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Artista baiano Juraci Dórea explora raízes do Sertão em primeira exposição individual no Recife

Exposição ‘Sertão: Somos Muitos’, trazida pela primeira vez ao Recife por Juraci Dórea, ficará aberta ao público na Galeria Marco Zero a partir desta quarta (21)

Andre Guerra

Publicado: 21/01/2026 às 05:00

 /Foto: George Moura

(Foto: George Moura)

A tentativa de materializar as vivências e observações do interior do Nordeste norteia o trabalho de tantos anos do artista baiano Juraci Dórea, que traz pela primeira vez ao Recife a sua exposição individual 'Sertão: Somos Muitos'. A mostra, que conta com curadoria de Galciani Neves, ficará aberta ao público na Galeria Marco Zero a partir de hoje, às 19h, e articula signos reconhecíveis da iconografia sertaneja com percepções pessoais tiradas da sua própria história.

Nascido em Feira de Santana em 1944, onde segue sua produção, Juraci tem uma produção de mais de 60 anos voltada para a fotografia, escultura, desenho e pintura, absorvendo as diversas possibilidades criativas evocadas pelo imaginário da sua terra. Com projetos expostos pelas bienais de São Paulo, Veneza, Havana e Mercosul, além de diferentes mostras de Portugal, França, Estados Unidos e Japão, o artista é formado em Arquitetura e, apesar do rigor técnico, nunca se limitou a uma única linguagem. Para esta mostra, ele traz mais de 120 criações, entre elas, algumas produzidas entre os anos 1970 e 1980 e também peças inéditas.

 

Em conversa exclusiva com o Diario, Juraci descreve o Sertão nordestino como mais do que uma simples fonte de inspiração. “Meu trabalho busca ilustrar e recriar um universo que conheci bem de perto, do cotidiano, da cultura e da seca. É uma matriz incrivelmente pessoal que está impressa nessas obras, que carregam tanto lembranças antigas quanto coisas observadas já na vida adulta”, conta o artista. “Claro que muita coisa mudou na minha terra e na maior parte do Sertão também, mas o meu foco não é exatamente nessa urbanização que acometeu algumas dessas regiões e, sim, nos elementos que compõem a vivência sertaneja de raiz”.

Destacando a oportunidade de trazer a riqueza desse universo para a cultura litorânea, Juraci demonstra entusiasmo de estrear uma individual no Recife justamente para debater, através de sua arte, os contrastes que existem entre esses dois mundos. “A gente tem uma identificação muito grande com o interior de Pernambuco, mas no caso da capital é interessante notar algumas diferenças que podem ser muito enriquecedoras para a construção do olhar sobre as peças”, aponta.

Chama atenção na mostra a apresentação de trabalhos como o Projeto Terra, começado em 1982 e ainda em curso, no qual Dórea desenvolve obras que abordam o imaginário e as dinâmicas da cultura e da natureza sertaneja, pensadas não só a partir da região, mas para ela.

A curadora Galciani Neves ressalta ainda que a exposição reflete uma visão autêntica, de dentro do Sertão para fora, revelando esse cenário de maneira complexa e cheia de camadas surpreendentes. “Juraci não se coloca como um artista que vai falar ‘sobre’ o Sertão e, sim, a partir dele. Quando a gente entende toda a completude que existe nisso, percebemos que a exposição dele envolve desde o clima, passando pela terra e pelo bioma, pelos conflitos sociais e pelas comunidades que ele conhece tão de perto”, explica. “Esse projeto tensiona todas essas energias, forças e agentes e, do ponto de vista artístico, revela uma capacidade incrível de se reinventar, de driblar categorizações fáceis”.

Com ‘Sertão: Somos Muitos’, mais de seis décadas de carreira se mostram em constante desafio técnico, expandindo e potencializando seu processo criativo para dar conta das vastas dimensões do Nordeste profundo.

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