Furtos fazem Compesa perder água suficiente para 80 mil caminhões-pipa por mês
Volume resgatado em 2025 daria para abastecer uma cidade como Camaragibe, segundo presidente da companhia;
Publicado: 17/08/2026 às 06:00
Compesa monitora problemas durante abastecimento em todo o estado (Foto: Weslly Gomes/DP Foto)
A água recuperada pela Compesa em operações contra furtos realizadas em Pernambuco durante 2025 seria suficiente para encher 80 mil caminhões-pipa de 10 mil litros por mês, volume equivalente a 350 litros por segundo. O cálculo, apresentado pelo presidente da companhia, Douglas Nóbrega, mostra o tamanho do problema que afeta diretamente o abastecimento no estado.
A água desviada antes de chegar ao consumidor é retirada de um sistema que já passou por captação e tratamento e deveria ser destinada à população. Segundo o gestor, o volume recuperado seria suficiente para abastecer uma cidade como Camaragibe por mês.
Ao longo de 2025, a Compesa realizou 40 operações de combate ao furto de água e as ações resultaram na recuperação da vazão de 350 litros por segundo, além do desmonte de 1.700 ligações clandestinas e 15 prisões, de acordo com os dados apresentados pelo presidente.
Em áreas onde há desvio de grandes volumes, a consequência pode aparecer na ponta do sistema, com redução da vazão disponível para as comunidades abastecidas pelas adutoras.
“Quando uma pessoa está furtando água, ela não está furtando água da Compesa. Está furtando água da população. É uma água que já foi tratada e enviada para a população. Se não chega até lá, o prejuízo é grande para a Compesa, que tem o prejuízo financeiro, mas o maior prejuízo realmente é da população”, afirma o presidente da Compesa.
Furtos em grandes adutoras
No interior, segundo a Compesa, os desvios podem ocorrer diretamente nas grandes adutoras, algumas delas localizadas em áreas rurais e extensas, o que dificulta a fiscalização.
“No interior, geralmente, há pessoas que fazem furto na distribuição, o famoso ‘jacaré’ que são colocados nas casas. Isso também existe aqui, mas no interior é mais comum o furto, muitas vezes, para atividades agrícolas ou agropecuárias do que nas cidades. Geralmente, esses furtos acontecem nas grandes adutoras.”
Um exemplo recente ocorreu na Adutora do Pajeú. Em janeiro de 2026, uma operação realizada em um trecho de 40 quilômetros, em Serra Talhada, retirou ligações irregulares e recuperou aproximadamente 35 litros por segundo.
Antes da ação, a vazão disponível era de 135 L/s; depois, passou para 166 L/s. Segundo a Compesa, o volume recuperado equivale a mais de 3 mil caixas d’água de mil litros por dia e beneficiou moradores de Serra Talhada, Calumbi, Triunfo e do distrito de Canaã.
Outro caso recente foi registrado na Adutora de Tabocas, no Agreste. Em março de 2026, levantamento técnico apontou que, de uma vazão de aproximadamente 185 L/s na saída do sistema, apenas 80 L/s chegavam ao destino. A diferença preliminar de 105 L/s, equivalente a 57% do volume produzido naquele trecho, foi atribuída pela companhia a perdas que ainda seriam investigadas e consolidadas nas etapas seguintes da operação.
Os resultados das operações contra furtos são mais recentes que o principal indicador oficial disponível sobre perdas de água. O SINISA 2025, divulgado pelo Ministério das Cidades, apresenta os dados referentes a 2024. Naquele ano, Pernambuco registrou 43,4% de perdas na distribuição, acima da média nacional, de 39,5%.
O percentual não significa que 43,4% de toda a água tratada em Pernambuco simplesmente desapareça. O indicador reúne perdas reais, como vazamentos e problemas físicos da rede, e perdas aparentes, relacionadas a situações como fraudes, ligações clandestinas e falhas de medição.
Assim, os números do SINISA ajudam a dimensionar o problema estrutural, enquanto os resultados apresentados pela Compesa mostram uma parcela específica das perdas que está sendo combatida atualmente: os desvios e furtos de água.
A estratégia mudou em 2026
Depois das 40 operações realizadas em 2025, a Compesa ampliou a estrutura dedicada ao combate aos furtos. Segundo Douglas, o efetivo da área foi duplicado e a companhia passou a contar com o reforço de um tenente-coronel da Polícia Militar. A parceria envolve a Secretaria de Defesa Social, as polícias Militar e Civil.
A frequência das operações também aumentou. De acordo com o presidente, a média passou de uma operação por semana para duas.
“Então, a meta deste ano é dobrar tudo o que a gente conseguiu fazer no passado. E, agora, no meio do ano, a gente já atingiu o volume que recuperou no ano passado. É uma estratégia importante porque, além do prejuízo financeiro, existe principalmente a perda de abastecimento.”
A companhia também passou a usar ferramentas tecnológicas para tentar identificar desvios que não são perceptíveis em fiscalizações convencionais. Entre os equipamentos adquiridos estão georradar, drones com topografia a laser e ecobatímetros. O investimento informado por Douglas foi de aproximadamente R$ 1 milhão.
O sistema de monitoramento das vazões é outra ferramenta utilizada pela empresa. A partir dele, técnicos conseguem comparar o volume que deixa determinado ponto da rede com aquele que chega ao destino.
“A gente sabe de onde está saindo e para onde está indo cada vazão, cada volume de água. A gente manda uma equipe para estudar. Só que o estado é grande e às vezes precisamos ir daqui para Petrolina, que está a uma distância de 800 quilômetros. Então, não é fácil.”
A companhia também utiliza imagens de satélite para investigar possíveis desvios. Segundo Douglas, estruturas como grandes barreiros ou açudes localizados em áreas de escassez hídrica podem levantar suspeitas quando há indícios de que tenham sido abastecidas por água desviada.
Anos anteriores
O indicador oficial mais recente, de 2024, mostra que Pernambuco ainda está distante da meta nacional de 25% de perdas na distribuição até 2033. O estado, com 43,4%, está quase 19 pontos percentuais acima desse patamar.
O Nordeste também apresenta um cenário mais difícil que outras regiões brasileiras. O índice regional de perdas na distribuição chegou a 46,25% em 2023, enquanto a média brasileira naquele ano era de 40,31%.
A redução das perdas, portanto, tem impacto que vai além da eficiência financeira da companhia. Quanto menor o volume perdido, menor a necessidade de produzir água adicional para compensar aquilo que não chega ao consumidor e maior a quantidade que pode permanecer disponível no sistema.