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COPA DO MUNDO

Arena de Pernambuco: um gigante isolado com potencial travado

Estádio assentava o projeto da "Cidade da Copa", e, após 12 anos do Mundial de 2014, foi uma das únicas partes do plano que foi realizada

Nicolle Gomes

Publicado: 01/06/2026 às 06:00

Arena de Pernambuco fica em São Lourenço da Mata, no Grande Recife/Foto: Rafael Vieira/DP Foto

Arena de Pernambuco fica em São Lourenço da Mata, no Grande Recife (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)

A concretização do sonho de sediar uma Copa do Mundo. É isso que a Arena de Pernambuco significa. O estádio foi a âncora do projeto estadual para receber o maior evento esportivo do planeta. Quase 12 anos após o Mundial do Brasil, o estádio funciona diferentemente do que se esperava na concepção original.

Erguida do zero e inaugurada sob a promessa de modernidade, conforto e segurança, a Arena de Pernambuco tem capacidade de receber cerca de 45 mil pessoas e ocupa cerca de 40 hectares em uma área entre 240 e 270 hectares, situada na cidade de São Lourenço da Mata, no Grande Recife.

A Arena de Pernambuco assentou o projeto da “Cidade da Copa”, cujo orçamento inicial era bilionário e nunca saiu completamente do papel. O projeto original iria muito além das quatro linhas. No entanto, a realidade mostra que a única promessa efetivamente concretizada foi o próprio equipamento físico, que ainda convive com problemas crônicos.

“Elefante branco”

A ideia do então governo do estado era deixar um legado após o Mundial, o que não aconteceu. Hoje, mais de uma década depois da entrega, a Arena Pernambuco é, para muitos, um “elefante branco”: distante do Recife, sem utilidade justificada e que demanda altos custos de manutenção estadual.

Localizada no chamado “Polo Oeste”, o trajeto mais curto entre o Marco Zero, no Centro do Recife, e o equipamento é de 23 quilômetros, o que demandou um grande plano de incremento na mobilidade da Região Metropolitana da capital pernambucana para garantir o transporte de turistas e torcedores.

O Diario esteve onde seria a “Cidade da Copa”, cuja composição atual se dá pela Arena de Pernambuco, um pavilhão pavimentado, um ramal inacabado e vegetação.

A situação do estádio destoa do projeto de ampla usabilidade do equipamento. Em conversas com moradores da região, o Diario recebeu relatos de sensação de insegurança, agravada pela falta de iluminação e policiamento, especialmente à noite.

Percorrendo o Ramal da Arena, conjunto viário que liga a BR-408 à Avenida Belmino Correia, no Centro de Camaragibe, também no Grande Recife, o Diario encontrou obras que deveriam ter sido finalizadas ainda para a realização da Copa de 2014.

Além disso, algumas estruturas estão degradadas, conforme mostram registros feitos pela equipe de reportagem.

O que se vê hoje é o reflexo de um “isolamento planejado”. O torcedor pernambucano enfrenta uma verdadeira maratona logística para chegar ao estádio, marcada por trânsito caótico, vias de acesso sobrecarregadas e transporte público notoriamente insuficiente em dias de jogos.

No entorno, o cenário é marcado pela escuridão, sujeira e sensação de insegurança. Dentro da arena, placares eletrônicos permanecem quebrados, cadeiras nas arquibancadas acumulam avarias sem reposição e a conectividade móvel e de internet é praticamente nula, prejudicando tanto os torcedores quanto o trabalho da imprensa.

O desafio de trazer a Copa para Pernambuco

Fruto de um esforço político, a Arena de Pernambuco nasceu com o intuito de não deixar o estado ficar para trás na corrida da Copa do Mundo de 2014. É o que conta o ex-secretário extraordinário da Copa do Mundo (Secopa), Ricardo Leitão, entrevistado pelo Diario.

“A Fifa veio ao Brasil, optou por fazer uma Copa em várias regiões do país. Um país muito grande, não podia concentrar a Copa somente no Sudeste. Na concepção original, ficou estabelecido que três estados do Nordeste receberiam jogos da Copa do Mundo. Pernambuco, Bahia e Ceará”, inicia.

Leitão afirma que nenhum dos três estádios do Recife (Ilha do Retiro, Aflitos e Arruda) se adequou ao padrão exigido pela Fifa para participar de uma Copa do Mundo. As razões eram estruturais e geográficas, o que inviabilizava a reforma de um deles.

“A solução da Fifa foi a construção de um novo estádio, uma arena dentro dos padrões. O governo avaliou que dava para enfrentar esse desafio, uma decisão política do governador de fazer a copa. Depois de a Fifa indicar Pernambuco como sede, se o estado dissesse que não ia fazer, qual seria a explicação, sendo um estado com potencial econômico parecido com Salvador e Fortaleza, e superior a Natal?”, complementou.

A corrida contra o relógio e a conclusão do “essencial” para a Copa

Inicialmente pensada para sediar apenas a Copa do Mundo de 2014, a Arena Pernambuco acabou recebendo duas copas – sendo uma mundial e uma das confederações.

“O cronograma era finalizar a arena em dezembro de 2013, para ter 6 meses até a Copa para testar as coisas. Mas a FIFA lançou um desafio: quais cidades topavam receber a Copa das Confederações um ano antes da Copa do Mundo. Eu levei essa informação para Eduardo e ele disse que iríamos receber”, relembra.

O equipamento ficou pronto em maio de 2013, quase um mês antes da Copa das Confederações de 2013, que teve o primeiro jogo em Pernambuco em 16 de junho. No último dia 22 de maio, a inauguração oficial do estádio completou 12 anos – um amistoso entre o Náutico e o Sporting, de Portugal, que terminou em 1x1.

Em 2014, cinco jogos da Copa do Mundo aconteceram na Arena Pernambuco: Costa do Marfim 2 x 1 Japão; Itália 0 x 1 Costa Rica; Croácia 1 x 3 México; Estados Unidos 0 x 1 Alemanha; Costa Rica 1 (5) x (3) 1 Grécia.

Após a Copa, a principal utilidade do espaço era ser o mando de campo do Náutico. Em 2016, o estado de Pernambuco rompeu contrato com a Odebrecht e retomou a gestão da arena. De acordo com o projeto, a administração do estádio nos primeiros 35 anos seria de responsabilidade da empresa.

A relação entre a arena e o time alvirrubro durou até dezembro de 2018. Depois da separação, o estádio teve como principal finalidade sediar eventos de entretenimento e religião.

O Diario procurou a gestão da Arena de Pernambuco e solicitou dados relativos aos gastos estaduais com a manutenção do equipamento desde que o governo assumiu o estádio. Também foi solicitado o valor arrecadado com aluguel das dependências do espaço no mesmo período. A demanda não foi respondida até o fechamento desta edição.

“O que era essencial foi feito. Recebemos duas copas de um e vamos receber a terceira. Porque, se não tivesse a arena, Pernambuco não seria selecionado para receber a Copa Feminina. Um investimento só viabilizou três eventos”, defende Ricardo Leitão.

O ex-secretário argumenta, ainda, que a Arena é um patrimônio pernambucano. “Ela está lá pronta, é um patrimônio de Pernambuco. É o melhor estádio de futebol que Pernambuco tem, incomparavelmente. Vai ficar lá 100 anos se for bem conservada, como acredito que esteja sendo”, acrescenta.

O relacionamento com o Trio de Ferro

A trajetória da arena se mistura com as demandas do Trio de Ferro (Náutico, Sport e Santa Cruz), que historicamente enxerga o estádio mais como uma alternativa temporária do que como uma casa legítima.

O Náutico foi o primeiro a tentar fazer da arena o seu lar. Em 2011, o Timbu assinou um contrato de 30 anos com o consórcio administrador. No entanto, a distância física quebrou o elo com a torcida. Jogos esvaziados, arquibancadas frias e um silêncio incomum transformaram a arena em um "campo neutro" para os adversários.

Em 2018, após cinco anos de desgaste operacional e financeiro, o Náutico rompeu o acordo para retornar aos Aflitos. O caso foi parar nos tribunais, que condenaram a gestão da Arena ao pagamento de multas milionárias e indenizações pelos danos causados, além de custear parte das reformas necessárias para reativar o estádio alvirrubro.

Posteriormente, foi a vez do Sport adotar o estádio temporariamente como mandante durante os primeiros meses de 2024, em virtude das obras de modernização da Ilha do Retiro. Mesmo com bons públicos, a baixa identificação do clube, somada a problemas de mobilidade, reforçou o caráter frio e pouco envolvente do local.

Já o Santa Cruz sempre demonstrou enorme resistência em atuar no estádio, protegido pela mística e pela capacidade do Arruda. Porém, o severo processo de degradação estrutural sofrido pelo seu próprio estádio forçou o Tricolor a mandar jogos na Arena desde fim de 2025 até os dias atuais.

O clube mantém uma relação marcada por entraves com a administração da arena. Inclusive, não teve condições de realizar partidas, em razão da falta de datas previamente estabelecidas.

Nos últimos três anos, a Arena de Pernambuco consolidou-se como a principal casa do Retrô e ampliou sua utilização no futebol pernambucano. Além da equipe de Camaragibe, o estádio também passou a receber partidas de clubes do interior e da Região Metropolitana.

No Campeonato Pernambucano deste ano, metade dos participantes atuou no local em algum momento da competição: Retrô, Jaguar, Decisão, Vitória-PE e Santa Cruz utilizaram a arena como mando de campo.

Corrida contra o tempo: os olhos do mundo em 2027

A Arena de Pernambuco, que recebeu jogos da Copa do Mundo 2014 e da Copa das Confederações 2013, volta a ganhar protagonismo no cenário esportivo internacional. Mesmo após um histórico marcado por dificuldades operacionais e debates sobre viabilidade financeira, o estádio foi confirmado pela Fifa como uma das oito sedes oficiais da Copa do Mundo Feminina 2027, recolocando Pernambuco na rota dos grandes eventos do futebol mundial.

Recentemente, comitivas técnicas da Fifa e do Ministério do Esporte realizaram vistorias minuciosas no local. O comitê organizador deixou claro que o equipamento precisa de algumas transformações para atingir o "Padrão Fifa".

Para a Arena de Pernambuco, 2026 é o ano de encarar o abandono de frente. Resolver os problemas que afastam o torcedor local virou o único caminho possível para não deixar uma má impressão diante do mundo em 2027.

O que diz o governo do estado

Em nota, a Secretaria de Defesa Social (SDS-PE) informou que “a região do entorno da Arena de Pernambuco conta com policiamento permanente, incluindo uma viatura operando 24 horas por dia, além do efetivo do Pelotão Tático, responsável pela realização de rondas ostensivas diuturnas e ações preventivas voltadas ao reforço da segurança e à ampliação da presença policial na localidade”.

Sobre a situação de falta de iluminação, a equipe de reportagem procurou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SEDUH), e aguarda retorno.

Em relação à finalização dos ramais da arena, a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab) foi consultada. O Diario ainda não obteve resposta.

Por fim, a equipe de reportagem procurou a gestão da Arena de Pernambuco, a respeito das falhas técnicas abordadas e manutenção das dependências do equipamento.

 

 

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