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Dia do Professor: música e literatura abrem caminhos e servem de motivação para estudantes

No Dia do Professor, iniciativas como as de Rafael Reinaldo, no Recife, e Moacir Silva, em Igarassu, mostram como a arte pode aproximar estudantes do aprendizado e da própria história

Adelmo Lucena

Publicado: 15/10/2026 às 06:00

Alunos enxergam na música motivação para continuar os estudos de forma mais descontraída/Foto: Acervo pessoal

Alunos enxergam na música motivação para continuar os estudos de forma mais descontraída (Foto: Acervo pessoal)

Na Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Ageu Magalhães, no Recife, o intervalo do almoço também é hora de ensaio. Enquanto parte dos estudantes descansa, outros se reúnem para tocar bateria, guitarra e teclado na banda Os Magalhães, criada em 2018 pelo professor de Biologia Rafael Reinaldo. O projeto começou sem grandes planos, mas se fortaleceu na rotina escolar e hoje também abre caminho para quem ainda está aprendendo a tocar.

Aos 38 anos, Rafael está há quase nove anos na escola, localizada em Casa Amarela, na Zona Norte da capital. A ideia de formar uma banda surgiu quando ele começou a levar o violão para os momentos de convivência com os alunos. O interesse cresceu, e outros professores também quiseram participar.

“Era algo bem tranquilo, sem grandes pretensões, mas o pessoal começou a se interessar. Não foram apenas os estudantes e professores, até a vice-diretora da época também se interessou em tocar e cantar”, conta.

Atualmente, a banda tem 13 integrantes fixos, além dos estudantes que estão aprendendo a tocar. O repertório reúne MPB, rock, samba e músicas pernambucanas e nordestinas. O grupo participa de eventos da escola, como as festas de São João e Carnaval, e também se apresenta fora da instituição.

Uma das mudanças no projeto foi a entrada dos aprendizes, já que a banda passou a acolher quem ainda não sabia tocar. Os alunos mais experientes ajudam os iniciantes, que podem assumir os instrumentos quando outros integrantes deixam o grupo. “Enquanto alguns alunos saem, outros chegam, aprendem e ocupam os lugares daqueles que foram embora. Assim, a banda está sempre se renovando”, explica Rafael.

A instituição adquiriu instrumentos musicais e disponibilizou uma sala para os ensaios. Com a estrutura, os estudantes passaram a ter um espaço próprio para praticar, inclusive durante o intervalo do almoço.

Música para além da sala de aula

Rafael não tem formação musical, mas diz que o projeto foi tomando forma à medida que os próprios estudantes demonstravam interesse. A participação não é obrigatória, e os alunos podem escolher como aproveitar o intervalo.

“Essa liberdade é importante porque não colocamos um peso sobre os estudantes. Eles participam porque querem e porque se sentem motivados. Nem eu nem os demais envolvidos fazemos isso por obrigação, mas por paixão pela música.”

Ao longo dos anos, o professor percebeu mudanças na convivência dos participantes. Segundo ele, alguns estudantes passaram a interagir mais com os colegas, e a banda se tornou uma oportunidade de desenvolver a autoestima e a confiança. Rafael também relata que alunos autistas e estudantes que apresentavam quadros de ansiedade encontraram no grupo mais oportunidades de socialização.

Para ele, a música não precisa estar restrita às atividades artísticas. A experiência também pode contribuir para o aprendizado, seja pela memorização de conteúdos, seja pelo interesse que desperta nos estudantes. “Cantar, compor e tocar são formas de expressão. Acredito que esse seja um dos grandes objetivos da arte: permitir que as pessoas se expressem.”

Rafael recomenda que os professores observem como os alunos aprendem, já que nem todos respondem às mesmas estratégias. Alguns assimilam melhor um conteúdo ouvindo explicações, já outros precisam de recursos visuais ou de atividades práticas.

No ensino de Biologia, ele cita como exemplo a possibilidade de levar os estudantes a parques para observar plantas e relacionar a experiência ao conteúdo estudado. A música também pode ajudar na memorização de determinados assuntos.

O professor considera que atividades fora do conteúdo programático podem tornar a rotina menos desgastante, especialmente para quem estuda em tempo integral. A manutenção de iniciativas como a banda, porém, depende de condições que nem todas as instituições têm. Rafael destaca que a compra dos instrumentos e a disponibilização de uma sala foram importantes para o desenvolvimento do projeto.

Onde a escrita recupera histórias

Em Igarassu, o professor Moacir Silva encontrou na literatura uma maneira de trabalhar com as experiências de pessoas privadas de liberdade. Professor de Língua Portuguesa e Inglesa, ele atua há 21 anos na rede estadual de Pernambuco e trabalha há 11 anos com estudantes sob custódia do Estado, na Escola Dom Hélder Câmara, uma das 21 instituições estaduais que atendem ao sistema prisional pernambucano.

A experiência levou Moacir a desenvolver, junto com a professora Fabrícia Alves, projetos literários que reúnem textos produzidos pelos alunos. Os trabalhos exploram diferentes gêneros e partem de experiências pessoais para estimular a escrita.

O primeiro livro, Nas Asas da Liberdade, foi lançado em 2019 e reúne cordéis sobre as vivências e os sentimentos dos estudantes. A iniciativa teve como referência o projeto Educando em Cordel, desenvolvido em 2018 pela Secretaria de Educação de Pernambuco em parceria com o poeta Edgar Diniz.

Em maio deste ano, foi lançado o livro Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro, resultado do projeto Memórias. A coletânea reúne textos escritos pelos alunos a partir de lembranças pessoais. A proposta surgiu durante uma atividade em sala de aula, quando Moacir percebeu que trabalhar com as memórias poderia aproximar a escrita da realidade dos estudantes.

“Os estudantes acabam, em muitos casos, perdendo a conexão com o passado deles, é como se tivesse um bloqueio. Eles esquecem inclusive das coisas boas que viveram”, explica.

A ideia era encontrar um gênero textual que tivesse significado para os alunos e permitisse trabalhar questões relacionadas à vida de cada um. Moacir reconhece que alguns estudantes procuram a escola inicialmente para obter a remição de pena, benefício previsto na legislação para detentos que cumprem os requisitos de estudo ou trabalho.

Para o educador, essa motivação pode ser o primeiro passo para despertar o interesse pelo aprendizado. “Eu não estaria num lugar desses se eu realmente não acreditasse no poder que a educação tem de transformar. O papel do professor é o de mostrar caminhos, descobrir talentos, estimular, fazer com que as pessoas abram os olhos pro mundo e dar asas para que elas voem sozinhas”, conclui.

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