Fertilização in vitro: o caminho para realizar o desejo de ser mãe
Fertilização in vitro amplia possibilidades para mulheres e casais que enfrentam dificuldades para engravidar; Marília Lins, de 36 anos, passou por duas perdas gestacionais, três coletas de óvulos e conseguiu a gravidez após a transferência de um embrião
Publicado: 29/08/2026 às 08:00
Fertilização in vitro: o caminho para realizar o desejo de ser mãe (Rafael Vieira/DP Fotos)
O desejo de ser mãe pode começar muito antes da gravidez e, para algumas mulheres, a realização desse projeto exige percorrer um caminho diferente do planejado. Quando engravidar naturalmente não acontece ou quando uma gestação não evolui, a reprodução assistida surge como uma possibilidade. Entre as técnicas disponíveis está a fertilização in vitro (FIV), procedimento em que o óvulo é fecundado pelo espermatozoide em laboratório e, depois, o embrião é transferido para o útero.
Foi nessa busca pela maternidade que a executiva comercial, Marília Lins, de 36 anos, encontrou na FIV uma alternativa depois de duas perdas gestacionais e de uma série de complicações que dificultaram uma nova gravidez natural.
Marília havia parado de tomar anticoncepcional em março de 2024, após o casamento, com a expectativa de engravidar. A gestação aconteceu, mas poucos meses depois ela perdeu o bebê.
Na segunda tentatva, o mesmo ocorreu. Segundo Marília, o problema não era conseguir engravidar, mas manter a gestação. Depois da segunda perda, ela procurou uma especialista em reprodução assistida para entender o que estava acontecendo.
“Eu só queria descobrir o porquê eu estava perdendo. O meu medo era o ficar todo mês engravidando e perdendo”, conta.
A investigação foi seguida por um episódio que mudou ainda mais sua trajetória. Após uma curetagem, Marília sofreu uma perfuração no útero e no intestino, precisou passar por três cirurgias e permaneceu 21 dias internada. Dez centímetros do intestino foram retirados. As complicações também provocaram aderências nas trompas e em outras estruturas da região abdominal, dificultando a possibilidade de uma gravidez natural. Foi então que a fertilização in vitro passou a fazer parte do projeto de maternidade.
Da coleta à formação do embrião
A FIV é considerada uma técnica de reprodução assistida de alta complexidade. Segundo a doutora em saúde materno infantil e diretora médica da ART Fértil medicina reprodutiva em Recife, Altina Castelo Branco, o procedimento permite que o encontro entre óvulo e espermatozóide, que normalmente ocorre dentro da trompa, seja realizado fora do corpo.
“O óvulo vai ser fecundado com espermatozoide in vitro no laboratório e não in vivo na trompa, como acontece em vias naturais”, explica.
O processo começa com a estimulação ovariana. A paciente utiliza medicamentos hormonais para desenvolver mais de um folículo, estrutura que contém o óvulo. Durante esse período, o crescimento dos folículos é acompanhado por ultrassons.
Quando atingem o tamanho adequado, é feita a punção para retirada dos óvulos. Em laboratório, eles são colocados em contato com os espermatozóides para a fecundação. Os embriões passam então por um período de cultivo, no qual seu desenvolvimento é acompanhado.
A depender da estratégia adotada, o embrião pode ser transferido para o útero ou congelado. Também é possível realizar testes genéticos antes da transferência.
“O embrião ou é transferido ao útero da mulher para poder engravidar ou pode ser congelado. Neste momento também se pode fazer uma técnica que é a retirada da célula para fazer o estudo genético do embrião”, afirma a Altina.
Um processo que nem sempre termina na primeira tentativa
Marília Lins começou o tratamento e descobriu, na prática, que chegar à transferência embrionária poderia ser mais difícil do que imaginava. Foram três coletas de óvulos até conseguir embriões.
Na primeira tentativa, em agosto de 2025, nenhum embrião foi formado. O resultado se repetiu na segunda coleta, em outubro. Na terceira, realizada em janeiro deste ano, ela conseguiu dois embriões, sendo um deles um blastocisto (estágio avançado de um embrião), que passou pelo estudo genético.
“Eu pensei que ia entrar na FIV, já ia coletar, transferir e o beta positivo. Eu não tinha noção que era tão difícil.”
A sequência de etapas é apontada pela médica como um dos principais desafios da reprodução assistida. Mesmo quando uma fase apresenta um bom resultado, a seguinte ainda pode não evoluir como esperado.
“É a etapa do estímulo ovariano, a etapa da coleta do óvulo, depois ver se fecunda esse óvulo pelo espermatozóide, se forma um embrião, se esse embrião vem de boa qualidade morfológica e genética, depois a implantação para que haja gravidez e depois a manutençao dessa gravidez”, explica.
Para a médica, essa sucessão de expectativas transforma o tratamento em uma espécie de montanha-russa emocional. A paciente pode comemorar a formação de um embrião e, posteriormente, enfrentar uma transferência que não resulta em gravidez ou uma gestação que não evolui.
Marília sentiu esse efeito. Durante o tratamento, passou a controlar horários de medicação, mudou a alimentação e manteve uma rotina de exercícios. Também enfrentou a ansiedade entre as coletas, a formação dos embriões e a transferência. “Você cria mil e um planos e você leva muita tapa na cara”, afirma.
Embora a FIV tenha surgido inicialmente para atender casais que não conseguiam engravidar por determinadas causas, as indicações se ampliaram com o desenvolvimento das técnicas.
Hoje, segundo Altina Castelo Branco, a reprodução assistida também pode atender mulheres que desejam preservar a fertilidade, pacientes que passarão por tratamentos contra o câncer, mulheres que optam pela produção independente e casais homoafetivos. A técnica também pode ser utilizada quando existe indicação para investigação genética dos embriões.
A idade é outro fator importante. A mulher nasce com uma quantidade determinada de óvulos e, com o passar dos anos, há redução da reserva e da qualidade deles. Por isso, algumas mulheres procuram o congelamento de óvulos como forma de preservar a possibilidade de uma gravidez futura.
“O que limita a mulher ou pelo menos o que dificulta ela engravidar com o avanço da idade é o impacto sobre o óvulo e não sobre o útero”, explica Altina.
O sucesso da reprodução assistida, porém, não depende apenas do óvulo. A qualidade do espermatozoide e as condições do útero também podem interferir na formação e na implantação do embrião. “Para ter um bom embrião eu preciso de um bom óvulo, um bom espermatozoide, e preciso de um bom útero, que é a casinha do bebê, onde esse embrião vai se implantar”, afirma.
O positivo
Depois das três coletas, Marília finalmente chegou à transferência do embrião. Vieram então os dias de espera pelo exame que confirmariam se a tentativa havia dado resultado. O medo de um novo negativo fez com que ela evitasse antecipar o teste. O exame foi realizado no dia indicado pela médica. Em 9 de julho, veio o resultado positivo.
“É uma sensação de dever cumprido, de conseguimos. Eu nunca consegui só. A sensação que eu tinha é que eu venci, que eu consegui, apesar do caminho cheio de pedra”, lembra.
A gravidez, no entanto, não apagou imediatamente as experiências anteriores. Com duas perdas na história, cada exame passou a ser acompanhado de expectativa. Hoje, Marília está com 11 semanas e cinco dias de gestação e se prepara para a próxima etapa do pré-natal.
“Quando deu positivo, a doutora Altina dizia muito para mim: ‘Vá curtir, acredite, você está grávida’.”
Aos poucos, ela diz que conseguiu deixar de olhar para a gravidez apenas com medo e começou a vivenciar o desejo de ser mãe de forma mais concreta. “Eu não estou mais no preto e branco. Estou na parte colorida da vida”, resume.
Para ela, a fertilização in vitro representou mais do que uma técnica para engravidar. Foi a possibilidade de continuar tentando realizar um projeto que começou com o desejo de ser mãe e passou por perdas, complicações e tentativas até chegar ao primeiro trimestre de uma nova gestação. “Para mim, foi um sonho realizado. Sem a opção de fazer uma FIV, eu não engravidaria. Seria muito difícil.”
Recife, o centro da reprodução assistida
Pela primeira vez, Recife será sede do Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida, que ocorre de 9 a 12 de setembro, no Expo Center Recife. O evento marca 30 anos da Associação Brasileira de Reprodução Assistida e reunirá especialistas brasileiros e estrangeiros para discutir novas estratégias e tecnologias voltadas ao tratamento da infertilidade e à preservação da fertilidade.
De acordo com a médica Altina, um dos principais temas será a necessidade de ampliar o olhar sobre o paciente. “O cuidado integral da paciente” será o eixo do congresso, com discussões que vão desde a preparação física e emocional para a gravidez até a avaliação do fator masculino, das condições do útero e dos avanços na análise genética dos embriões.
A programação também terá debates sobre inteligência artificial aplicada à reprodução assistida, novas formas de avaliação dos espermatozoides, diagnóstico de alterações uterinas e técnicas para seleção de embriões. A proposta é discutir como os recursos tecnológicos podem contribuir para aumentar a precisão das decisões durante o tratamento.
O congresso terá ainda a participação de especialistas internacionais, incluindo representantes das sociedades americana e europeia de reprodução assistida e profissionais envolvidos em pesquisas e no desenvolvimento de técnicas utilizadas atualmente na área.