Negadeza se junta ao filho em EP que celebra a tradição musical da família guiada por Selma do Coco
A cantora Negadeza e seu filho, Zuri Ribeiro, lançam o EP "Herança Ancestral" para celebrar a memória das matriarcas do coco e levar o legado do estilo adiante somado a novas referências musicais
Publicado: 13/04/2026 às 06:00
Zuri integra o projeto ao lado de Negadeza, ampliando a linhagem familiar no disco (Foto: Marcela Saraceni)
Negadeza, ao assumir o legado de sua avó, Selma do Coco, e de sua mãe, Aurinha do Coco, herdou uma responsabilidade inevitável, sobretudo por se tratar de duas das principais referências da tradição do coco. Ainda assim, o peso dessa herança não se impõe como limite.
Na verdade, se desdobra em identidade própria no EP “Herança Ancestral”, realizado por Negadeza em parceria com seu filho, Zuri Ribeiro, e já disponível nas plataformas digitais. Ao longo do trabalho, a memória do coco é celebrada pelos dois, mas ganha novos contornos a partir da vivência e da escuta no agora.
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Antes mesmo de construir lembranças, a cantora, nascida no Recife, já estava inserida na música. Aos dois meses de vida, foi levada para a casa da avó, em Olinda, onde cresceu imersa na tradição do coco, ao lado do tio Zezinho. Mais tarde, sua mãe, também vinda da cultura popular, ampliou ainda mais esse horizonte. “Desde cedo, eu me conectei com o meu povo, fazendo shows e eventos ao lado da minha avó, e convivendo com várias mestras e mestres da cultura popular”, relata.
Em 2023, veio o primeiro disco, que leva seu nome, produzido por Marcos Suzano. Nele, Negadeza já se apresenta não apenas como herdeira, mas como artista com linguagem própria. Já “Herança Ancestral" nasceu de um sonho adiado. "Há muito tempo eu queria fazer um trabalho chamado 'As Três Gerações', com minha avó, minha mãe e eu", revela.
Porém, o projeto não foi aprovado, os anos passaram, e as duas matriarcas faleceram. Ainda assim, Negadeza não desistiu e realizou o disco como um gesto de gratidão à memória das duas mulheres que a formaram. “Devo a elas tudo o que sou hoje”, celebra a artista, que, atualmente, vive no Rio de Janeiro.
A linhagem que atravessa o disco chega à nova geração com Zuri Ribeiro, filho da artista e multi-instrumentista de apenas 15 anos. À frente da produção musical, ele também assina a faixa “O Caminho”, na qual reflete sobre o peso e a responsabilidade de manter viva a herança familiar. “Zuri compreende o que significa ser homem nessa sociedade, mas também o lugar de ser bisneto, neto e filho de mulheres fortes, e o respeito que isso exige, com elas e com todo mundo”, conta Negadeza.
Mesmo sendo uma obra íntima e familiar, “Herança Ancestral” carrega uma força coletiva evidente. Isso aparece tanto na sua profunda ligação com Pernambuco, que desperta no ouvinte um senso de pertencimento, quanto no próprio processo de criação, sustentado pela coletividade em seu sentido mais literal.
Um financiamento, realizado com o apoio de 165 pessoas, ajudou a viabilizar o projeto e garantir que essa herança seguisse viva. “Foi um presente construído por muitas mãos. Agradeço a todos que chegaram junto, contribuíram, e também às presenças espirituais que caminharam com a gente”, diz a cantora.
O álbum, no entanto, não resolve sozinho os desafios enfrentados pelo coco, que passam pela adesão das novas gerações e a falta de políticas públicas estruturadas. “A cultura está aí e, antes de tudo, precisa ser respeitada. Hoje existe muito estímulo que acaba afastando crianças e adolescentes da tradição, inclusive aqueles que estão mais próximos dela”, lamenta Negadeza.
Ela convoca todos os coletivos de cultura popular a se somarem a uma campanha de apoio a uma mestra ou mestre do coco. “São discussões necessárias, porque, se a gente não cuidar, tudo passa rápido demais e histórias inteiras podem desaparecer sem que a gente perceba”, alerta.