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Vida Urbana
"Operação vingança"

Mensagens e áudios sustentam tese de vingança policial na Chacina de Camaragibe

MPPE sustenta que conversas obtidas com autorização judicial revelam intenção de matar familiares de Alex Samurai e reforçam acusação de que oficiais acompanharam a ação sem impedir os crimes

Adelmo Lucena

Publicado: 21/07/2026 às 20:23

Chacina aconteceu no bairro de Tabatinga, em Camaragibe
/REPRODUÇÃO/VÍDEO

Chacina aconteceu no bairro de Tabatinga, em Camaragibe (REPRODUÇÃO/VÍDEO)

Mensagens de WhatsApp e áudios atribuídos a policiais militares passaram a integrar o conjunto de provas utilizado pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE) para sustentar que a sequência de homicídios conhecida como Chacina de Camaragibe foi resultado de uma operação de vingança organizada após a morte de dois policiais militares, em setembro de 2023.

A denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), à qual o Diario de Pernambuco teve acesso, afirma que os diálogos, aliados a dados de georreferenciamento e outras provas técnicas, demonstram que a ofensiva tinha como objetivo localizar e matar o vigilante Alex da Silva Barbosa, conhecido como Alex Samurai, e seus familiares.

Segundo o MPPE, os “relatórios técnicos elaborados a partir da análise de dados telefônicos e telemáticos” comprovaram intensa troca de mensagens entre os investigados e outros alvos da investigação. Para os promotores, os diálogos “deixam evidente que o intuito da ação desencadeada pelo grupo era efetivamente de matá-los”.

A denúncia foi oferecida contra os tenentes-coronéis Fábio Roberto Rufino da Silva, então comandante do 20º Batalhão da Polícia Militar, e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco, que ocupava o segundo posto de comando da Diretoria de Inteligência da PMPE, além dos policiais militares Romoaldo de Oliveira Guerra, Moisés Delfino de Souza, Thiago Dizeu de Souza, Geraldo Nascimento de Souza, Rodrigo Augusto Venâncio e Thiago Firmino Tavares. Os seis últimos são apontados como executores das mortes de Maria José Pereira da Silva e Maria Nathália Campelo do Nascimento, mãe e companheira de Alex Samurai.

“Missão de extermínio”

Na peça acusatória, o Ministério Público afirma que os assassinatos não foram fatos isolados e integraram uma ação coordenada desencadeada logo após a morte do soldado Eduardo Roque Barbosa de Santana e do cabo Rodolfo José da Silva, durante um confronto com Alex Samurai, no bairro de Tabatinga, em Camaragibe.

Segundo a denúncia, “dezenas de policiais militares, movidos por um inaceitável sentimento de vingança corporativista, iniciaram uma verdadeira caçada humana com o claro intuito de assassinar Alex e seus parentes”.

O documento acrescenta que “instaurou-se um cenário de terror no município de Camaragibe”, onde agentes públicos, utilizando veículos descaracterizados e, em muitos casos, mascarados com balaclavas, passaram a torturar civis para obter informações sobre o paradeiro do vigilante e de seus familiares.

Ainda conforme o MPPE, Marcos Túlio e Fábio Rufino “organizaram e comandaram a missão de extermínio aos familiares do suspeito Alex Samurai”.

A denúncia descreve que, antes da ofensiva, os policiais participaram de uma reunião nas proximidades da Faculdade de Odontologia de Pernambuco (FOP). No local, segundo o MPPE, houve compartilhamento de informações de inteligência e repasse de instruções aos executores.

Após o encontro, os militares seguiram em três veículos descaracterizados até a residência de Maria Nathália Campelo do Nascimento.

Para os promotores, os dois oficiais acompanharam toda a movimentação. “Em tempo real, os denunciados Marcos Túlio e Fábio Rufino acompanharam o arrebatamento e a execução das vítimas, estando estrategicamente posicionados no local onde a empreitada criminosa se desencadeou.”

O MPPE afirma ainda que Marcos Túlio recebeu a localização exata da residência de Maria Nathália minutos antes da invasão e deslocou-se para um ponto situado a menos de 20 metros do imóvel, permanecendo ao lado de Fábio Rufino enquanto as ações eram executadas, sem que ambos adotassem qualquer medida para impedir os crimes.

Na avaliação do Ministério Público, ainda que não tenha existido uma ordem expressa para matar as vítimas, a conduta dos oficiais permitiu a continuidade da operação.

“Na condição de comandantes das forças policiais lançadas em campo, Fábio Rufino e Marcos Túlio tinham a obrigação de impedir as ações ilegais perpetradas por seus comandados. (…) A passividade transformou-se em autorização para as bárbaras execuções sumárias.”

Sequestro e execução

De acordo com a denúncia, Maria Nathália foi retirada da própria residência mediante violência física, psicológica e grave ameaça. O documento afirma que ela foi puxada pelos cabelos, agredida e obrigada a informar o endereço da sogra, Maria José Pereira da Silva.

Na sequência, os policiais foram até a casa de Maria José, obrigaram a vítima a entrar em um dos veículos e seguiram em comboio até a Estrada da Usina Mussurepe, em Paudalho.

Segundo o MPPE, as duas mulheres foram executadas no local, “inclusive realizando disparos a queima-roupa, no rosto da vítima Maria Nathália e na cabeça da vítima MARIA JOSÉ”.

Além das mensagens de WhatsApp, a denúncia reproduz trechos de áudios atribuídos ao policial militar Ranulpho Cesare Silva de Andrade Lima. Em uma das gravações, ele relata ter deixado a área onde atuava para permitir a ação dos policiais que estavam à paisana.

“Eu tava lá no começo do serviço, a gente fez umas incursões e abordagens, só que assim não pega, não, pô. Aí a gente se saiu, deixa quem tá paisano trabalhar, né? Porque a gente não pode fazer nada, não, pô. Não faz nada, tá ligado? Não faz nada. Agora os cara a paisano dá ponta pé em porta de casa, entra, tortura gente, mata gente, pinta miséria e vai embora, meu irmão, e ninguém sabe quem foi, tá ligado?”

Em outro áudio, enviado na manhã seguinte, o policial afirma que já sabia das mortes de Maria Nathália e Maria José e diz ter recebido orientação para ignorar informações sobre a localização dos corpos.

“Eu largando, aí… lá em Aldeia, né, aí passou um cara e fez: ‘ô, irmão, encontraram duas mulheres ali na usina’. (…) Aí eu já sabia o que era (risos). Eu já sabia o que era, já, que os caras tinham feito a maldade de madrugada e tinha dito, né: ‘Oia, se disserem que apareceu o corpo de duas mulheres aí, tu ignora, vi? Só se mandarem ocorrência.’ Aí eu: beleza. Já sabia, já (risos).”

Segundo o MPPE, apesar de ter tomado conhecimento do crime, o policial não registrou ocorrência nem adotou as providências que lhe cabiam, retardando a atuação das forças de segurança e da Justiça.

A chacina

A denúncia afirma que o duplo homicídio de Maria Nathália e Maria José ocorreu paralelamente ao assassinato dos irmãos de Alex Samurai (Ágata Ayanne da Silva, Amerson Juliano da Silva e Apuynã Lucas da Silva), mortos na mesma madrugada.

Segundo o MPPE, os três procuravam a mãe, que já havia sido sequestrada pelos policiais, quando foram atraídos para uma emboscada. O órgão afirma ainda que, naquele episódio, também houve emprego de tortura contra familiares e terceiros para localizar as vítimas, o que reforça a tese de que a violência contra parentes de Alex fazia parte de uma mesma estratégia criminosa.

Ao oferecer a denúncia, o Ministério Público requereu que os oito policiais sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri. Também pediu a decretação da prisão preventiva dos acusados, alegando a “extrema gravidade concreta” dos fatos e a existência de indícios de ocultação de provas, como troca de celulares e desativação de dados. Subsidiariamente, solicitou o afastamento deles das funções policiais.

O MPPE ainda requer que os denunciados sejam condenados ao pagamento de indenização mínima de R$ 1 milhão por danos morais às famílias das vítimas, além de pensionamento aos dois núcleos familiares.

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