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Avanço de obras em áreas de mata preocupa ambientalistas e moradores de Serra Negra

Associações, moradores, pesquisadores e ativistas denunciam desmatamento, ocupação desordenada e ausência de planejamento urbano em distrito de Bezerros

Adelmo Lucena

Publicado: 06/07/2026 às 06:00

Serra Negra é um dos principais pontos turísticos do Agreste de Pernambuco devido ao clima e natureza/Foto: Sandy James/DP Foto

Serra Negra é um dos principais pontos turísticos do Agreste de Pernambuco devido ao clima e natureza (Foto: Sandy James/DP Foto)

O verde que cobre as encostas da Serra Negra, em Bezerros, no Agreste pernambucano, sempre foi o principal cartão-postal do distrito, bem como o clima ameno e trilhas. Mas, para antigos moradores e defensores do meio ambiente, a paisagem que tornou a Serra Negra um refúgio natural começa a dar lugar a empreendimentos imobiliários e perda da identidade ambiental.

A mobilização da Associação dos Filhos e Amigos de Bezerros (AFABE) lançou um Manifesto em Defesa da Serra Negra e iniciou um abaixo-assinado pedindo a adoção de medidas urgentes para conter os impactos ambientais provocados pelo crescimento urbano considerado desordenado.

O documento reúne uma série de reivindicações que vão desde a reativação do Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMMA) até a criação de áreas oficialmente protegidas, revisão do Plano Diretor, fortalecimento da fiscalização ambiental e elaboração de um modelo de desenvolvimento sustentável para o distrito.

Para quem acompanha as transformações da Serra Negra há anos, o receio é que o crescimento imobiliário, impulsionado pelo turismo e pela valorização das terras, provoque mudanças irreversíveis em um dos mais importantes brejos de altitude do estado.

Segundo o projeto “Recuperação e Conservação Ambiental em Serra Negra”, elaborado por ativistas ambientais, a região possui elevado valor ecológico por estar localizada em uma área de transição entre a Mata Atlântica e o Agreste, abrigando um brejo de altitude responsável pela conservação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos e manutenção do equilíbrio climático regional.

O documento alerta que o ecossistema já sofre impactos provocados pelo desmatamento, expansão imobiliária e exploração inadequada dos recursos naturais.

Brejo de altitude sob ameaça

Os brejos de altitude são considerados verdadeiras ilhas verdes em meio ao semiárido nordestino. O relevo elevado, temperaturas mais baixas e maior disponibilidade de água criam condições para o desenvolvimento de espécies da Mata Atlântica em pleno Agreste.

Essa característica faz da Serra Negra um importante refúgio para animais silvestres durante os períodos de estiagem, além de desempenhar papel essencial na conservação de nascentes e cursos d’água.

No entanto, de acordo com ambientalistas, a ocupação recente vem acontecendo sem planejamento ambiental capaz de garantir a preservação dessas características.

O próprio projeto de recuperação ambiental aponta que a urbanização desordenada compromete a qualidade dos recursos hídricos, aumenta os riscos de erosão, reduz a cobertura vegetal e ameaça a estabilidade do solo, defendendo uma recuperação baseada na restauração da biodiversidade, proteção das nascentes, controle da erosão, educação ambiental e participação comunitária.

Um dos articuladores do movimento em defesa da Serra Negra, o ativista social Natan Silva afirma que o objetivo é estabelecer regras para que o crescimento ocorra de forma sustentável. “Os seis eixos visam justamente preservar Serra Negra, para que os nativos da serrana não saiam para assim não vender suas terras para os novos empreendimentos.”

Segundo ele, a venda de propriedades por moradores tradicionais tornou-se frequente na última década. “Nos últimos 10 anos, os nativos estão vendendo suas terras, justamente para novos empreendimentos virem para a Serra Negra, causar desmatamento, muitas vezes sem um cronograma, sem um planejamento.”

Para o ativista, a ausência de atualização do Plano Diretor favorece esse cenário. “Por isso tem dois requerimentos aprovados na Câmara de Vereadores cobrando a gestão justamente por isso. O primeiro requerimento é cobrando o Plano Diretor, já que o atual não está atualizado. Por isso fica uma lacuna aberta para que os novos empreendimentos vão para lá, para a Serra Negra, sem um desenvolvimento organizado.”

Segundo Natan, além da perda da vegetação, as mudanças já alteram características da região. “Moradores nativos estão vendendo muitas terras baratas para novos empreendimentos. Aquele ar puro que a gente tinha na Serra Negra há 10 anos não é o que a gente tem hoje.”

Outra proposta defendida pelo movimento é transformar Serra Negra em um polo permanente de pesquisa científica.

Verticalização preocupa frequentadores

As mudanças também chamam a atenção de quem frequenta Serra Negra há muitos anos. A jornalista Laís Godoy afirma que a paisagem começou a ser alterada por empreendimentos que destoam das características tradicionais do distrito.

“As pessoas que estão mais preocupadas em preservar aquele ecossistema. A gente vem observando um crescimento da especulação imobiliária. Por exemplo, existe a construção de dois edifícios muito altos para o padrão de Serra Negra, que consistem em uma agressão ao meio ambiente e que foi autorizada a ser feita.”

Ela afirma que o avanço do mercado imobiliário também afeta diretamente moradores antigos. “A especulação imobiliária chega lá e fica pressionando aquele morador que mora lá há muito tempo para destruir as casas para construir condomínio.”

No manifesto divulgado pela AFABE, a entidade reconhece que Serra Negra tronou-se como um dos principais polos turísticos do interior de Pernambuco, recebendo investimentos públicos e privados em infraestrutura, hotelaria, eventos e empreendimentos imobiliários.

O problema, segundo a associação, é que esse crescimento não foi acompanhado por políticas públicas voltadas à preservação ambiental e ao ordenamento territorial.

O documento afirma que o aumento do custo de vida e da valorização imobiliária vem provocando o deslocamento gradual de famílias tradicionais, alterando o perfil social da comunidade. Entre os exemplos apontados estão a redução do número de crianças matriculadas na escola local e a ausência de transporte coletivo regular para atender os moradores.

A associação também relata que grandes eventos realizados na região vêm aumentando a pressão sobre a infraestrutura existente, provocando falta d’água, quedas de energia, crescimento na produção de resíduos sólidos, problemas relacionados ao saneamento, além de impactos provocados pela poluição sonora e luminosa sobre a fauna e a população residente.

Projeto propõe recuperação ambiental integrada

Como alternativa ao modelo atual de ocupação, ativistas elaboraram um plano de recuperação e conservação ambiental para Serra Negra.

O projeto propõe ações integradas voltadas à restauração de áreas degradadas, recuperação da biodiversidade, proteção dos recursos hídricos, estabilização do solo, valorização da paisagem, fortalecimento do turismo sustentável e educação ambiental.

Entre as medidas previstas estão o mapeamento das áreas degradadas, plantio de espécies nativas da Mata Atlântica, controle da erosão, recuperação de nascentes, monitoramento da fauna e da flora, implantação de sistemas agroflorestais e envolvimento direto da população local em todas as etapas do projeto.

Os idealizadores defendem que o trabalho seja desenvolvido durante um período de três a cinco anos, com monitoramento permanente dos resultados e ampla participação da sociedade civil.

Além do plano ambiental, o movimento conseguiu a aprovação de dois requerimentos na Câmara Municipal de Bezerros. Um deles solicita que a Prefeitura realize, em parceria com a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), o mapeamento geológico das áreas de risco para orientar futuras construções.

O outro pede a revisão do Plano Diretor, com foco na fiscalização da expansão imobiliária, das queimadas e do desmatamento em Serra Negra e em toda a zona rural do município. Para os defensores da iniciativa, atualizar a legislação urbanística é fundamental para impedir que o crescimento continue ocorrendo sem critérios ambientais claros.

Outra reivindicação é a reativação do Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMMA), criado há duas décadas, mas que, segundo a AFABE, permanece sem funcionamento efetivo, limitando a participação da sociedade nas decisões relacionadas às políticas ambientais do município.

O Diario de Pernambuco entrou em contato com a Prefeitura de Bezerros, mas não obteve retorno.

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