El Niño já afeta 36 mil pessoas e provoca R$ 35 milhões em perdas em Pernambuco
Estado soma 13 decretos de emergência e cerca de 36 mil pessoas afetadas. No país, 6,9 milhões foram atingidas por desastres entre julho e setembro
Publicado: 06/10/2026 às 20:38
Pernambuco já soma 36 mil pessoas afetadas pelo El Ninõ (Foto: Rafael Vieira/DP)
Pernambuco já contabiliza 13 decretações de situação de emergência relacionadas a eventos como estiagem, alagamentos e deslizamentos em 2026, em um cenário que pode se tornar mais severo nos próximos meses com o fortalecimento do fenômeno El Niño. Os registros alcançam cerca de 36 mil pessoas em oito municípios e provocaram R$ 35,3 milhões em prejuízos, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM).
Do total estimado para Pernambuco, R$ 31,5 milhões correspondem a prejuízos privados e R$ 3,5 milhões a perdas no setor público. A pecuária concentrou o maior volume de danos, com R$ 16 milhões, seguida pela agricultura, com R$ 15,6 milhões. Entre os prejuízos na infraestrutura pública, o abastecimento de água representa R$ 3,4 milhões.
O cenário estadual está inserido em um quadro mais amplo observado no Nordeste. De acordo com o Boletim El Niño 2026/2027 da CNM, 319 municípios dos nove estados nordestinos decretaram situação de emergência entre 1º de julho e 30 de setembro. Cerca de 1,4 milhão de pessoas foram afetadas na região, que acumulou R$ 5,7 bilhões em prejuízos no período. A agricultura concentrou R$ 3,4 bilhões das perdas nordestinas.
A CNM aponta que as anomalias térmicas no Pacífico, associadas a outros fatores atmosféricos, têm contribuído para intensificar as condições de seca e estiagem no Nordeste. O boletim ressalta, porém, que a intensidade, a distribuição e a duração dos impactos provocados por El Niño podem variar entre as diferentes regiões do país.
El Niño deve ganhar força
O fenômeno climático deve se intensificar nos próximos meses e, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño tem 95% de probabilidade de alcançar intensidade muito forte no trimestre formado por outubro, novembro e dezembro. O órgão também aponta a intensificação da seca e do risco de fogo no centro-norte do país, enquanto o Sul deve enfrentar condições associadas a cheias.
O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) também indicou, em setembro, que o El Niño está se fortalecendo e apontou mais de 90% de chances de um evento muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027. Para outubro a dezembro, a agência estimou 75% de probabilidade de um evento histórico, considerando a série iniciada em 1950.
Para Pernambuco, a perspectiva exige atenção principalmente por causa do comportamento das chuvas. A previsão do Inmet para outubro indica volumes abaixo da média em grande parte do Nordeste.
O efeito El Niño não ocorre de maneira uniforme em todo o território brasileiro. No Nordeste, o fenômeno normalmente aumenta a probabilidade de condições mais secas, enquanto o Sul tende a registrar maior frequência de chuvas. O Inmet destaca que os impactos dependem também da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos.
Brasil
No conjunto do país, 1.035 municípios emitiram decretos de situação de emergência ou estado de calamidade pública entre 1º de julho e 30 de setembro. Nesse intervalo, 6,9 milhões de pessoas foram afetadas por fenômenos climáticos como ondas de calor, seca, vendavais e inundações. Houve ainda 25 mortes e 87,7 mil pessoas precisaram deixar suas casas.
Os prejuízos econômicos ultrapassaram R$ 12,6 bilhões. Desse total, R$ 8,8 bilhões foram contabilizados no setor privado e R$ 3,6 bilhões no setor público, além de R$ 283,4 milhões relacionados a unidades habitacionais danificadas ou destruídas.
A agricultura foi o setor econômico mais atingido no país, com aproximadamente R$ 5,6 bilhões em prejuízos, seguida pela pecuária, com R$ 1,7 bilhão. Comércio, serviços e indústria também registraram perdas, de R$ 895,8 milhões, R$ 383 milhões e R$ 123,8 milhões, respectivamente.
Os efeitos registrados pela CNM variaram de acordo com a região. No Norte, foram contabilizados R$ 822,7 milhões em prejuízos, enquanto mais de 1,2 milhão de pessoas foram afetadas. A redução das chuvas na Amazônia Legal, associada às anomalias térmicas do Pacífico, acelerou a vazante de rios como Amazonas, Madeira e Tapajós, afetando a navegabilidade e a segurança hídrica.
No Nordeste, além dos R$ 5,7 bilhões em prejuízos, a CNM registrou os impactos da seca e da estiagem sobre a população e as atividades agropecuárias. Já no Centro-Oeste, o período foi marcado por incêndios florestais, baixa umidade e piora da qualidade do ar.
No Sudeste, os registros envolveram vendavais, deslizamentos, granizo e inundações. A região acumulou R$ 4 bilhões em prejuízos. Minas Gerais foi apontado como o estado mais afetado, com mais de R$ 2,1 bilhões relacionados à seca e estiagem e outros R$ 1,2 bilhão decorrentes do excesso de chuvas.
No Sul, chuvas intensas e temporais provocaram deslizamentos, alagamentos, inundações, vendavais, granizo e até tornado. Ao todo, 419 municípios decretaram situação de anormalidade e cerca de 2,2 milhões de pessoas foram afetadas. Os prejuízos chegaram a R$ 1,8 bilhão.
Abastecimento de água é principal prejuízo público
Entre os danos registrados nos municípios brasileiros, o abastecimento de água potável concentrou o maior volume de prejuízos públicos, com R$ 1,8 bilhão. Também foram contabilizados R$ 562,8 milhões em assistência médica, saúde pública e atendimento de emergências e R$ 557,8 milhões em obras de infraestrutura pública.
O quadro de vulnerabilidade também envolve as áreas de risco. Segundo os dados reunidos pela CNM, o Brasil possui 2.095 municípios considerados críticos para desastres relacionados a processos geológicos e hidrológicos.
Em 1.814 municípios mapeados pelo Serviço Geológico do Brasil, existem 17.900 áreas de risco, sendo 12.325 classificadas como de risco alto e 5.575 como de risco muito alto. O levantamento aponta ainda 1,7 milhão de casas em áreas de risco e 8,9 milhões de pessoas vivendo nesses locais.
Diante da previsão de intensificação do fenômeno, a CNM orienta os municípios a reforçarem medidas de prevenção, como atualização dos planos de contingência, mapeamento das áreas de risco, organização de abrigos, definição de rotas de evacuação e melhoria da comunicação com a população.
A entidade também chama atenção para a execução dos recursos destinados à prevenção e resposta a desastres. Entre 2010 e setembro de 2026, o Congresso Nacional autorizou R$ 99,8 bilhões para programas relacionados à gestão de riscos e desastres. Segundo a CNM, R$ 21,8 bilhões sequer foram empenhados. Dos R$ 39 bilhões autorizados para transferências aos municípios, R$ 10,8 bilhões foram pagos por meio dos orçamentos anuais e R$ 16,2 bilhões como restos a pagar.
O que diz a Compesa
Em nota enviada ao Diario, a Compesa informou que “mantém o monitoramento permanente dos níveis dos reservatórios e das condições de disponibilidade hídrica do Estado, avaliando os possíveis impactos sobre os sistemas de abastecimento e adotando as medidas necessárias de forma preventiva.”
A Companhia frisou que realiza obras estruturantes e contratação de recursos e serviços voltados à ampliação e à melhoria dos sistemas de abastecimento de água. “Entre as iniciativas estruturantes está a Adutora do Agreste, que amplia a capacidade de adução de água possibilitando o aproveitamento do Rio São Francisco, contribuindo para reduzir a dependência de mananciais locais e aumentar consequentemente a segurança hídrica da população.”
O Diario também entrou em contato com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDEC) e aguarda retorno.