Indicada ao Oscar, animação "Arco" viaja no tempo para revelar o futuro do passado
Em cartaz no Recife, animação francesa "Arco" é produzida por Natalie Portman e concorre ao Oscar de Melhor Filme de animação ao lado de "Guerreiras do K-Pop" e "Zootopia 2"
Publicado: 26/02/2026 às 16:03
Filme foi exibido no Recife durante o Animage e agora entra em cartaz (Mubi/Divulgação)
Em um futuro muito distante, no qual as pessoas vivem em comunidades acima das nuvens e precisam viajar no tempo em busca de suprimentos, o pequeno Arco, de 10 anos, sonha em dar seu primeiro voo. Na tentativa, ele acaba indo parar no ano de 2075, época em que os humanos vivem auxiliados por robôs em casas cobertas por redomas de proteção. Surge, então, uma amizade com Iris, uma menina que o acolhe no meio da floresta e o leva para sua casa, onde passa a tentar desvendar quem ele é e a ajudá-lo a voltar para casa.
O mote de “Arco”, que concorre ao Oscar de Melhor Filme de Animação e entra em cartaz nesta quinta-feira (26), parte do princípio convencional da criança que sonha em desbravar horizontes e é superprotegida pela família, até que consegue embarcar em sua aventura e se perde. A amizade entre pequenos de dois mundos totalmente diferentes também é um arquétipo trabalhado nos desenhos animados há décadas, atingindo um ápice criativo em “A Viagem de Chihiro”, de Hayao Miyazaki, um dos filmes mais influentes do formato desde seu lançamento, em 2001, como se vê neste aqui.
O que dá destaque a “Arco”, que tem produção de Natalie Portman e direção do animador francês Ugo Bienvenu, é a pureza etérea na construção visual do universo. Apesar de curta, a sequência inicial na casa dos pais do protagonista revela um design futurista que desperta no espectador a curiosidade de conhecer mais daquele mundo.
O salto para a ambientação terrena, com a jovem Iris sendo cuidada por seu amigo androide Mikki (que tem a voz do próprio diretor na versão original francesa e as vozes mescladas de Portman e Mark Ruffalo na versão em inglês) deixa a sensação de que o núcleo familiar de Arco poderia ter sido mais explorado.
Os traços da animação 2D, que o cinema vem tentando retomar de diferentes maneiras para fugir do 3D padronizado da Disney/Pixar, parecem simples em um primeiro momento, mas revelam sua complexidade por meio do uso das cores.
De fato, eles remetem a alguns dos filmes mais antigos e menos texturizados do Studio Ghibli, por exemplo, ainda que preservem sua própria identidade na concepção dos personagens. Alguns planos, em particular, são bastante originais: a sala de aula de fundo infinito em que Iris estuda é um dos melhores em concepção e execução.
A premissa tradicional do filme não impede que o roteiro traga boas ideias de atmosfera. A presença dos pais de Iris apenas por meio de hologramas cria uma sensação poderosa de isolamento e solidão, ainda que isso não seja verbalizado pela menina. Em paralelo, o fato de o público ser deixado no escuro em relação ao que está acontecendo com os pais de Arco também cria uma noção de esquecimento e passagem do tempo que, ao final, se mostra ainda mais importante para a trama.
Voltar ao passado e perceber que o próprio futuro é, na verdade, um tempo perdido talvez seja o elemento tematicamente mais interessante de “Arco”. A animação não dá exatamente um salto nessa sua ótima ideia e se contenta com algumas soluções mais padronizadas, o que impede que o bom clima desolador ganhe verdadeira tração emocional. Ainda assim, é bonito vê-lo, em sua simplicidade e singeleza, concorrendo ao Oscar em um ano em que imperam na categoria produções gigantescas e competentes, mas pouco originais, como “Zootopia 2” e “Guerreiras do K-Pop”.
Tendo em vista que, nas últimas edições da premiação, trabalhos mais artesanais como “Pinóquio por Guillermo del Toro”, “O Menino e a Garça” e “Flow” prevaleceram, não seria difícil pensar na hipótese de “Arco” virar o jogo nesta temporada também.