Quadrilhas juninas trazem "esperança de um novo dia" para mulheres trans
Histórias de acolhimento e transformação mostram como os grupos juninos têm sido espaços de apoio para mulheres trans em Pernambuco
Publicado: 24/06/2026 às 06:00
Sthephany Angel destaca que quadrilhas juninas salvam vidas de pessoas LGBts " (Foto: Arthur Fotografias/Divulgação)
Na quadrilha junina no Recife, durante os ensaios e ânsia das apresentações, mulheres trans encontraram acolhimento durante o processo de transição de gênero, algo que ainda falta fora do ‘arraial’. Para a brincante Sthephany Angel Freire, de 33 anos, a quadrilha deu “esperança de viver um novo dia”.
Ao descrever o período em que passou a se reconhecer como pessoa trans e se afirmar dentro dos grupos juninos em Pernambuco, ela conta que “as quadrilhas salvam vidas porque transmitem emoção e calor humano.”
No circuito junino do estado, que movimenta bairros e disputas tradicionais, histórias como a de Sthephany e da coreógrafa e estudante Nayna Valentin, de 37 anos, mostram como esses coletivos culturais também funcionam como redes de apoio e convivência para pessoas LGBTQIAPN+.
Em um ambiente coletivo, a permanência dessas artistas ajuda a reposicionar a quadrilha no espetáculo e na vida cotidiana. A importância destes espaços ganha ainda mais destaque uma vez que em junho celebra-se o Mês do Orgulho LGBTQIA+.
Sthephany começou na quadrilha em 2011, em um extinto grupo nordestina, no bairro de Areias, Zona Oeste do Recife. Ela já frequentava apresentações como espectadora quando foi convidada a participar como dançarina, ocupando o papel de dama antes mesmo da transição.
“Eu já gostava de ver quadrilha e, com tudo isso, fui convidada a dançar. Eu comecei a dançar como dama, antes da minha transição. E aí fui começando a ver e entender o mundo no qual eu tinha que fazer parte e, ao mesmo tempo, aos pouquinhos, foi aflorando o que realmente eu sou: a Sthephanie.”
Entre 2011 e 2015, ela relata um processo gradual de reconhecimento de si. A virada aconteceu em 2016, na Quadrilha Junina Matucada, quando iniciou efetivamente sua transição.
No relato de Sthephany, a permanência na quadrilha está ligada ao apoio emocional recebido nos ensaios e na convivência com outros integrantes.
“A quadrilha em si dá o conforto para a gente de que ali podemos ser quem quisermos. Não existe preconceito. Não existe o desprezo que a sociedade muitas vezes dá para as pessoas. Então, quando eu comecei a transição, a quadrilha foi muito importante, porque, enquanto eu tinha momentos de melancolia e ia para a quadrilha, lá eu era muito bem recebida, com abraços, acolhimento e esperança para viver um novo dia. A quadrilha foi alimentando mais essa força de lutar, de batalhar por isso”, afirma.
Para ela, a quadrilha é um lugar de acolhimento para a comunidade. “Eu acredito que a quadrilha em si ajuda a comunidade, fortalece a cultura e tira muita gente de momentos difíceis, como depressão, problemas familiares, coisas que nos afetam. Isso porque lá tem um momento para rir, brincar, dançar, se libertar”, destaca.
Lugar de descoberta identitária
A trajetória de Nayna Valentin ajuda a mostrar outro percurso dentro do mesmo universo. Hoje estudante de dança e coreógrafa, ela relata que a quadrilha faz parte de sua vida desde a infância, quando acompanhava apresentações no bairro onde morava.
“Minha ligação com a quadrilha vem desde quando eu era criança, quando eu tinha uns 9 anos de idade e eu e minha mãe íamos assistir a quadrilha que ficava na rua por trás da nossa casa. Eu passava as tardes do meu dia assistindo às quadrilhas, e aquilo sempre me encantou.”
O primeiro contato como brincante veio em 1998, na Quadrilha Olodum Mirim, em Paulista, hoje extinta. Ela chegou a ensaiar em uma quadrilha de competição, mas viu o sonho interrompido por dificuldades financeiras.
“Eu cheguei a ensaiar nessa quadrilha, que era uma quadrilha de competição. Mas meu pai me proibiu de dançar, por questões financeiras. Infelizmente, não consegui realizar essa vontade, esse sonho que eu tinha.”
Com o tempo, a dança seguiu presente na escola e em outras experiências culturais até o retorno às quadrilhas em 2005 e depois em 2007, na Quadrilha Junina Lumiar. “Com o passar do tempo, eu fui me envolvendo com dança nas escolas, com a dança popular, com as danças que eram trabalhadas na escola, e a dança também sempre foi meu sonho. Era o que me encantava, o que me fazia feliz”, conta.
Para Nayna, a quadrilha a ajudou a entender sua verdadeira identidade. “Dancei na Quadrilha Lumiar, quando eu tinha 20 anos, mas não havia transicionado ainda. Foi essa quadrilha que me fez enxergar muitas coisas que eu não queria aceitar em mim. E uma delas era esse meu lado feminino.”
Nayna relata que o processo de aceitação pessoal foi atravessado por dificuldades, mas que encontrou no ambiente das quadrilhas um espaço de convivência mais receptivo. “Para eu me aceitar como um homem gay foi difícil e para me aceitar como mulher trans foi mais difícil ainda”, relembra.
No entanto, o acolhimento não faltou. “A quadrilha junina é um espaço onde a comunidade LGBT é muito bem acolhida, essa comunidade é muito aceita e a gente não vê diferença dentro desse ambiente da quadrilha feminina. Comigo nunca houve nenhum estranhamento, nunca houve nenhum preconceito.”
Ela atua como coreógrafa de quadrilhas juninas há 17 anos e afirma que a atividade se tornou um dos pontos mais importantes em sua vida profissional. “A quadrilha agora é a minha vida. Eu posso dizer isso porque desde 2009 que eu exerço a função de coreógrafa de quadrilhas juninas. Então, são quase 20 anos atuando e hoje eu tenho vários prêmios aqui em Pernambuco e alguns fora do estado. É minha base financeira.”