Estudo de universidade identifica contaminação em caranguejos coletados em Pernambuco
Pesquisa analisou crustáceos de Pernambuco e do Ceará; pesquisadores ressaltam que não é necessário interromper o consumo do alimento
João Tavares - Especial para o Diario
Publicado: 04/09/2026 às 22:03
Estudo revelou presença das substâncias da família dos bisfenóis tanto na urina quanto na hemolinfa (o referente ao "sangue") dos crustáceos (Lacor/ Labomar/ UFC)
Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou a presença de substâncias da família dos bisfenóis em caranguejos coletados em Itapissuma, no Litoral Norte de Pernambuco, e em Fortim, no Ceará. Os compostos são considerados potencialmente tóxicos e podem interferir no sistema hormonal.
O estudo, porém, não recomenda a interrupção do consumo de caranguejos, mas alerta para a necessidade de monitorar a contaminação dos manguezais e melhorar a gestão de resíduos.
As amostras foram coletadas em 2025 e analisadas a partir da urina e da hemolinfa, líquido equivalente ao sangue dos crustáceos. Os pesquisadores encontraram bisfenóis nos dois materiais, o que indica que os contaminantes estavam circulando pelo organismo dos animais.
Entre as substâncias identificadas estão os bisfenóis A (BPA), F (BPF) e C (BPC). Em parte das amostras, os níveis ultrapassaram valores de ingestão diária tolerável considerados para seres humanos.
Em entrevista à Agência UFC, o professor Rivelino Cavalcante, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC) e coordenador do estudo, explicou que a contaminação pode estar relacionada ao descarte inadequado de resíduos.
Segundo o pesquisador, os bisfenóis podem chegar aos manguezais por meio de resíduos domésticos e industriais, esgoto e outras fontes de poluição. Os caranguejos acabam funcionando como indicadores da qualidade ambiental desses ecossistemas.
“O problema é quando esse material vai para o descarte. Se ele vai para um aterro sanitário ou reciclagem, tudo bem. Agora, se ele vai parar num lixão, ou em um aterro não controlado, aí é onde está o problema, pois as substâncias contidas nele vão chegar no ambiente”, afirmou. Comprovantes de cartão e recibos de caixas de supermercado estão entre os materiais que podem carregar derivados de bisfenol.
Risco para consumidores
O BPA é associado a alterações no sistema endócrino e já foi relacionado, em estudos, a problemas reprodutivos, metabólicos, neurológicos e imunológicos. O BPF, utilizado em alguns produtos como substituto do BPA, também apresenta potencial de desregulação hormonal.
Cavalcante ressalta, no entanto, que a pesquisa não avaliou os efeitos da exposição em seres humanos. “Isso não quer dizer que uma pessoa terá um problema de saúde após consumir um único caranguejo, mas indica que o consumo frequente e contínuo de organismos contaminados pode aumentar o risco de efeitos associados aos desreguladores endócrinos”, explicou à Agência UFC.
Os pesquisadores também destacam que os animais foram analisados vivos, antes do preparo. Por isso, ainda são necessários estudos específicos para determinar o comportamento dos contaminantes após o cozimento.
Contaminação em manguezais
O levantamento faz parte de um projeto mais amplo do Labomar, que investiga a presença de bisfenóis e outros contaminantes em manguezais do Norte e Nordeste, desde o Pará até o sul da Bahia. Cerca de 300 caranguejos, distribuídos em aproximadamente 17 áreas, já foram analisados.
“Pela primeira vez, detectamos a presença de bisfenóis em todos os manguezais estudados no Norte e Nordeste”, adiantou Cavalcante.
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o monitoramento ambiental, melhorar o saneamento, o tratamento de efluentes e a destinação dos resíduos sólidos.
“O caranguejo continua sendo um alimento importante para a cultura, a economia e a segurança alimentar de muitas comunidades. Os resultados do estudo servem como um alerta para que o poder público invista na redução da poluição que chega aos rios e manguezais”, afirmou.