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Desabamento

"Não tenho para onde ir": moradores do Pilar, no Bairro do Recife, se recusam a deixar casas interditadas

Comunidade do Pilar, no Bairro do Recife, tem 17 imóveis interditados após desabamento de casarão deixar duas pessoas mortas, na noite da última segunda-feira (6)

Marília Parente

Publicado: 07/04/2026 às 19:37

Dezessete imóveis na comunidade do Pilar foram interditados/Marina Torres/DP Foto

Dezessete imóveis na comunidade do Pilar foram interditados (Marina Torres/DP Foto)

Durante boa parte de sua vida, o armador de ferragens Joselino Borges Miguel trabalhou para grandes construtoras do Recife. Os muitos anos nos canteiros de obra lhe renderam um excedente de R$ 5 mil reais, com os quais ele decidiu, há oito anos, comprar uma pequena casa na Rua do Ocidente, na comunidade do Pilar, bem ao lado do casarão que desabou na última segunda-feira (6), deixando dois vizinhos mortos.

Agora, Joselino é dono de um dos 17 imóveis interditados pela prefeitura após o incidente, e se recusa a deixar sua casa, onde mora com três gatos e dois canários.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, apenas sete das vinte pessoas que vivem nos imóveis interditados aceitaram deixar suas casas. Quem topou sair, vai passar a noite perto de casa, em um abrigo improvisado pela prefeitura na Creche Escola do Pilar.

“Eu não vou deixar meus bichos sozinhos aqui. São meus filhos”, afirma.

Há cinco meses, ele perdeu parte dos movimentos do lado direito do corpo, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Desde então, ele vive com a ajuda de doações da comunidade, da paróquia local e dos filhos.

Apesar disso, nesta terça-feira (7), sua família lhe disse que não tinha condições financeiras de retirá-lo da casa interditada. Os parentes mais próximos moram em Camaragibe e São Lourenço da Mata, no Grande Recife. “Não confio em colocar minhas coisas num depósito da prefeitura, tenho medo de outras pessoas roubarem. E não tenho para onde ir”, acrescenta.

Há 33 anos na comunidade do Pilar, Marinalva Lima também disse não quando as equipes da prefeitura a convidaram a deixar sua casa, cercada pela fita amarela de interdição. Do lado de casa, ela mantém um pequeno comércio, de onde tira a maior parte de sua renda.

“A prefeitura me ofereceu R$ 45 mil para sair, mas não dá pra comprar outra casa com esse dinheiro. Também já invadiram minha casa pra roubar, tenho medo de levarem minhas coisas”, pontua.

Inseparáveis

Cláudia e Guerreira: companheiras inseparáveis - Marina Torres/DP Foto
Cláudia e Guerreira: companheiras inseparáveis (crédito: Marina Torres/DP Foto)

Vizinha de Joselino, Cláudia Beatriz da Silva aceitou passar a noite no abrigo improvisado no local. Ela pontua que isso só aconteceu porque obteve a autorização das assistentes sociais para levar Guerreira, cadela com quem vive há 11 anos.

Ela resgatou o animal aos três meses de idade, após presenciar uma série de maus tratos praticados pelos antigos tutores. De acordo com Cláudia, antes do resgate, Guerreira era alimentada com fezes e urina, desenvolvendo um quadro grave causado por vermes. O nome do animal veio de sua impressionante recuperação após receber a medicação adequada.

“Provavelmente, não vamos mais poder voltar para casa. Os abrigos da prefeitura não aceitam cachorro. Se eu não puder levar Guerreira, volto pra casa e morremos eu e ela”, lamenta.

Desempregada, Cláudia sobrevive com ajuda de doações e de pequenos bicos de limpeza em imóveis da região. Ela não tem parentes que possam recebê-la.

“Guerreira é minha família. Ela foi quem ficou comigo na pandemia, quando fiquei muito doente, com Covid. Eu não me separo dela de jeito nenhum”, comove-se.

 

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