Reality "Meu Namorado Coreano" retrata busca de brasileiras por parceiro idealizado nos K-dramas
Reality "Meu Namorado Coreano" narra a jornada de brasileiras por um amor idealizado nos K-dramas e levanta debates sobre o estereótipo da figura masculina sul-coreana
Publicado: 17/01/2026 às 08:00
Reality "Meu Namorado Coreano" está disponível na Netflix ( Foto: Nat Odenbreit/Netflix)
A ascensão do reality "Meu Namorado Coreano" ao pódio das produções mais assistidas da Netflix no Brasil é inseparável da polêmica que o cerca. O programa, que leva cinco brasileiras à Coreia do Sul em busca de relacionamentos iniciados virtualmente, foi alvo de críticas por reforçar a fetichização cultural e os estereótipos românticos associados à figura masculina coreana, cuja fantasia de “oppa” (termo carinhoso usado para homens) é amplamente difundido pelos K-dramas, como são conhecidas as novelas sul-coreanas.
Mesmo ao evitar a representação idealizada e mostrar as dificuldades dos encontros, o reality documenta a escolha de mulheres que deixam o Brasil na esperança de encontrar, na Coreia, um ideal romântico cultivado à distância. É o caso da participante recifense Luanny Vital, de 26 anos. Mãe solo, ela conta no programa que viajou para a Coreia do Sul com menos de dois meses de conversa para encontrar seu amado, a quem conheceu por um aplicativo sul-coreano. Para bancar a viagem, chegou a pedir dinheiro emprestado e desconsiderou a fluência em inglês que pudesse facilitar a comunicação.
Decisões radicais como essa não são apenas escolhas pessoais, mas sintomas de um fenômeno cultural global. A globalização da indústria audiovisual do país asiático serviu para firmar uma narrativa cultural alternativa à ocidental, inclusive com a imagem de um homem local mais sensível e romântico.
"O destaque do protagonista masculino, que performa uma masculinidade contrastante com a hegemonia da masculinidade ocidental – esta última muitas vezes associada à agressividade e ao domínio –, contribui para a construção da ideia de um homem sul-coreano ‘ideal’ que é ficcional, mas que se torna parte ativa do imaginário do desejo da mulher contemporânea.” explica Daniela Mazur, pesquisadora em pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF) especializada em cultura pop coreana, em entrevista ao Diario de Pernambuco.
Até mesmo quem não busca uma aventura romântica na Coreia do Sul se depara com uma realidade distante daquela idealizada nos K-dramas. Durante viagem a trabalho em julho do ano passado, a jornalista recifense Maria Letícia Gomes foi bem recebida em ambientes profissionais, mas encontrou um tratamento diferente nas ruas. “Alguns homens se aproximavam de um jeito muito invasivo até, o que às vezes acabava sendo desagradável”, relata ela, que mora em Londres, na Inglaterra, ao Diario. Maria Letícia tem amigos coreanos, sendo a maioria introvertidos, e sabia que não iria encontrar os personagens da TV. “Não são a combinação de frieza e romantismo como costumam mostrar”, completa.
Após a revelação do trailer de “Meu Namorado Coreano”, a maioria dos comentários em coreano ridicularizava o conceito do programa ou desaprovava o relacionamento de estrangeiras com homens sul-coreanos, conforme narrou o site Koreaboo. A publicação reuniu diversas reações negativas do fórum coreano theqoo, um dos mais populares do país. Entre elas, havia pedidos para que se “fizessem mais programas como este” e “exportassem alguns homens coreanos”, além de comentários como “Eugh... levem todos.”
O olhar crítico não é exclusivo da reação ao programa. Ele reflete um questionamento mais amplo e profundo que já ocorre na sociedade sul-coreana. Atualmente, ganham força movimentos feministas locais como o 4B, que propõe a rejeição de relacionamentos com homens devido à misoginia estrutural no país. Um dado do Korean Women's Development Institute, coletado entre 2021 e 2024, mostra que uma em cada cinco mulheres relata ter sofrido ao menos uma forma de violência por parte do parceiro.