° / °
Vida Urbana
OPERAÇÃO MIRAGE

Metas em dólar e plano para o México revelam bastidores de grupo preso no Recife por golpe

Anotações encontradas pela Polícia Civil revelam rotina de produtividade, hierarquia entre operadores e planejamento para transferir a estrutura da organização criminosa para fora do Brasil

Adelmo Lucena

Publicado: 21/07/2026 às 20:54

Quadro tinha metas e citava futura viagem ao México /Foto: Reprodução

Quadro tinha metas e citava futura viagem ao México (Foto: Reprodução)

O grupo criminoso especializado em golpes financeiros preso no Recife em uma operação da Polícia Civil no dia 15 de julho planejava deixar o Brasil, segundo investigações. O plano estava registrado em um quadro branco instalado no escritório onde funcionava a central de golpes financeiros desarticulada pela Operação Mirage.

Ao lado das metas de arrecadação em dólares, os investigadores encontraram orientações para uma viagem ao México, como imprimir o visto eletrônico, converter dinheiro em espécie, digitalizar documentos pessoais e informar aos "líderes" qualquer pendência antes do embarque. Para a investigação, as anotações indicam que o grupo se preparava para transferir parte da operação para o exterior.

A sala funcionava em um empresarial na Avenida Agamenon Magalhães, no Recife. Quando os policiais cumpriram os mandados de busca e apreensão, os 13 investigados estavam em seus postos de trabalho, utilizando computadores e celulares. Sobre as mesas havia anotações com nomes de clientes, valores investidos, profissões das vítimas e observações utilizadas durante o contato com os investidores.

O escritório tinha características incomuns para uma empresa de consultoria financeira. A porta era protegida por fechadura eletrônica, já as paredes possuíam isolamento acústico. Além disso, câmeras monitoravam os acessos ao imóvel e não havia qualquer identificação da empresa na porta da sala nem no painel de estabelecimentos do edifício.

Nos computadores, os policiais encontraram plataformas que simulavam operações do mercado financeiro. As telas reproduziam gráficos, índices e interfaces semelhantes às de corretoras de investimentos. Conforme a investigação, o sistema servia apenas para convencer as vítimas de que o dinheiro estava aplicado, embora não houvesse qualquer ligação com o mercado financeiro.

Entre o material apreendido também havia anotações fazendo referência ao programa AnyDesk, utilizado para acesso remoto a computadores. No inquérito, um dos delegados que participou da operação aponta que o aplicativo pode ter sido usado para acessar dispositivos das vítimas durante as negociações, permitindo acompanhar operações bancárias, induzir transferências e realizar outras movimentações financeiras sem despertar suspeitas.

Metas em dólares

O quadro branco apreendido pela Polícia Civil revela como a organização acompanhava o desempenho dos operadores. No painel aparecem os prenomes de 11 integrantes (Guilherme, Bernardo, Daniel, Angelo, Bruno, Thales, Ricardo, David, Isaac, Roberto e Oscar) acompanhados por indicadores de produtividade. Há campos destinados ao controle de "meta", "bruto", "saque", "líquido" e "projeções", todos em dólares.

As anotações registram uma projeção mensal superior a US$ 800 mil e fazem referência a "loads" e "líderes". Para a Polícia Civil, o material demonstra que o grupo atuava de forma hierarquizada, com divisão de tarefas, metas individuais e acompanhamento permanente dos resultados.

A fotografia do quadro aponta ainda uma meta parcial de US$ 600 mil, valores já arrecadados e projeções para os dias e semanas seguintes, indicando que o desempenho da equipe era monitorado continuamente.

Mudança para o exterior

No mesmo quadro, os policiais encontraram uma lista intitulada "Viagem para o México". Entre as orientações estavam providenciar toda a documentação da viagem, digitalizar documentos pessoais, guardar dinheiro até a data do embarque e comunicar imediatamente aos líderes qualquer problema que pudesse comprometer a viagem.

Outro espaço do quadro trazia um "Check-list Pré-Viagem". As anotações orientavam os integrantes a imprimir o E-Visa México, considerado de "importância máxima", converter recursos para dólares em espécie e não transportar qualquer material ilícito na bagagem.

Na avaliação da equipe responsável pela investigação, o conteúdo reforça a suspeita de que a mudança da estrutura para o México já estava sendo preparada e buscava dificultar a atuação das autoridades brasileiras.

Durante as buscas, a Polícia Civil apreendeu ainda papéis com orientações para os operadores durante o contato com as vítimas.

As anotações continham argumentos utilizados para convencer investidores a realizar novos aportes financeiros e manter a confiança na plataforma. Apesar da estrutura montada no escritório, os policiais não localizaram contratos de prestação de serviços, cadastro de clientes ou qualquer documento que comprovasse autorização para a empresa atuar no mercado financeiro.

Em um cômodo utilizado como depósito, os policiais encontraram substâncias com características de maconha e cocaína, dinheiro em espécie e uma munição calibre .380 de treinamento.

Também foram apreendidos computadores, notebooks, celulares, passaportes, documentos, chaves de veículos e outros equipamentos eletrônicos que serão periciados. Como nenhum dos presos assumiu a propriedade dos automóveis encontrados no estacionamento do edifício, os policiais fizeram buscas nos veículos. Em um deles foram localizados dois celulares, sendo que um exibia a fotografia de um dos investigados.

Durante a abordagem, os policiais tentaram identificar quem comandava a estrutura instalada no empresarial. Questionados sobre o responsável pelo escritório, os investigados preferiram exercer o direito ao silêncio. Antes disso, afirmaram apenas que eram monitorados por meio das câmeras de segurança instaladas no imóvel. A identificação da liderança da organização continua sendo uma das frentes da investigação.

O Diario de Pernambuco entrou em contato com as defesas dos suspeitos e aguarda retorno.

Mais de Vida Urbana

Últimas

WhatsApp DP
Mais Lidas