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Navio de guerra naufragado em Noronha ganha fotos panorâmicas inéditas

Fotografia panorâmica inédita revela pela primeira vez a dimensão completa do navio de guerra afundado há mais de 40 anos em Fernando de Noronha

Adelmo Lucena

Publicado: 01/06/2026 às 06:00

Corveta Ipiranga (V-17) está a 62 metros de profundidade/Foto: Fabi Fregonesi e Raphael Gatti/Divulgação

Corveta Ipiranga (V-17) está a 62 metros de profundidade (Foto: Fabi Fregonesi e Raphael Gatti/Divulgação)

Localizado a 62 metros de profundidade, o Corveta Ipiranga (V-17), navio de guerra naufragado desde 1983, permanece preservado no fundo do mar como um dos pontos de mergulho mais conhecidos e desafiadores do Brasil. Agora, pela primeira vez, a embarcação foi registrada em uma fotografia panorâmica inédita que revela a dimensão completa do naufrágio.

A imagem foi produzida pelos fotógrafos subaquáticos Fabi Fregonesi e Raphael Gatti durante uma expedição do projeto “Panorâmicas de Noronha”, iniciativa independente que pretende documentar 16 pontos de mergulho do arquipélago por meio de fotografias panorâmicas subaquáticas.

O resultado reúne uma sequência de imagens integradas digitalmente para formar um grande mural do navio submerso. Segundo os autores, o objetivo era superar uma limitação comum dos registros já existentes da Corveta: mostrar apenas fragmentos isolados da embarcação.

“Apesar de ser explorada por mergulhadores experientes há décadas, a embarcação costuma aparecer em registros fragmentados: detalhes do casco, da proa, da popa ou ângulos isolados. Mesmo nas imagens mais conhecidas, nossa sensação era de que ainda havia espaço para revelar a verdadeira dimensão do naufrágio. Mais do que precisar de uma foto diferente, a Corveta merecia uma foto diferente e que fizesse jus à sua grandiosidade”, afirmam os fotógrafos.

A Corveta Ipiranga afundou após colidir com o Cabeço da Sapata, formação rochosa submersa localizada em Fernando de Noronha. Com o passar dos anos, o local se transformou em um dos cenários mais emblemáticos do mergulho técnico no país, atraindo mergulhadores experientes interessados tanto na estrutura militar preservada quanto na biodiversidade marinha que ocupa a embarcação.

Segundo Fabi e Raphael, a decisão de incluir a Corveta no projeto surgiu à medida que os mergulhos avançavam e a técnica panorâmica começou a demonstrar potencial para revelar cenários submarinos em uma escala incomum para a fotografia subaquática.

Pouco tempo para fazer registros

Produzir a imagem exigiu um mergulho técnico complexo, uma vez que a profundidade de aproximadamente 62 metros impôs restrições severas de tempo e segurança. Segundo os fotógrafos, eles tiveram entre 15 e 17 minutos para executar toda a sequência de imagens necessária para compor a panorâmica.

Nessa profundidade, qualquer erro pode comprometer tanto a segurança dos mergulhadores quanto o próprio resultado do trabalho. Todo o mergulho precisou ser planejado previamente, desde o posicionamento da equipe até os movimentos exatos feitos diante da embarcação.

“É uma sensação difícil de traduzir em palavras. Existe um misto de reverência, concentração extrema e consciência de estar diante de um privilégio raro: visitar uma parte tão preservada da história da Marinha brasileira. A 62 metros de profundidade, não existe espaço para improviso. O registro da Corveta foi, sem dúvida, o maior desafio técnico de todo o projeto”, afirmam.

A dupla explica que, em mergulhos tão profundos, o tempo passa a comandar a execução da fotografia e a segurança. “Conforme começamos a descer e a silhueta do navio surge lentamente no azul profundo, a percepção muda completamente. O silêncio parece mais denso, a dimensão da embarcação impressiona e o coração acelera. Quando ficamos frente a frente com um navio daquele porte no fundo do oceano, inevitavelmente surge uma sensação de pequenez”, descrevem.

Os fotógrafos contam ainda que o foco necessário para executar o trabalho praticamente eliminou qualquer possibilidade de contemplação durante o mergulho.

“A profundidade altera a própria relação com o tempo. Os minutos parecem segundos. Ficamos tão focados na execução da fotografia que quase não houve espaço para contemplação. Talvez por isso tenha ficado uma vontade muito forte de voltar, não apenas para fotografar novamente, mas para absorver com calma detalhes que acabaram passando despercebidos durante a missão”, relatam.

Técnica panorâmica busca revelar escala do oceano

Segundo os autores, a fotografia panorâmica foi escolhida por permitir uma percepção mais ampla dos cenários submersos. Embaixo d’água, a perda de nitidez causada pela distância entre câmera e objeto costuma limitar a dimensão visual dos registros convencionais.

A solução encontrada foi aproximar a câmera do navio em diferentes tomadas para depois unir as imagens digitalmente, formando uma única composição de alta resolução. Outro recurso utilizado foi inserir mergulhadores em alguns pontos da fotografia para servir como referência de escala e permitir ao observador compreender o tamanho real da embarcação.

O momento de maior tensão, no entanto, veio depois do mergulho. Segundo os fotógrafos, por causa da profundidade e do tempo reduzido, não foi possível revisar cuidadosamente as imagens ainda debaixo d’água. A confirmação de que o material havia funcionado só ocorreu horas depois, diante do computador.

“O que mais nos surpreendeu foi o nível de detalhe alcançado e a sensação de proximidade com a embarcação na composição final. Mesmo conhecendo muitos registros da Corveta, percebemos que a panorâmica conseguia revelar uma perspectiva muito mais ampla e imersiva do naufrágio”, afirmam.

“Junto com a surpresa veio também um enorme alívio. Até o momento do processamento das imagens no computador, não tínhamos certeza de que o resultado havia funcionado da forma que queríamos. Diferente de outros mergulhos, não havia tempo suficiente para revisar tudo ainda debaixo d’água, e isso aumentava a tensão porque sabíamos que aquela seria nossa única oportunidade de executar a foto durante a expedição”, completam.

Fotografia como ferramenta de preservação

Além da proposta artística e documental, o projeto também possui um componente ambiental. Segundo os fotógrafos, um dos objetivos é aproximar o público de ecossistemas submarinos que permanecem inacessíveis para a maioria das pessoas.

“A maior parte das pessoas não tem a oportunidade de mergulhar a 62 metros de profundidade para conhecer a Corveta Ipiranga ou visitar outros lugares em Noronha, como Cabeço da Sapata e Pedras Secas. Levar essas imagens para fora da água é uma forma de aproximar o público de um universo que, para muitos, permaneceria invisível”, explicam.

A dupla afirma que a fotografia subaquática pode funcionar como instrumento de conscientização ambiental justamente por transformar paisagens desconhecidas em experiências visuais acessíveis.

“Acreditamos que as pessoas protegem aquilo que conhecem. Quando a beleza e a escala desse ambiente chegam de forma palpável, as pessoas se conectam, entendem, criam empatia. Essa conexão é fundamental, ainda mais em um momento em que os oceanos enfrentam pressões cada vez maiores causadas pela ação humana”, afirmam.

Segundo eles, a linguagem panorâmica frisa essa proposta porque devolve ao observador a verdadeira dimensão dos cenários submarinos e amplia a percepção sobre a grandiosidade e a fragilidade desses ecossistemas.

Para os fotógrafos, registrar o arquipélago também representa uma forma de fortalecer o debate sobre a conservação marinha. “Além da relação afetiva que temos com a ilha, sabíamos que retratar um Patrimônio Mundial da UNESCO e um Hope Spot internacional ajudaria a ampliar o interesse pela preservação do arquipélago. Quanto mais pessoas se conectarem com esse universo, maior será o desejo coletivo de proteger o oceano”, afirmam.

Além da Corveta Ipiranga, o “Panorâmicas de Noronha” também registrou outros pontos de mergulho conhecidos do arquipélago, como Pedras Secas I e II, Cabeço da Sapata e Trinta Réis. Segundo os fotógrafos, o material produzido deverá ser transformado em exposição, livro e futuramente em um documentário sobre os bastidores da expedição.

“A exposição física é um dos caminhos mais naturais do projeto. A técnica panorâmica permite ampliações em grande formato com altíssimo nível de detalhe, criando uma experiência visual bastante imersiva. O livro surge como uma oportunidade de aprofundar a narrativa e explorar recortes mais íntimos da expedição”, explicam.

“Saímos de Fernando de Noronha com a sensação de que esse projeto representa apenas o começo. Ainda existe muito a ser revelado debaixo d’água, e queremos continuar contando essas histórias em diferentes formatos”, concluem.

Fabi Fregonesi se tornou recentemente a primeira brasileira premiada no concurso internacional Underwater Photographer of the Year, na categoria naufrágio. Já Raphael Gatti atua há mais de 15 anos com fotografia subaquática e mergulho técnico.

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