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KAPINAWÁ

À espera de demarcação no Catimbau, indígenas se abrem ao turismo: "Cansamos de ser invisibilizados"

Dentro de iniciativas do Sebrae-PE de desenvolvimento econômico da região, indígenas kapinawá no Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, têm recebido turistas em aldeia

Jorge Cosme

Publicado: 14/08/2026 às 15:44

Nywá Kapinawá se apresenta como detentor de saberes ancestrais./Foto: Jorge Cosme/DP Foto

Nywá Kapinawá se apresenta como detentor de saberes ancestrais. (Foto: Jorge Cosme/DP Foto)

"Eu sou franca, não sou muito dessas apresentações. Tenho um pé sempre atrás", diz a coordenadora pedagógica Sandra Juká. A fala se dá dentro de uma oca kapinawá, de paredes de taipa, com árvores nativas e cobertura de palhas de ouricuri. Momentos antes, pessoas de fora que visitavam a Aldeia Malhador, no interior do Parque Nacional do Catimbau, em Buíque, Agreste de Pernambuco, haviam prestigiado uma apresentação do toré, ritual com dança circular e cantos, além de consumo de rapé e jurema.

“Os apagamentos, as invisibilizações, porém, me fazem estar aqui hoje, para poder mostrar a vocês que resistimos”, completa Sandra. O discurso da indígena evidencia a tensão e a busca por formas de resistência entre as mais de 20 aldeias da região.

Os kapinawá estão espalhados pelos municípios de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim. Reconhecem-se como descendentes de indígenas de outras etnias, que, em processos migratórios, chegaram à região.

Em 1998, um território kapinawá foi homologado. Porém, muitas aldeias estão fora do perímetro e cobram reconhecimento desde então. "Nós fomos ignorados no processo [de instituição do Catimbau como parque nacional brasileiro, em 2002], como se a gente não existisse ali. São várias aldeias dentro da área em que o parque nacional está sobreposto", completa Sandra.

Mais recentemente, com apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado de Pernambuco (Sebrae-PE), os indígenas do Catimbau estão abrindo as portas para turistas, para que conheçam sua cultura, ritos, história e artesanato.

"Nós abraçamos esta causa porque cansamos de viver escondidos", diz Nywá Kapinawá, indígena da Aldeia Malhador. "É uma oportunidade do mundo saber da nossa existência e da nossa história contada por nós mesmos e não por terceiros".

Segundo a gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae Unidade Agreste Meridional, Gerlane Melo, a abertura dos kapinawá para o turismo tem sido pensada de forma cuidadosa.

"Não é um turismo massificado. É para quem realmente quer conhecer e vivenciar um ritual da aldeia indígena", ela resume.

"Quando nós começamos a criar a rota da ecoaventura e do artesanato, eu pedi para conhecer a Aldeia Malhador", lembra Gerlane. "Eles abriram a primeira vez para gente, eu levei os guias para ter essa vivência e todo mundo ficou encantado", acrescenta.

Há aldeias na região que demonstraram interesse em empreender com artesanato, mas optaram por não receber visitantes.

Gerlane reforça que a iniciativa vai além de um olhar meramente comercial. "É uma forma de gerar renda, mas também de eles contarem a vida que levam, mostrarem que existem".

Cobranças

Segundo Nywá, os kapinawá buscam viver em harmonia com a unidade de conservação. Entretanto, ele diz que a situação atual também gera prejuízos.

"A gente fica um pouco preocupado porque isso nos tira alguns direitos, o direito da caça, de construir uma nova morada", exemplifica.

Para o indígena, parte da população ainda os enxerga como uma "pedra no sapato".

"Nos dias atuais, se a gente for para a cidade caracterizado com nossas vestes, com pintura corporal, por muito somos mal vistos. São poucos para aplaudir nossa história".

Sandra Juká segue refletindo sobre a importância de trazer pessoas de fora para acompanhar os rituais. Teme estar usando das "forças sagradas" para apresentações. Mas, cansada de esperar, tem aceitado a ideia.

"Fomos invisibilizados com a criação do Parque Nacional. Isso nos cansa. Por isso que eu estava ali e é por isso que estou".

 

Ecoturismo

Há décadas o Sebrae-PE desenvolve ações para promover o Vale do Catimbau, como é conhecido o local. Mais recentemente, em uma parceria da unidade estadual com o Sebrae nacional, está previsto um investimento de R$ 4 milhões para promoção de melhorias nos pequenos negócios e no fortalecimento do destino, considerado o segundo maior parque arqueológico do Brasil.

O projeto pretende ampliar o fluxo de visitantes, gerar renda e consolidar a região como um dos principais polos de ecoturismo nacional. As ações devem ser executadas até o final de 2027.

Localizado a cerca de 280 km do Recife, o Parque Nacional do Catimbau tem aproximadamente 62,3 mil hectares e foi instituído pelo decreto de 13 de dezembro de 2002.

A reportagem procurou a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para questionar sobre a situação de reconhecimento de territórios kapinawá, mas não obteve resposta até a publicação.

A reportagem visitou o Parque Nacional do Catimbau a convite do Sebrae-PE.

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