Onde os coqueiros morreram: o parque que virou depósito de entulho em Olinda
Cenário de abandono atinge o antigo Parque dos Coqueirais, que está sem iluminação ou policiamento
Publicado: 28/07/2026 às 21:10
Área do antigo Parque dos Coqueirais hoje é alvo de entulho doméstico (Rafael Vieira/DP Foto)
A entrada de Olinda perdeu, há mais de 14 anos, o que ainda é sinalizado nos mapas como Parque dos Coqueirais. A paisagem foi completamente alterada e, com o tempo, pessoas que circulam na área desconhecem a história. Há cerca de um mês, o local passou a ser destino para o despejo de entulhos de diversas origens.
Às margens da PE-001, entre o rio Beberibe e o bairro de Salgadinho, ladeando a Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Olinda, o local que outrora reuniu fileiras da palmeira frutífera e permitia a vista da Praia Del Chifre — considerada imprópria para o banho por conta dos ataques de tubarão — está abandonado.
Quem por ali passa já não encontra o horizonte. Dunas do rejeito removido do rio Beberibe, entre maio de 2012 e março de 2015, durante um serviço de dragagem do governo de Pernambuco, foram encobertas por uma vegetação rasteira e os coqueiros morreram, levando muitos a acreditar, hoje, que os montes são naturais. Nos últimos meses, o local voltou a ser alvo do descarte incorreto de entulhos de reformas domésticas. Sobressaem fragmentos de peças de gesso ou tijolos, madeira, tubos de ar-condicionado e retalhos de tecido de lona.
O odor de um animal morto, em avançado estado de decomposição, chama a atenção na margem de uma das vias de acesso, onde instrutores de autoescolas promovem aulas práticas de pilotagem de motocicleta. “O entulho apareceu há um mês. Dizem queveio de um incêndio que ocorreu no Recife. Aqui era mais limpo. Não havia essa ‘metralha’, nem lixo”, denuncia o instrutor Artur Araújo, 29 anos, que há cinco anos atua no local e nunca ouviu falar do antigo parque. “Isso aqui não está pior porque a gente ainda está aqui.”
Severino Ramos, 52, também é instrutor e há seis anos realiza suas aulas na área, que reconhece como propriedade da União e responsabilidade da Marinha do Brasil. “A gente atua aqui com autorização”, revela. “Antigamente dava aula até às 20h”, recorda Ramos, que acredita que o descarte do lixo é realizado durante a noite e relata rateios feitos, no passado, pelos instrutores para a capinagem do lugar. "Não é nosso, mas como a gente usa, a gente zela”, declara Ramos.
Além da atividade, o local tem uma rotatividade de pessoas em situação de rua e usuários de drogas. Para os instrutores, o trecho — que integra o perímetro do Sítio Histórico de Olinda — deveria contar com maior policiamento. Segundo relatos de frequentadores, um feto e um corpo humano já foram desovados no local, que não conta com iluminação pública durante a noite ou travessia adequada para pedestres. Da passarela que conectava o Parque dos Coqueirais ao Memorial Arcoverde restaram apenas as bases. Para atravessar, o transeunte precisa se arriscar cruzando a PE-001, que conecta Recife a Olinda.
Sobre o antigo Parque dos Coqueirais e projetos de requalificação do espaço, a Secretaria de Planejamento e Gestão do governo do estado foi procurada e indicou que, por “fazer parte da área de visibilidade do Sítio Histórico de Olinda”, a responsabilidade é da prefeitura local e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A Prefeitura de Olinda, por sua vez, confirmou que a área é de responsabilidade da Marinha.
A Capitania dos Portos em Pernambuco, que é vinculada à Marinha, foi procurada pela reportagem, mas até o fechamento deste texto não houve resposta.