Orquestra Criança Cidadã: há 20 anos mudando realidades a partir da música
Projeto Orquestra Criança Cidadã já atendeu mais de mil crianças em 20 anos de atividade
Publicado: 20/07/2026 às 06:00
Orquestra Criança Cidadã (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
Cidadania e música podem andar lado a lado. É assim que o trabalho da Orquestra Criança Cidadã (OCC) tem se desenvolvido nos últimos 20 anos. Em um mundo marcado por violência, guerras e segregação, este é um daqueles exemplos que vêm na contramão para trazer esperança.
Ao todo, a OCC promove a inclusão social de 410 crianças e adolescentes a partir da música clássica. A inspiração para o início do projeto acabou, por ironia do destino, sendo promovida pelo Diario de Pernambuco, conta o idealizador da organização, o juiz João José Rocha Targino.
“Fui a um concerto no Diario de Pernambuco há 20 anos, porque eu já idealizava formar uma orquestra. Fui convidado para esse evento com alunos de um projeto social do Alto do Céu. Ao ver aquilo, eu soube que era exatamente o que eu queria fazer”.
Tudo teve início na comunidade do Coque, no bairro de Joana Bezerra, na área central do Recife. À época, era a localidade com menor Índice Desenvolvimento Humano (IDH) e, por isso, foi escolhida para receber a organização, segundo Targino.
O sucesso foi tanto que outros núcleos da OCC foram abertos no Grande Recife. Há 11 anos, jovens do distrito de Camela, em Ipojuca, também têm acesso ao projeto; há 8 anos, a comunidade Chã de Cruz, em Paudalho, na Mata Norte, também foi escolhida para ser uma das sedes.
“O objetivo primeiro do projeto é formar cidadãos. Nós entendemos que, na hora em que nós formamos um bom cidadão, ou seja, uma pessoa adornada em seu caráter, nós estamos verdadeiramente dando um contributo à pátria”, adiciona Targino.
Esse objetivo foi alcançado incontáveis vezes. Nestes 20 anos de trajetória, são inúmeros os reconhecimentos ao projeto, que levou não só o nome Recife ou dos alunos para o mundo, mas também a importância das ações sociais.
“Me sinto profundamente realizado por constatar não só a transformação nas vidas dos alunos atuais e dos egressos, mas também de suas famílias”, afirma Targino.
Histórias
Ao longo de duas décadas de trabalho, mais de mil jovens participaram da OCC, diz Targino. São várias as histórias de transformação, não só da vida de crianças, mas também de famílias. Uma dessas histórias é a de Luhan Lucena, trazida pelo Diario com exclusividade no início deste mês.
Luhan ingressou no projeto aos 4 anos e, hoje, aos 23, foi aprovado no mestrado em música na Universidade de Memphis, no estado americano do Tennessee. Ele relembra a importância da OCC na trajetória de vida.
“Tenho a lembrança de ver os alunos fardados indo para a orquestra. Aquilo me chamava atenção, e pedi à minha mãe para me colocar no projeto. Eu queria também vestir a roupa azul e carregar os instrumentos. Eu achava aquilo ‘massa’”, conta.
Para Luhan, o violino virou um fiel escudeiro que mudou a vida do jovem. Aos 18 anos,ele ganhou o mundo e embarcou para a Louisiana, para se graduar em Performance Musical. Hoje, o músico enaltece o trabalho promovido pela OCC.
“A orquestra faz um excelente trabalho. Existem muitos frutos, muitos meninos que estão pelo mundo afora, em destaque no cenário musical, que mudaram a perspectiva da vida deles, que deram uma vida melhor para a família deles por meio da música. Eu sou um exemplo disso”, comenta.
Dos 20 anos de existência da Orquestra, Luhan esteve presente em 18. São histórias que me misturam numa trajetória de crescimento, inclusão e aprendizado.
“Fazer parte disso é muito especial para mim. Ver o trabalho que eles realizam, mudando a vida de tantos jovens e crianças por meio da música, da educação, é um sentimento especial, porque é algo que acredito que é maior do que eu, é algo para a sociedade”, compartillha, emocionado.
“A orquestra matou minha fome”
Outro egresso da OCC é Isaías Tavares, de 33 anos. Natural da periferia do Recife, ele ingressou no projeto aos 13.
Ao ser perguntado sobre a grande lembrança que a orquestra deixou na vida dele, Isaíasdiz que, por muito tempo, o projeto não foi apenas uma atividade no contraturno escolar, mas sim um jeito de sobreviver.
“A primeira lembrança que tenho é das necessidades que eu passava na infância, e a Orquestra foi, por muitos anos, uma válvula de escape para eu ter uma boa alimentação. Eu e minha mãe passávamos muita necessidade, mas lá eu tinha café da manhã, almoço, janta e lanche. O projeto matou minha fome”, comenta.
Atualmente, Isaías trabalha na Orquestra Sinfônica de Goiânia, em Goiás. Tudo o que aprendeu na OCC o fez trilhar o caminho da música, uma verdadeira vocação.
“Na orquestra, eu realizei sonhos, obtive ferramentas que me fizeram realizar sonhos hoje aqui em Goiânia. Sou extremamente grato à orquestra, porque lá eu vivi sonhos de criança: ter um videogame, uma casa, me alimentar, poder brincar”, acrescenta.
Isaías destaca o poder de transformação do trabalho da Orquestra. “Ela resgata vidas, almas, e muda, transforma, aquelas crianças e jovens em grandes cidadãos de bem”.
O carinho pelo projeto é tão grande que Isaías pensa em poder participar da OCC como professor, ajudando a mudar a vida de crianças, como um dia ele foi.
“Quem sabe um dia eu não venha a trabalhar como professor da orquestra. É um sonho ver essa orquestra expandir e ter o reconhecimento que merece”, acrescenta.
Por fim, o músico destaca que sempre será parte da OCC. “A sensação é que eu fiz parte, ajudei de certa forma a Orquestra a chegar aos 20 anos, porque eu sou cria e eternamente cria da Orquestra”.
“Encantamento”
Antonino Tertuliano, de 33 anos, é outro egresso da OCC que conversou com o Diario. Participante da primeira turma do projeto no Coque, onde ele morava, ele conheceu o contrabaixo e não o largou mais. Ele descreve este encontro como uma “experiência que mudou o rumo da vida”.
“A primeira lembrança é de encantamento. Eu vinha de uma realidade muito distante da música de concerto e, de repente, me vi cercado por instrumentos que eu nunca tinha visto de perto. Lembro da sensação de entrar naquele ambiente e perceber que existia um universo inteiro que eu desconhecia”, afirma.
Antonino afirma que a OCC foi muito mais do que uma escola de música para ele, sendo um local de formação humana, que o fez enxergar outras perspectivas de vida.
“Aprendi disciplina, responsabilidade, convivência e perseverança. Compreendi que o talento, por si só, não basta: é preciso dedicação diária, humildade para aprender e coragem para enfrentar desafios”, explica.
Atualmente, Antonino mora na Alemanha, onde segue carreira como músico. Ao olhar para trás, ele diz que se sente grato e orgulhoso. Ele entrelaça sua história com a da OCC e celebra os 20 anos do projeto.
“Cada conquista que alcancei, dos estudos em Israel às apresentações e ao trabalho que hoje desenvolvo na Europa, carrega um pouco das sementes plantadas ali no núcleo do Coque”, destaca.
Antonino enfatiza também que a OCC é um espaço que quebra barreiras sociais, com um impacto que vai muito além da música.
O carinho pelo projeto é unânime entre os três rapazes. Para o futuro, eles dão respostas semelhantes: que a OCC continue crescendo, por muitos anos, alcançando ainda mais jovens e ampliando seu impacto social.