Legado da Copa de 2014: um sonho que não passou de promessa
Mais de uma década após o mundial de 2014, alguns dos projetos prometidos para Pernambuco sequer saíram do papel. Entre eles, estão a "Cidade da Copa", em São Lourenço da Mata, e a navegabilidade do Rio Capibaribe
Publicado: 01/06/2026 às 06:00
Do projeto original da "Cidade da Copa", a Arena de Pernambuco foi um dos únicos pontos concretizados (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
Às vésperas da Copa do Mundo de 2026 e quase 12 anos após o mundial de 2014, sediado no Brasil, as promessas para o evento em Pernambuco ainda seguem no imaginário da população. No estado, as ideias da “Cidade da Copa”, navegabilidade do Rio Capibaribe e transporte por Veículo Leve Sobre Trilhos (VLTs) não saíram do papel ou foram concretizadas de forma parcial.
Lançado em 2009, o projeto para a chegada do Mundial de 2014 em território pernambucano tinha dois eixos: a chamada “Cidade da Copa” – um complexo que envolvia a construção da Arena de Pernambuco, com uma rede de urbanização ao redor do estádio, com casas, shopping e escolas, e o incremento no transporte de turistas e torcedores que viessem ao Recife. Tudo orçado, inicialmente, em mais de R$ 1,5 bilhão.
“O projeto não é apenas de uma arena de futebol. Envolve investimentos em habitação, transporte, segurança e geração de empregos”, escreveu o Diario de Pernambuco no dia 16 de janeiro de 2009, quando o governo do estado submeteu candidatura à FIFA para sediar o mundial.
A cidade perdida
A “Cidade da Copa” era o grande diferencial do projeto pernambucano e aspirava a ser um legado do mundial para o estado.
À época, estimava-se uma previsão total de investimentos bilionários, entre valores garantidos pelo empreendimento privado e pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) especial para a Copa do Mundo de 2014, do Governo Federal.
O valor estimado para a construção da Arena de Pernambuco era R$ 500 milhões, enquanto a construção da Cidade da Copa foi orçada em R$ 750 milhões. A previsão de gastos com hotéis e centros comerciais era de R$ 220 milhões. Para a duplicação da BR-408, a expectativa era de R$ 115 milhões de investimento.
Além disso, na construção da Estação de Metrô Cosme e Damião, esperavam-se R$ 4,8 milhões, e R$ 3,3 milhões para o Serviço Estrutural Integrado (SEI), rede de transporte público do Grande Recife, que conecta ônibus, metrô e BRTs.
“Uma cidade metropolitana. A proposta que o governo do estado defende para a Copa de 2014 prevê a construção de um bairro-cidade com nove mil habitações, hospital e centros comerciais”, detalhou o Diario sobre o projeto.
A cidade seria uma consequência da arena, que era a âncora do plano, e serviria para dar sustentabilidade ao investimento privado. A previsão de conclusão era para 2017, três anos após o mundial.
“Com essa estimativa de nove mil moradias e calculando uma média de quatro pessoas por moradia, teremos uma cidade com mais moradores do que muitos municípios do estado e onde haverá uma infraestrutura de hospital, centro de compras e transporte de qualidade”, prometeu o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no lançamento do projeto.
O sonho que nunca virou realidade
O Diario esteve na área onde era prevista a construção da “Cidade da Copa” – nos arredores da Arena de Pernambuco, uma das únicas partes do projeto que foi concretizada. Mais de uma década após o Mundial de 2014, a equipe de reportagem constatou a atual situação do local, que um dia foi repleto de expectativas.
O que deveria ser uma cidade, hoje é um espaço que abriga um estádio de futebol com algumas estruturas degradadas, sinalizações de perigo e um “labirinto” de vias ainda inacabadas. Na paisagem, predominantemente tomada por vegetação, um portão se destaca.
É a entrada da casa de Neide Alves, de 66 anos. Ela diz ser a última moradora dos entornos da Arena, sem nenhum vizinho que a tenha acompanhado na resistência de ficar no perímetro do estádio. Da casa dela, é possível ver o equipamento – cerca de 210 metros separam os dois locais.
“A Cidade da Copa é isso aqui”, diz ela ao apontar para o horizonte composto pela Arena de Pernambuco, um pavilhão pavimentado, ruas inacabadas e vegetação alta.
Há 30 anos ela mora em um ponto próximo ao que hoje é um dos acessos à arena. Ela conta ao Diario como chegou a notícia da construção da “Cidade da Copa”.
“Chegou uma equipe e disse que aqui ia construir uma arena. Então ia sair bastante gente daqui. Saíram indenizando; depois começou a construção. Tinha bastante casa. As pessoas criavam peixe; tinha também granja lá para dentro. Era um povoado bom para morar, tranquilo”, relembra.
Logo após o anúncio do projeto, em janeiro de 2009, o Diario esteve na comunidade que morava na região onde a Arena atualmente fica. À época, os moradores de Jardim Penedo de Baixo comemoraram a notícia da construção do estádio, mas também demonstraram medo.
Quando questionada sobre o que lembra das promessas trazidas aos residentes da região, Neide detalha a história tantas vezes contada por cidadãos e jornais.
“A engenheira esteve por aqui, ela disse que aqui ia ser um viaduto. Prometeram um habitacional, disseram que aqui seria a Cidade da Copa. Disseram que ia ter supermercado, shopping, escola, que o metrô ia chegar aqui também, tudo isso. Então, aqui é a Cidade da Copa, mas, no fim da Copa, só teve a Arena mesmo”, conta.
A expectativa ainda foi muito além. Neide diz que a ventilação da casa dela foi afetada com as obras e, por isso, recebeu a promessa de ser contemplada com um apartamento previsto no projeto.
“Fiquei de ganhar um apartamento aqui, porque eu morava embaixo e estava muito abafado. Meu marido construiu o andar de cima porque meu filho tem problema respiratório e ficou sufocado. A gente mesmo teve que resolver o problema. Porque, quando eu falei com o advogado, eles disseram que iam me dar, mas não aconteceu”, lamenta.
Como a única moradora que ficou nos arredores da arena, Neide relata as dificuldades de viver nesta região.
“Não limpam por aqui. Aqui perto, quem limpa é um conhecido meu. A gente que tem que estar abaixando os matos, porque não tem condições de ficar grande. Assaltaram também um rapaz de moto, porque é escuro. Bateram no rapaz, derrubaram ele e levaram a moto. Eu fico com medo, fecho minha casa logo cedo”, afirma.
Isolada, Neide conta que a locomoção é outro problema. “Quando tenho que socorrer meu filho, que é autista e obeso, tenho que arrumar um carro grande. Não passa ônibus, e não são todos os carros que aceitam vir até aqui”, afirma.
Para além de relembrar Neide todos os dias, sobre as promessas que nunca chegaram, a arena também serve, nos raros dias de jogos, como uma das poucas fontes de renda dela. Quando o isolamento dá lugar à movimentação, a moradora improvisa o quintal de casa em um pequeno estacionamento.
Neide diz que o dinheiro ajuda na compra dos medicamentos do filho autista, de 27 anos. O esquema é uma alternativa para quem foi esquecida no coração de uma maquete bilionária que nunca saiu do papel.
“Eu me sinto um pouco abandonada. Me sinto assim, porque preciso de apoio. E não é nem por mim, não penso em mim, eu penso no meu filho”, confessa Neide. “É muito diferente do que prometeram. Cadê a Cidade da Copa?”, se questiona, por fim.
Ao olhar para as promessas de 12 anos atrás, Neide sugere uma finalidade melhor para todos os investimentos feitos em tantas promessas que nunca aconteceram.
“Era melhor construir um hospital porque muita gente precisa; eu mesma preciso para levar meu filho”, emenda.
O Hospital Pelópidas Silveira também era uma promessa do projeto para promover atendimento de saúde na “Cidade da Copa”. A unidade foi inaugurada em 2011, no bairro do Curado, também na Zona Oeste do Recife, deslocada cerca de 14 quilômetros da área inicialmente prevista.
“A esperança é a última que morre”
O Diario também conversou com Maria do Céu, de 66 anos. Ela é chefe de uma das famílias que moravam na região da Arena de Pernambuco e foram desapropriadas.
Com o valor recebido pela desapropriação, ela e a família reergueram suas moradias e um restaurante a cerca de um quilômetro da arena, às margens da BR-408. Embora tenha conseguido se reestruturar financeiramente, ela compartilha da mesma frustração sobre o projeto da “Cidade da Copa”.
Maria lembra do entusiasmo geral em 2009, quando todos acreditavam na geração massiva de empregos, escolas e agências bancárias decorrentes da "Cidade da Copa".
“Infelizmente não saiu do papel. Há 12 anos está desse mesmo jeito. Não muda nada, só entregou a arena, é verdade. Do Estado, não teve progresso nenhum. Ficou por isso mesmo. É um elefante branco”, lamenta.
Antiga conhecida de Neide, Maria reconhece o peso do isolamento que a ex-vizinha enfrenta no perímetro do estádio. “Ali ela realmente deve se sentir abandonada”, pontua.
A prometida "Cidade da Copa" segue existindo apenas no imaginário e nos arquivos de jornal de 2009. Para as famílias que um dia lá habitaram, o verdadeiro legado do mundial não foi o complexo moderno prometido, mas sim a capacidade de seguir em frente.
“Tinha mais de 200 famílias. Quem soube aproveitar a oportunidade e investir, comprou uma casinha (com o dinheiro da desapropriação). Eu acho que foi bom para todo mundo”, acrescenta a comerciante.
Apesar das críticas ao projeto inacabado e à histórica falta de acessibilidade para se chegar ao local, Maria adota uma postura otimista sobre o futuro da região. “O que nos resta é trabalhar e esperar o que acontece. A esperança é a última que morre”, finaliza.
No território da Cidade da Copa, atualmente há placas do governo do estado que confirmam intervenções no local. São duas: a finalização do ramal da arena e a construção da Academia Integrada de Defesa Social (Acides). Estas obras podem sinalizar que finalmente o espaço pode ter utilidade.
Por que não foi para frente?
A “Cidade da Copa” era um projeto ambicioso, fruto de uma estratégia de expansão urbana para a Zona Oeste do Recife. É o que explica o ex-secretário extraordinário da Copa do Mundo de 2014, Ricardo Leitão, sobre a escolha da localização do plano.
“A opção urbanística foi construir a arena no “Polo Oeste”. Era uma área normal de expansão metropolitana, onde já está a Universidade Federal de Pernambuco, onde começava a ter outros investimentos, outras vantagens. O estado tinha terrenos disponíveis lá”, diz.
O bairro-cidade seria montado por investidores privados. O empreendimento estava previsto em esquema de PPP (parceria público-privada) entre o governo pernambucano e o consórcio formado pela construtora Odebrecht e pela Odebrecht Participações e Investimentos. A empresa seria responsável pelo loteamento do bairro e comercialização dos terrenos e imóveis.
“A execução, a efetivação e a implantação do plano não andaram por conta do escândalo da Lava Jato, que envolveu as construtoras. Mas o plano de ocupar a Cidade da Copa existe. A infraestrutura que foi montada existe”, argumenta Leitão.
Além disso, ele diz que ainda acredita no potencial da região e afirma que, se pudesse, teria investido mais na viabilização do projeto.
“Se pudesse refazer, do ponto de vista do projeto da Copa, seria viabilizar a Cidade da Copa, que reforça todo esse projeto de puxar o Recife para a Região Oeste. Isso seria o mais importante nessa perspectiva, que devagarzinho está se consolidando”, Ricardo Leitão.
O que diz o governo do estado
O Diario procurou a Secretaria de Defesa Social (SDS-PE) para obter respostas sobre as alegações de insegurança na região da Arena de Pernambuco.
Em nota, a pasta informou que “a região do entorno da Arena de Pernambuco conta com policiamento permanente, incluindo uma viatura operando 24 horas por dia, além do efetivo do Pelotão Tático, responsável pela realização de rondas ostensivas diuturnas e ações preventivas voltadas ao reforço da segurança e à ampliação da presença policial na localidade”.
A respeito dos relatos de falta de iluminação, a equipe de reportagem procurou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SEDUH) e aguarda retorno.
Em relação à finalização dos ramais da arena, a Companhia Estadual de Habitação e Obras (Cehab) foi consultada. O Diario ainda não obteve resposta.