Justiça nega prisão domiciliar a líder dos "Canibais de Garanhuns"
Mesmo com cegueira irreversível, detento seguirá no sistema prisional após avaliação médica e parecer contrário do Ministério Público
Publicado: 23/03/2026 às 22:13
Canibais de Garanhuns (Foto: Annaclarice Almeida/DP/D.A Press)
A Justiça de Pernambuco negou o pedido de prisão domiciliar para Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, de 64 anos, um dos condenados no caso conhecido como “Canibais de Garanhuns”. A decisão foi proferida nesta segunda-feira (23) pelo juiz Evandro de Melo Cabral, da Vara de Execução Penal da Capital.
O magistrado entendeu que não há fundamentos para a concessão do benefício, mesmo diante do quadro de saúde do detento, que apresenta cegueira bilateral irreversível decorrente de glaucoma e histórico de acompanhamento psiquiátrico.
De acordo com informações do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), um relatório técnico da equipe de saúde do Presídio Policial Penal Leonardo Lago, no Complexo do Curado, apontou que ele recebe assistência integral dentro da unidade, incluindo atendimento médico regular, suporte psicológico e psiquiátrico, uso contínuo de medicação e encaminhamento ao Sistema Único de Saúde (SUS), quando necessário.
Com base nesse parecer e na manifestação contrária do Ministério Público, a Justiça concluiu que não há justificativa para a concessão de prisão domiciliar por razões humanitárias. A decisão também determina que a unidade prisional mantenha o acompanhamento multiprofissional, com possibilidade de reavaliação caso haja agravamento do estado de saúde.
Os canibais de Garanhuns
Jorge Beltrão ganhou notoriedade nacional em 2012, quando foi preso ao lado de Isabel Cristina Pires e Bruna Cristina Oliveira, no município de Garanhuns, no Agreste. O trio confessou uma série de assassinatos de mulheres atraídas com falsas promessas de emprego. As vítimas, em situação de vulnerabilidade, eram levadas para residências utilizadas pelo grupo, onde eram mortas e esquartejadas.
Parte dos corpos das vítimas era consumida pelos próprios criminosos e, segundo depoimentos, chegou a ser utilizada na produção de salgados vendidos na região. Restos mortais também foram encontrados enterrados em quintais e escondidos em imóveis ligados ao grupo, em cidades como Garanhuns e Olinda.
A polícia conseguiu confirmar ao menos três assassinatos, incluindo o de Jéssica Camila da Silva Pereira, Alexandra Falcão da Silva e Giselly Helena. No caso de Jéssica, que tinha 17 anos, a jovem foi atraída com promessa de trabalho doméstico e desapareceu em 2008. Somente anos depois, com a prisão do trio, exames de DNA confirmaram que restos mortais encontrados estavam ligados à vítima.
Durante as investigações, os acusados afirmaram integrar uma suposta seita chamada “Cartel”, que pregava a eliminação de mulheres consideradas incapazes de criar os próprios filhos. Apesar dessa alegação, o Ministério Público sustentou que os réus tinham plena capacidade de compreender os crimes, o que resultou na responsabilização penal.
Ao longo dos anos, o trio foi julgado e condenado em diferentes processos. No caso da morte de Jéssica, as penas foram revistas diversas vezes, com aumentos e reduções após recursos. Já pelos crimes cometidos em Garanhuns, Jorge foi condenado a mais de 70 anos de prisão. As duas comparsas também receberam penas elevadas e seguem em regime fechado.