Concorrente de "O Agente Secreto" no Oscar, "Sirât" é jornada chocante e impiedosa pelo deserto
"Sirât" entra em cartaz nos cinemas comerciais de todo o Brasil nesta quinta-feira (26) e concorre ao Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional e Melhor Som
Publicado: 25/02/2026 às 06:00
Longa tem uma das mais chocantes viradas do ano (Retrato Filmes/Divulgação)
Em árabe, a palavra “Sirât” significa uma ponte mais fina do que um fio de cabelo, que se estende sobre o inferno e leva ao paraíso. É um caminho a ser percorrido no Dia da Ressurreição, para o Islamismo. É também o título do que é, provavelmente, o mais radical e impiedoso longa da última temporada, que disputa o Oscar 2026 com o “O Agente Secreto” na categoria de Melhor Filme Internacional (representando a Espanha) e concorre ainda a Melhor Som.
Em cartaz no Recife a partir de amanhã, “Sirât” vem provocando assombro, choque e também alguma indignação desde sua estreia no Festival de Cannes 2025, onde ganhou o Prêmio do Júri. Dirigido e escrito por Oliver Laxe, com produção de Pedro Almodóvar, o longa narra a jornada de um pai, Luis (Sergi López), que viaja com seu filho pequeno, Esteban (Bruno Núñez), até o Marrocos em busca de sua filha adolescente, desaparecida entre as raves do deserto. Com a chegada de carros militares e a rápida dispersão da multidão punk, os dois acabam se juntando a um grupo de ravers, que se dirige a outra festa distante.
A travessia rumo ao desconhecido, porém, se transforma em algo completamente diferente à medida que os perigos do deserto se revelam fatais. Nada é informado sobre a vida pregressa do pai e do filho — e a presença deles naquele ambiente, tomado por figuras pitorescas, não poderia parecer mais deslocada. O diretor e roteirista Oliver Laxe evita fornecer informações demais, até mesmo sobre o motivador da premissa (encontrar a filha). Sabe-se apenas que ela não dá notícias há meses. E não demora para que ele deixe bastante claro para o espectador que o real interesse do filme é outro.
Fotografado em película 16mm, que confere tanto uma granulação árida, crua e desoladora quanto um clima místico de suspensão da realidade, Sirât cria uma das mais impressionantes e imersivas ambiências audiovisuais do cinema recente. O cineasta mergulha a plateia na psicodelia das raves (todas autênticas, diga-se) durante o primeiro ato e, mesmo que nada tenha acontecido ainda, a sensação de mal-estar é perene. A trilha sonora eletrônica transforma a batida propulsiva ouvida pelos próprios personagens em uma espécie de marcha fúnebre, o presságio de um fim de mundo iminente.
Entre as muitas ideias defendidas em “Sirât”, a que parece social e politicamente mais urgente é o retrato de uma tentativa — europeia, neste caso, mas potencialmente universal — de se desvencilhar dos conflitos e tragédias do mundo. Isto é, ao menos até que esse horror, de alguma maneira, comece a bater à sua porta. Os “ravers”, cujos atores interpretam a si mesmos, desbravam um território estrangeiro em uma constante fuga lisérgica da realidade apocalíptica que se aproxima.
Oliver Laxe, que já se aventurou em ambientações inóspitas em seus dois longas anteriores (“Mimosas” e “O Que Arde”), pega emprestado muito da iconografia de “Mad Max”, de George Miller, e da tensão cruel do clássico “O Comboio do Medo”, de William Friedkin. Mas "Sirât", ao contrário deles, foge de qualquer classificação fácil de gênero e, a cada passo que dá em direção ao horizonte de Marrocos, não parece encontrar o menor sinal de esperança.
O tom de travessia metafísica, com camadas religiosas evidentes que pintam o cenário como um grande purgatório, acrescenta peso adicional ao realismo extremo dos acontecimentos, que atropelam a narrativa e a forçam a se reconfigurar mais de uma vez, culminando em um terceiro ato que concretiza da maneira mais clara possível a noção de uma eterna travessia. É, afinal, uma história de provações, na qual a imensidão profunda do deserto materializa não apenas a impotência humana diante da natureza, mas sobretudo a fragilidade diante do próprio destino. Em "Sirât", ninguém está seguro.