Brasil aprova combinação de imunoterapias que diminui em 83% a progressão de câncer raro
País aprovou a combinação de dois medicamentos para o tratamento de mieloma múltiplo. Pernambuco tem média de 119 casos diagnosticados por ano
Nicolle Gomes - Enviada especial do Diario de Pernambuco
Publicado: 24/07/2026 às 20:18
Informações foram divulgadas em coletiva de imprensa da Johnson & Johnson, realizada em São Paulo, nesta quinta (Foto: Nicolle Gomes/DP Foto)
SÃO PAULO – O Brasil se tornou o segundo país no mundo a aprovar uma combinação de imunoterapias para o tratamento de mieloma múltiplo, um câncer raro no sangue e incurável. A liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aconteceu em junho, após resultados de uma pesquisa da Johnson & Johnson, que apontou redução de 83% na progressão da doença com o método combinativo.
A maioria dos casos de mieloma múltiplo geralmente é diagnosticada em pessoas de idade mais avançada. No Brasil, mais de 7 mil novos casos são diagnosticados por ano, representando cerca de 1% de todos os cânceres e cerca de 10% das neoplasias hematológicas, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Entre 2014 e 2024, Pernambuco registrou 1.190 casos da doença, uma média anual de 119 diagnósticos no período. Esse total representa 15,13% dos 7.681 casos contabilizados no Nordeste inteiro no mesmo recorte de tempo, de acordo com dados do DATASUS.
Todos os dados e informações foram divulgados em coletiva de imprensa da Johnson & Johnson, realizada em São Paulo, nesta quinta (23). O Diario de Pernambuco esteve presente a convite da empresa.
Estudos
A doença afeta células de defesa do corpo, chamadas plasmócitos, causando reprodução descontrolada e atuação irregular. Os sintomas são dores e fraturas ósseas, anemia, fadiga, problemas renais e infecções frequentes. Além da demora burocrática, os sintomas vagos da doença contribuem para o diagnóstico tardio.
"Muitas vezes a dor nas costas ou o cansaço do idoso são atribuídos ao envelhecimento natural, retardando a ida ao hematologista", explicou a Dra. Damila Trufelli, diretora médica de Oncologia da Johnson & Johnson Innovative Medicine.
Durante o tratamento, as “recaídas” da enfermidade são frequentes. Diante disso, inúmeras linhas de pesquisa estudam como aumentar os períodos de remissão do câncer – espaços de estabilidade da doença, sem progressão – e aumentar a qualidade de vida dos pacientes.
O estudo clínico MajesTEC-3, da Johnson & Johnson, associou, entre 2021 e 2023, as medicações TECVAYLI® (teclistamabe) com o DALINVI® (daratumumabe) em 291 pacientes após a primeira recaída. A combinação também é chamada informalmente pelos especialistas de “TecDara”.
"Toda vez que se testa uma droga nova, há comparação com o tratamento padrão. Quando vi esse dado, a curva de sobrevida era praticamente uma reta de tão bom que foi o resultado. Não existe hoje um tratamento em primeira recaída que dê um resultado como esse", destacou a hematologista Vânia Hungria, referência no tratamento de mieloma múltiplo no Brasil, durante o encontro com jornalistas.
A pesquisa demonstrou uma redução de 83% no risco de progressão da doença ou morte em comparação com os regimes padrão, com uma taxa de sobrevida livre de progressão em três anos de 83%, contra 30% do padrão, além de uma taxa de sobrevida global de 83,3%, de acordo com dados do MajesTEC-3 publicados no The New England Journal of Medicine.
Qualidade de vida
Durante o evento desta quinta (23), duas pacientes que participaram do MajesTEC-3 compartilharam a experiência do tratamento: Nícia Dalfre, 67 anos, de Limeira, no interior de São Paulo, e Mônica Deganello, de 58, da capital paulista.
Nícia Dalfre era uma mulher ativa e se exercitava com frequência. Os primeiros sinais apareceram depois de um desconforto ao andar de bicicleta. Ela descobriu o mieloma múltiplo em 2019 e enfrentou um difícil caminho até o diagnóstico.
Após passar por cirurgia, transplante de medula e tratamentos intensos, ela só encontrou melhora duradoura ao participar do estudo, indicada pela equipe da Dra. Vânia.
“Eu acho que, de uma maneira geral, a gente não pode se abandonar. Eu vivo bem. Quando, logo no início, o médico falou que eu não podia mais andar de bicicleta, que era algo que eu fazia todo fim de semana, foi difícil. Mas existem outras alternativas na vida. Hoje eu faço pilates, fisioterapia e tenho uma vida relativamente normal”, comentou Dalfre.
A engenheira Mônica Deganello conviveu com anemia a vida toda e se acostumou com a condição de saúde, que, aparentemente, não a afetava significativamente. Em 2017, aos 49 anos, descobriu que, na verdade, aquilo também era um sintoma do mieloma.
Ela precisou de dois transplantes de medula óssea, permaneceu por cinco anos em tratamento de manutenção e, após a recaída da doença, ingressou no estudo clínico.
Em remissão há quatro anos, ela contou que conseguiu continuar a vida e realizar sonhos que antes não achava mais possíveis. Durante o tratamento, decidiu iniciar a graduação em Direito e, oficialmente, agora também é advogada.
“Estou maravilhosa. Eu tenho meu trabalho, uma carga horária intensa, mas mesmo assim consigo conciliar musculação e caminhada no mínimo três vezes por semana. Minha vida é trabalho, cuidar de casa, da família e fazer minhas atividades físicas. Com boa alimentação e com o medicamento certo, a gente consegue levar uma vida bem normal”, afirmou.
Para a presidente da International Myeloma Foundation (IMF) América Latina, Christine Battistini, que também esteve no encontro, a informação continua sendo a maior ferramenta do paciente. "O paciente bem informado consegue cobrar seus direitos e fazer uma parceria com seu médico para buscar a melhor opção disponível".
Acessibilidade e cura
A aprovação do TecDara é um passo importante, mas ainda não contempla toda a população, já que a combinação ainda não é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é restrita à rede privada.
“No SUS, os pacientes continuam sem acesso. Outros medicamentos foram teoricamente incorporados, mas ainda não é uma realidade. Acho que a nossa política não está favorável às incorporações dessas medicações e ao acesso para esses pacientes, infelizmente. Eu diria que os estudos vêm muito mais rápido do que a incorporação no SUS. Por outro lado, uma tremenda injustiça”, acrescentou a Dra. Vânia Hungria.
Segundo a Johnson & Johnson, a meta é curar mais de 50% dos casos recém-diagnosticados até 2030 e até 75% até 2035. Diante da evolução, a hematologista apontou, ainda, um conceito de "cura" ligado ao mieloma múltiplo.
“Hoje podemos começar a falar em cura do mieloma. Porque cura, não necessariamente, é o paciente não ter doença. Podemos falar em cura funcional, por exemplo, que são os pacientes que têm resposta profunda e que vão morrer de outra coisa. Eu aposto na cura do mieloma”, finalizou.