Onde mora o amor: história de pais que reinventaram a paternidade
No dia dos Pais, histórias de pais solo e de casais homoafetivos mostram que cuidado, presença e afeto redefinem o significado da paternidade
Publicado: 09/08/2026 às 06:00
Professor de artes e música Íkaro Lima Cavalcante, 37 anos, e seus dois filhos (Foto: Rafael Vieira/DP)
A imagem tradicional da família formada por pai, mãe e filhos já não representa todas as formas de viver a paternidade. Em Pernambuco, homens que criam os filhos sozinhos e casais homoafetivos que realizaram o sonho de formar uma família mostram que o amor, a presença e o cuidado têm ocupado um espaço muito maior do que os modelos convencionais.
Neste Dia dos Pais, celebrado no próximo domingo (9), as histórias do professor Íkaro Lima Cavalcante, do Recife, e do casal Helder Breno Feitoza e Leonardo Guerra, de Caruaru, revelam desafios distintos, mas marcados pelo mesmo compromisso: criar filhos em um ambiente de afeto.
O pai que precisou aprender a maternar
Há quase dois anos, a vida do professor de artes e música Íkaro Lima Cavalcante, 37 anos, mudou completamente. Horas após o nascimento da filha Tereza, hoje com 1 ano e 11 meses, sua esposa morreu. Além da recém-nascida, ele também passou a cuidar sozinho do outro filho do casal, Miguel de 8 anos.
Em meio ao luto, vieram as responsabilidades da criação dos dois filhos e a necessidade de reorganizar toda a rotina da família.
“Eu estava atravessado pelo luto e ainda cuidando de duas crianças. Tinha um garoto iniciando o processo de luto pela mãe e uma bebê que eu ainda estava conhecendo. Foi preciso entender como seguir em frente.”
Íkaro conta que, antes da morte da esposa, o cuidado com os filhos sempre foi dividido de forma natural entre os dois. Nunca existiu uma separação entre tarefas “de homem” ou “de mulher”. “Nunca existiu uma divisão formal. Sempre entendi que cuidar da casa e dos filhos é dever de qualquer ser humano.”
Após a perda da esposa, esse entendimento ganhou outro significado. “Os homens também podem maternar. Eu já acreditava nisso, mas agora eu precisava viver isso. O lugar da maternidade também passou a ser meu.”
Além dos cuidados diários, preparar refeições, acompanhar a escola, colocar para dormir, prover financeiramente a casa, o professor destaca a importância da rede de apoio formada pelos avós, familiares e amigos.
“É preciso uma aldeia para criar uma criança. Hoje entendo isso de forma muito concreta.”
Ele também reconhece que essa experiência mudou sua percepção sobre a maternidade solo. “Hoje recebo muitos relatos de mulheres que criam seus filhos sozinhas sem nenhuma rede de apoio. Já é difícil ser pai solo. Sem ajuda, a sobrecarga é muito maior.”
Mesmo com a filha nunca tendo convivido com a mãe, Íkaro faz questão de manter viva a memória da esposa dentro de casa.
“A memória não acontece só pelas fotografias. Ela acontece pelas histórias, pelas pessoas que conviveram com ela. Cada familiar guarda uma versão de Luiza (esposa) que pode apresentar para ela (filha).”
Para ele, mais do que explicar a ausência da mãe, o desafio é permitir que a filha conheça quem ela foi. “Não existe mistério em falar sobre a morte. Ela faz parte da nossa história. A memória continua sendo construída todos os dias.”
Ao olhar para trás, o professor acredita que o maior legado deixado pela esposa permanece vivo na educação dos filhos.
“Sempre falávamos que uma família precisava ser construída sobre amor, respeito e gratidão. Depois da morte de Luiza, acrescentei mais um valor: a alegria.”
Neste segundo Dia dos Pais como pai solo, Íkaro resume o que aprendeu. “Ser pai é uma oportunidade de se tornar um ser humano melhor.”
Dois pais, uma filha e uma família construída pelo afeto
Em Caruaru, outra história desafia antigos padrões. Casados há 18 anos, Helder Breno Feitoza, 46 anos, e Leonardo Guerra, 38, sempre sonharam em ser pais. Depois de uma década de relacionamento, decidiram iniciar esse projeto.
Primeiro, entraram na fila de adoção. Depois, surgiu a possibilidade da fertilização in vitro por meio da cessão temporária de útero de uma amiga da família. O caminho, porém, foi longo.
Como a legislação brasileira não permite barriga de aluguel comercial e a gestante não era parente do casal, o procedimento precisou ser autorizado pelo Conselho Regional de Medicina, que levou cerca de seis meses analisando documentos, laudos e pareceres. Durante uma das reuniões com o comitê responsável pela autorização, Breno fez um desabafo que nunca esqueceu.
“Passei seis meses imaginando o rosto das pessoas que decidiriam se eu poderia ou não ser pai. Enquanto tanta gente abandona filhos ou comete violência contra crianças, eu precisava esperar uma autorização para realizar um sonho.”
Após a aprovação, a fertilização deu certo na primeira tentativa. Nasceu a primeira filha do casal, Maria Carolina, hoje com 9 anos. “A nossa vida se divide entre antes e depois da paternidade.”
Ele diz que foi somente após o nascimento da filha que compreendeu o significado do amor. “Hoje eu sei o que é amar alguém. É um sentimento que eu nunca consegui encontrar em livro nenhum. Só vivendo.”
Desde os primeiros dias de vida, Breno e Leonardo buscaram criar vínculos com a filha. Sem amamentação, Breno seguia orientação médica para estimular o contato físico.
“Eu colocava ela enrolada junto ao meu peito para ouvir as batidas do meu coração. Era uma forma de criar esse vínculo.”
A chegada da escola também trouxe apreensão, mas a experiência surpreendeu. No grupo de WhatsApp da turma, chamado inicialmente de “Mães do Infantil”, uma das administradoras alterou espontaneamente o nome para “Pais do Infantil”, incluindo oficialmente os dois pais. “Naquele momento eu percebi que estávamos sendo acolhidos.”
Hoje, segundo Breno, outros pais participam normalmente do grupo. “A gente acabou ajudando a ampliar esse espaço para todas as famílias.”
De acordo com ele, ao longo dos anos a filha começou a responder sozinha às perguntas dos colegas sobre ter dois pais.
“Nós sempre contamos a ela que os bebês escolhem a família onde querem nascer e que, como os homens não podem gerar filhos, foi preciso encontrar uma mulher para guardar ela na barriga até o nascimento.”
Quando algumas crianças insistiam em dizer que a mulher que gestou era sua mãe, a menina respondia com naturalidade. “Ela só emprestou a barriga.”
Apesar de um episódio de tristeza durante uma comemoração do Dia das Mães, Breno conta que a psicóloga da escola tranquilizou o casal. “Ela disse que quem precisava mais de terapia éramos nós. Nossa filha estava muito bem.”
Hoje, ele afirma nunca ter vivido situações de preconceito que marcassem a trajetória da família.
“Meu olhar não está voltado para o preconceito. Minha vida é construída pelo amor, pelo respeito e pelo acolhimento.”
No próximo Dia dos Pais, a menina repetirá um ritual que acontece todos os anos: escolher um presente para cada um dos pais. “Ela tem dois pais. Então compra dois presentes.”
Ao pensar na própria história, Breno resume a paternidade em apenas uma palavra. “Amor. Na maior essência da palavra.”
Embora tenham trajetórias completamente diferentes, Íkaro e Breno compartilham a mesma convicção: ser pai vai muito além dos laços biológicos ou das configurações familiares tradicionais.
Um descobriu, no luto, que também podia exercer o papel de maternar. O outro enfrentou barreiras burocráticas para realizar um sonho que parecia distante. Em comum, ambos mostram que presença, escuta, acolhimento e afeto são elementos que sustentam qualquer família.