável pelo lançamento de filmes pernambucanos de grande expressão nas últimas décadas, como “A Febre do Rato”, de Cláudio Assis, e “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro.
Em cartaz até a próxima quarta-feira (29), a segunda edição do Festival de Cinema Europeu Imovision é, hoje, mais uma iniciativa para promover nomes que estão crescendo no continente europeu. “Várias pessoas aqui no Brasil se interessam pelas produções de alguns nomes consagrados, e essa mostra é uma oportunidade, inclusive, para mesclá-los com os novos talentos. São muitos e estão por toda parte da Europa. Não nos esqueçamos de que o cinema nasceu lá”, relembrou.
O distribuidor defendeu que o mercado exibidor precisa proteger o espaço das produções independentes, que apontam para novas propostas estéticas e temáticas, não apenas pelo seu valor artístico, mas também porque há um público cativo para elas.
“Não são todos filmes ‘difíceis’, como alguns pensam. É muito comum as pessoas manterem algum tipo de resistência a filmes diferentes, mas, uma vez que dão o primeiro passo, não conseguem parar mais”, reforçou Jean. “É importante que existam os grandes projetos de Hollywood, que fazem o trabalho deles de levar um público grande ao cinema, mas a gente precisa buscar alternativas para unir o entretenimento a filmes que provocam reflexões”, completou.