° / °
Viver
CRÍTICA

Em ‘O Drama’, cultura da violência americana implode casamento antes mesmo dele começar

Zendaya e Robert Pattinson protagonizam 'O Drama', comédia absurdista e perturbadora na qual um casal entra em crise pouco antes do casamento devido a uma revelação bombástica

André Guerra

Publicado: 10/04/2026 às 18:22

Robert Pattinson e Zendaya protagonizam comédia sombria que questiona até que ponto você conhece o seu parceiro (a)/A24/Divulgação

Robert Pattinson e Zendaya protagonizam comédia sombria que questiona até que ponto você conhece o seu parceiro (a) (A24/Divulgação)

Prestes a se casar com Emma (Zendaya), Charlie (Robert Pattinson) descobre que sua noiva esconde um segredo brutal sobre o passado. A madrinha do casamento, Rachel (Alana Haim), se afasta completamente ao saber do que se trata, mas o noivo opta por contemporizar, tentando entender. Ainda que queira manter uma fachada de normalidade após a revelação, não adianta: nada que ela diga ou explique é capaz de mudar a impressão que parece entranhada na expressão facial dele e, possivelmente, na da plateia também, a depender da bagagem que cada um leve até a sessão.

Apesar do título e do cartaz remeterem a narrativas contemporâneas sobre divórcios ou relacionamentos disfuncionais, “O Drama”, que já está em cartaz nos cinemas, está mais próximo de uma comédia absurdista com terror psicológico do que de longas sobre conflitos de casais como “História de um Casamento” e “Malcolm & Marie” (que também tinha Zendaya no papel principal).

O naturalismo das situações não demora a transbordar a ambição da trama de discutir tanto a cultura da violência enraizada nos Estados Unidos quanto a lógica moralista que rege as relações humanas naquele país. A cena em que Charlie, britânico, argumenta com Rachel que o meio armamentista torna boa parte da população norte-americana atiradores em potencial é a mais reveladora das intenções do roteiro.

Esse aspecto alegórico fica evidente na falta de informações mais detalhadas sobre o tempo que o casal passou junto até a revelação sombria. O texto até fornece algumas informações sobre o namoro, mas muito pouco perto da dedicação do diretor norueguês Kristoffer Borgli em construir um clima simultaneamente tenso e hilariamente constrangedor. E, ao colocar, sem alarde, uma mulher negra em um espectro notoriamente atribuído a homens brancos, “O Drama” tensiona ainda mais essa temática, levantando mais perguntas para o espectador do que propriamente resolvendo mistérios.

Lúcido e safo, o filme jamais se põe no lugar de estabelecer um juízo moral sobre o caráter de Emma, deixando a cargo de Zendaya, em um de seus melhores papéis até hoje, a função de suscitar angústia e empatia na plateia, às vezes na mesma cena. Pattinson completa o protagonismo ao incorporar à perfeição toda a neurose e o desconforto de quem decide manter as aparências enquanto tudo vai saindo gradualmente do controle.

Responsável também pelos comicamente perturbadores “Doente de Mim Mesma” e “O Homem dos Sonhos”, Kristoffer Borgli vem se especializando com louvor no riso desconfortável e, neste filme, busca subverter a superfície de uma comédia romântica inofensiva estrelada por dois grandes astros por meio de uma abordagem gradualmente mais incômoda. O contraste entre a ligeireza do primeiro encontro, na sequência de abertura, e a morbidez do humor provocada pela revelação do segredo é uma ótima demonstração da destreza do cineasta para quebrar expectativas.

Para toda a sua ousadia e esperteza, Borgli não consegue evitar a sensação de que a narrativa poderia ter percorrido caminhos ainda mais intensos e curiosos e não o faz — por receio, precaução, contenção ou, talvez, falta de imaginação mesmo. Apesar de um clímax acachapante, a última cena aponta em uma direção levemente esperançosa que todos os acontecimentos prévios haviam minado.

É louvável que ele acredite nos sentimentos dos personagens e, de todo modo, o desfecho ao mesmo tempo desperta e amarra boas ideias que o filme traça no seu trajeto (em especial sobre recomeços). Mas fica, ainda, a impressão no ar de que muito do peso se dissipou.

Dado curioso: quem produz “O Drama” é Ari Aster (diretor de “Hereditário”, “Midsommar” e “Eddington”), conhecido pelo sucesso no terror e por refletir cada vez mais sobre o impacto da violência no imaginário norte-americano e na geração das redes. Nesta parceria com Borgli, porém, ele parece estar colocando o assunto na mesa de maneira bem mais original, envolvente e perturbadora do que nos seus próprios filmes.

Mais de Viver

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas