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Entre latidos e miados, 190 animais escrevem novos capítulos no Mundo do Marley

Na área rural de Olinda, ONG acolhe 160 cães e 30 gatos resgatados de abandono, maus-tratos e atropelamentos; A história do abrigo começou muito antes da formalização da instituição e nasceu da missão de dar uma segunda chance a animais que dificilmente teriam outro destino

Cadu Silva

Publicado: 22/07/2026 às 07:00

Animais que vivem na ONG Mundo do Marley/Divulgação/ONG

Animais que vivem na ONG Mundo do Marley (Divulgação/ONG)

Latidos e miados se misturam ao barulho de baldes d’água, mangueiras e vassouras logo nas primeiras horas da manhã. Antes mesmo de o sol ganhar força, a rotina já começou no Mundo do Marley, abrigo localizado na área rural de Olinda, na Região Metropolitana do Recife, que hoje acolhe cerca de 160 cães e 30 gatos resgatados de situações de abandono, maus-tratos, atropelamentos e outras formas de vulnerabilidade.

Entre baias, medicamentos, sacos de ração e cuidados que se repetem ao longo do dia, a história do espaço se entrelaça com a da fundadora, Rosângela Xavier, que transformou um trabalho iniciado de forma independente na ONG oficialmente registrada em 2021.

Embora a instituição exista formalmente há alguns anos, o trabalho de proteção animal começou bem antes. Há mais de uma década, Rosângela já recolhia animais nas ruas e buscava tratamento para eles. Depois de atuar por cerca de quatro anos em outra organização de proteção animal, decidiu criar o próprio projeto.

“Quando eu via um animal na rua em um estado muito deplorável, já pensava em resgatar. Eu sempre senti vontade de ajudar. O Mundo do Marley nasceu oficialmente há alguns anos, mas nosso trabalho com proteção, resgate e cuidado de animais abandonados já acontece há mais de dez anos.” contou.

O nome da ONG homenageia Marley, um cachorro resgatado por Rosângela que, após ser tratado e adotado, morreu atropelado depois de fugir da nova casa.

“O Marley foi um dos cães que mais marcou nossa história. Dar à instituição o nome dele foi a nossa forma de eternizar sua memória.”

Hoje, quase 190 animais vivem no abrigo. Muitos chegam vítimas de maus-tratos, abandono ou atropelamentos, enquanto outros são deixados na porta da instituição ou entregues pelos próprios tutores.

“Essa é uma realidade muito triste. Muitas pessoas escolhem ter um animal e, diante da primeira dificuldade, querem simplesmente se desfazer dele.”

A ONG reduziu os resgates porque atingiu o limite da capacidade física e financeira. Casos mais graves dependem da realização de campanhas para arrecadar recursos, já que consultas, exames, cirurgias e tratamentos são realizados na rede particular.

A rotina começa com a limpeza das baias, seguida da alimentação, higienização dos recipientes e acompanhamento dos animais que precisam de cuidados especiais, como cães paraplégicos e animais em tratamento contra doenças transmitidas por carrapatos.

“Muitas vezes, quando terminamos de limpar uma parte do abrigo, outra já precisa ser limpa novamente. Como cuidamos de quase 200 animais, a limpeza é um trabalho contínuo.”

Atualmente, o Mundo do Marley conta com dois funcionários e cerca de seis voluntários. Rosângela acompanha a rotina, mas, após um problema de saúde, deixou de realizar atividades braçais. Além da necessidade constante de doações, a ONG precisa melhorar a estrutura, com a construção de uma nova fossa, pisos adequados nas baias e um espaço para isolamento de animais doentes.

A busca por um novo lar

Depois de recuperados, os animais acolhidos pelo Mundo do Marley passam a fazer parte da rotina de adoção responsável desenvolvida pela ONG. Antes de entregar um cão ou gato a uma nova família, a equipe procura conhecer quem pretende adotar.

Os interessados passam por uma entrevista para que os voluntários entendam a rotina da casa, conversem sobre as responsabilidades de ter um animal e verifiquem se todos os moradores concordam com a adoção.

“A adoção é um compromisso de muitos anos. Nosso objetivo não é dificultar o processo, mas diminuir o risco de devolução ou de um novo abandono”, explica Rosângela.

O acompanhamento continua mesmo depois que o animal deixa o abrigo. A equipe mantém contato com as famílias para acompanhar o período de adaptação e verificar se o cão ou gato está recebendo os cuidados necessários. Os filhotes e os cães de pequeno porte costumam encontrar um lar com mais facilidade. Já os animais adultos enfrentam uma espera maior, embora, segundo a fundadora, tenham características que favorecem a convivência.

 

Contas que não param de chegar

Manter quase 200 animais exige uma estrutura que vai muito além do trabalho voluntário. O Mundo do Marley depende exclusivamente de doações e não possui uma fonte fixa de renda.

A alimentação representa uma das maiores despesas. O abrigo gasta mais de R$ 3,5 mil por mês apenas com ração. A esse valor somam-se os salários de dois funcionários, consultas veterinárias, exames, medicamentos, cirurgias, materiais de limpeza, energia elétrica, internet, fraldas descartáveis para os cães paraplégicos e transporte por aplicativo, já que a ONG não possui veículo próprio.

Rosângela explica que a prioridade sempre é garantir alimentação e atendimento aos animais. Por isso, melhorias na estrutura acabam ficando para depois.

“O maior desafio é o financeiro. Sem recursos, fica muito difícil garantir tudo o que esses animais precisam para viver com dignidade.”

Rede de apoio

Além das doações financeiras, a ONG recebe ajuda por meio de ração, medicamentos, materiais de limpeza, fraldas descartáveis e trabalho voluntário. Quem deseja participar pode entrar em contato com a equipe pelo perfil no Instagram @mundo.domarley.

Hoje, os voluntários atuam principalmente nos eventos de adoção e em campanhas solidárias, mas a intenção é ampliar essa rede de apoio.

O Mundo do Marley também desenvolve, em parceria com o Instituto Elo Animal, um programa voltado para aproximar empresas da causa animal. A proposta é incentivar doações mensais e parcerias permanentes que contribuam para a sustentabilidade do abrigo. As empresas participantes recebem um selo de reconhecimento pelo apoio ao projeto.

Para Rosângela, o envolvimento da sociedade é fundamental para que o trabalho continue.

“As pessoas não precisam ajudar apenas com dinheiro. Podem doar ração, medicamentos, material de limpeza, fraldas, podem conhecer o abrigo, ser voluntárias e compartilhar o nosso trabalho. Toda ajuda faz diferença.”

Depois de mais de dez anos dedicados ao resgate de animais, ela admite que o desânimo aparece diante das dificuldades.

“Pensar em desistir acontece quase todos os dias. A gente não vive só do amor pelos animais. Existe principalmente a questão financeira. Quando você vê que não consegue as coisas, bate o desânimo.”

Mesmo assim, a fundadora afirma que basta caminhar entre as baias para encontrar motivos para continuar.

“Basta olhar para cada um deles para lembrar por que seguimos em frente. Cada vida salva, cada animal recuperado e cada adoção renovam nossa esperança. O abrigo é apenas um refúgio temporário. Nosso maior sonho continua sendo que cada um deles encontre uma família responsável e definitiva.”

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