Sem ar-condicionado, primeiro trem usado chega para reforçar frota do Metrô do Recife
Trens de Belo Horizonte vão reforçar frota envelhecida do Metrô do Recife
Publicado: 20/05/2026 às 17:16
Primeiro trem vindo de BH deve começar operação no Recife dentro de 30 dias (Foto: Marina Torres/DP Foto)
O primeiro trem usado adquirido pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) junto ao sistema metroviário de Belo Horizonte chegou ao Recife nesta quarta-feira (20) como parte de uma estratégia emergencial para evitar o colapso operacional da Linha Sul do metrô. A composição, que tem 24 anos de uso, não possui ar-condicionado e deve entrar em operação em até 30 dias, após passar pelas etapas de montagem, testes e treinamento das equipes. A composição teve um custo de R$ 10 milhões.
Os dois primeiros vagões chegaram ao estado nesta terça, enquanto os outros dois devem desembarcar na quinta-feira (21). O trem foi transportado até o Posto Pichilau, na BR-232, em Jaboatão dos Guararapes, de onde seguirá em operação logística até o sistema metroviário.
A aquisição dos seis trens usados foi viabilizada por meio de um Termo de Execução Descentralizada (TED), instrumento utilizado pela administração pública federal para permitir o repasse de créditos orçamentários entre órgãos e entidades da União. O acordo foi firmado junto ao Ministério das Cidades.
Segundo a superintendente da CBTU em Pernambuco, Marcela Campos, a chegada da composição representa a concretização de um plano construído desde o fim de 2025 para evitar uma paralisação da Linha Sul diante do envelhecimento da frota atual.
“A gente, com a chegada desse primeiro trem, está concretizando o que vem sendo trabalhado desde o fim do ano passado, quando surgiu essa estratégia para evitar um colapso na Linha Sul, onde hoje existe uma defasagem de material rodante. Então, estamos muito felizes em concretizar isso com a chegada desse primeiro trem”, afirmou.
Ela explicou que os trens chegaram praticamente prontos para operar, faltando apenas a fase de comissionamento. “A expectativa é que ele entre em operação nos próximos 30 dias, porque todos os trens chegaram revisados, adesivados e praticamente prontos para operar. Falta apenas a etapa de comissionamento, que envolve a remontagem, a colocação dos truques e o treinamento dos operadores. Então, a estimativa é que, em cerca de 30 dias, eles já estejam circulando na Linha Sul”, detalhou.
De acordo com o gerente-geral da Coordenação de Programas da CBTU, Adalberto Siqueira, estudos técnicos apontaram que a operação da Linha Sul poderia entrar em colapso já em 2027 caso nenhuma medida emergencial fosse adotada.
“Quando a gente fala em colapso da Linha Sul, é porque o nosso estudo demonstrou, pela degradação da frota, que, se a gente não trouxesse trens até abril de 2027, não haveria condições de operar a Linha Sul. Quem acompanha a ferrovia sabe que, depois que uma linha para, é muito difícil voltar a operar. Daí, essa comissão levantou quatro hipóteses de trens que poderiam vir para o Recife, priorizando sempre aqueles que atendessem aos critérios de confiabilidade, conforto e vida útil”, explicou.
A CBTU chegou a avaliar composições da Motiva, em São Paulo, e da CPTM, mas as propostas foram descartadas por inviabilidade operacional ou necessidade de reformas demoradas e caras. Também houve negociação com a Trensurb, no Rio Grande do Sul, mas a companhia concluiu que os veículos exigiriam revisões extensas.
“Na última tratativa, a Trensurb nos ofertou cinco trens: um revisado e operacional, e quatro que precisariam passar por revisão. E essa revisão custaria caro e levaria mais de três anos. Então, para a gente, não atendia”, afirmou Adalberto.
Trem tem 24 anos e vai substituir frota de 40
Os trens escolhidos vieram do sistema metroviário de Belo Horizonte, que passa por renovação da frota. Segundo a CBTU, as composições adquiridas estão entre as mais novas disponíveis no sistema mineiro.
“Os trens que estamos trazendo são os mais novos da frota deles. Este trem aqui é de 2002. Então, é um trem com 24 anos, uma realidade muito diferente dos trens que hoje operam na Linha Sul, que têm 40 anos. Em termos de vida útil, já existe um ganho muito significativo”, destacou Adalberto Siqueira.
Apesar das críticas sobre a ausência de ar-condicionado, a CBTU afirma que os novos veículos apresentam melhores condições operacionais e maior confiabilidade.
“Na parte técnica dos trens que operam na Linha Sul, a principal diferença é que eles não têm conversor, e sim alternador, que é uma tecnologia utilizada por nós há mais de 20 anos. Mas esse motor alternador, apesar de ser um equipamento que já não está mais em fabricação, ainda pode ser utilizado. E, como eles estão desmobilizando a frota de lá, nós tivemos condições de reforçar nosso estoque de peças e garantir maior segurança operacional para esses trens”, explicou.
Segundo a companhia, os trens passaram por revisão completa antes da transferência para Pernambuco. “Nesses trens, nós tivemos o cuidado de incluir, na aquisição, uma revisão completa. Eles passaram por uma revisão de 600 mil quilômetros, ou seja, são trens que podem rodar tranquilamente por mais cinco anos”, acrescentou o gerente da CBTU.
A previsão da CBTU é que outras cinco composições sejam entregues até setembro. O cronograma prevê a chegada de mais um trem em junho, outro em julho, um em agosto e dois em setembro.
A CBTU ainda negocia a ampliação do acordo com Belo Horizonte para receber mais cinco composições, totalizando 11 trens transferidos para o Recife.
“Reabrimos as negociações com o Metrô BH para que, de fato, 11 trens que hoje operam em Belo Horizonte possam ser disponibilizados. Com a renovação da frota deles, esses trens começarão a ser colocados à disposição da CBTU”, disse a superintendente, Marcela Campos.
Atualmente, o Metrô do Recife opera com apenas 17 trens em circulação. O número representa uma redução de 48% em relação a 2015, quando o sistema contava com 40 composições operando na rede metroviária.
"O sistema está precisando de investimentos em todos os pontos: na rede aérea, na via permanente, no centro de manutenção, na administração. O metrô precisa de investimentos em toda a sua estrutura. Temos mostrado continuamente a degradação do sistema e a necessidade de investimentos. Nunca deixamos de levar aos nossos superiores as informações sobre a situação e as demandas do Metrô do Recife", afirmou o diretor-presidente da CBTU, José Marques.