Mulher é indiciada por tentativa de homicídio em caso de envenenamento por mercúrio no Recife
Procedimento foi encaminhado ao Ministério Público após Polícia Civil concluir que suspeita agiu por ciúmes e reunir provas periciais ao longo da investigação
Publicado: 21/07/2026 às 18:43
Mercúrio foi colocado em garrafa por uma aluna do projeto social (Foto: Reprodução/Whatsapp)
A Polícia Civil de Pernambuco concluiu o inquérito que investigava o suposto envenenamento por mercúrio de uma artesã durante um curso de artesanato, no Recife, e indiciou a investigada por tentativa de homicídio qualificado por motivo torpe. O procedimento foi encaminhado ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) na segunda-feira (20), que agora analisará o conjunto de provas e decidirá se oferece denúncia à Justiça.
Segundo a investigação conduzida pela Delegacia da Boa Vista, a motivação do crime estaria relacionada a ciúmes. De acordo com o delegado José Custódio, responsável pelo caso, a polícia concluiu que a suspeita teria colocado mercúrio na garrafa de água da vítima por não aceitar a amizade entre o namorado dela e a artesã.
A conclusão do inquérito ocorreu após meses de diligências e da produção do conjunto de provas periciais. O delegado afirmou que a complexidade do caso exigiu uma investigação técnica.
“Foram várias perícias. Vários laudos médicos foram necessários para que a gente tivesse uma maior robustez no inquérito policial. Além disso, os legistas entenderam a necessidade de solicitar avaliações de outras especialidades médicas, como neurologia, reumatologia, pneumologia e clínica geral. Tudo isso foi sendo construído no decorrer da investigação”, afirmou.
Segundo ele, a Polícia Civil buscou reunir evidências científicas capazes de sustentar a conclusão do inquérito. Além dos depoimentos das partes envolvidas, foram produzidos laudos químicos, exames toxicológicos, perícia traumatológica e pareceres de especialistas de diferentes áreas médicas.
Filmagem deu início à apuração
As investigações tiveram como um dos principais pontos de partida um vídeo gravado pela própria vítima. Após perceber pequenas esferas metálicas na água que consumia e sentir como se estivesse “engolindo bolinhas”, ela decidiu deixar o celular filmando enquanto se ausentava da sala onde participava do curso.
As imagens registraram o momento em que uma mulher retira um sachê da roupa, despeja o conteúdo na garrafa da vítima e, em seguida, agita o recipiente.
Para o delegado José Custódio, embora o vídeo tenha sido relevante, a conclusão do inquérito não se baseou apenas nas imagens. “Devido à complexidade e à natureza da própria investigação, era necessário, além dos depoimentos e das filmagens gravadas pela própria vítima em seu celular, que flagraram a investigada colocando uma substância que identificamos como sendo mercúrio na garrafa de água da vítima, produzir essas provas e esses elementos de informação”, explicou.
Ainda no plantão policial, após o registro da ocorrência, foi determinada a realização da perícia química na substância encontrada na garrafa de água. Posteriormente, quando o inquérito passou a ser conduzido pelo delegado José Custódio, novas diligências foram determinadas para confirmar se a vítima havia sido contaminada.
“A investigação prosseguiu aguardando o resultado da perícia química, que identificou a presença de mercúrio. Solicitamos também o exame toxicológico para verificar uma possível contaminação da vítima. Foi identificada a presença de mercúrio no sangue e na urina, o que, segundo o médico legista, indica uma exposição recente ou sucessivas exposições”, disse.
O delegado acrescentou que também foram requisitados exame traumatológico e outras perícias para fortalecer o conjunto probatório.
Investigada negou participação
Durante o interrogatório, a investigada negou ter colocado qualquer substância na garrafa da vítima. Segundo o delegado, ela também não apresentou explicação sobre como o mercúrio teria chegado ao recipiente.
A defesa não informou à Polícia Civil a existência de eventual transtorno psiquiátrico da investigada nem apresentou documentos médicos nesse sentido.
“Nada foi apresentado pela defesa. Ela negou tudo e disse que não foi quem colocou qualquer substância na garrafa. Mas a filmagem é clara. Os fatos, por si sós, já demonstram que realmente ela colocou aquela substância, além das perícias e dos exames que comprovaram que a substância identificada era mercúrio”, declarou José Custódio.
Segundo o delegado, a negativa da investigada não comprometeu a conclusão da investigação, já que o inquérito foi sustentado principalmente por provas técnicas e periciais.
Ao concluir o procedimento, a Polícia Civil indiciou a suspeita por tentativa de homicídio qualificado por motivo torpe. Conforme explicou José Custódio, a qualificadora foi aplicada porque a investigação apontou que o suposto crime teria sido motivado pela relação de amizade entre a vítima e o namorado da investigada.
Com o encerramento do inquérito, o caso passa agora para análise do Ministério Público de Pernambuco. Caberá ao órgão avaliar as provas produzidas pela Polícia Civil e decidir se apresenta denúncia à Justiça para dar início à ação penal.
Procurada, a defesa da investigada informou que irá se pronunciar apenas em “momento oportuno.”