Bullying não tratado compromete desenvolvimento na fase adulta e capital humano, diz economista
Falta de protocolos, acompanhamento psicológico e articulação institucional amplia riscos, diz especialista
Publicado: 23/03/2026 às 06:30
Escola de Referência em Ensino Fundamental (Eref) Cristiano Barbosa e Silva, em Barreiros (Foto: Rafael Vieira/DP Foto)
O ataque registrado dentro da Escola de Referência em Ensino Fundamental e Médio Cristiano Barbosa e Silva, em Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco, na última semana, deixou três alunas feridas e mostrou lacunas no acompanhamento de conflitos entre estudantes e na estrutura de proteção dentro das escolas. Para o economista e especialista em políticas públicas e membro da ONU Jefferson Lucas, a situação tem impactos na vida adulta, no desenvolvimento profissional e no mercado de trabalho.
O caso aconteceu em sala de aula quando um adolescente de 14 anos, aluno do 1º ano do ensino médio, entrou na unidade com uma faca e feriu três colegas, com idades entre 11 e 13 anos. Uma das vítimas foi socorrida em estado mais grave e segue internada no Hospital da Restauração (HR), no Recife, após apresentar comprometimento nos movimentos das pernas. As outras duas estudantes já receberam alta.
O jovem foi apreendido pela Polícia Militar e permanece sob internação provisória, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por até 45 dias. Informações do Conselho Tutelar e da família indicam que ele vinha sendo alvo de bullying há anos, elemento que passou a ser considerado central para a compreensão do episódio.
Na avaliação do economista Jefferson Lucas, o impacto da falta de acompanhamento não se limita ao ambiente escolar e tende a se prolongar ao longo da vida desses jovens. “Esses jovens, daqui a alguns anos, estarão no mercado de trabalho, serão pais. Como alguém que não foi cuidado vai conseguir cuidar de outra pessoa? Quem não foi tratado não consegue ajudar o outro da forma adequada. Os impactos são de longo prazo.”
Jefferson Lucas também chama atenção para efeitos menos visíveis, como os impactos econômicos associados à violência escolar.
“A violência escolar aumenta a evasão, reduz a produtividade no futuro e compromete o desenvolvimento do capital humano. Uma pessoa que não recebeu apoio adequado terá prejuízos no seu desenvolvimento. Ou seja, não é apenas um problema social, e isso é muito importante , mas também um problema de desenvolvimento do país.”
Esse cenário, segundo ele, acaba gerando um efeito em cadeia que ultrapassa os limites da escola e alcança toda a sociedade. “O impacto econômico e social funciona como um efeito dominó. Aumenta a sensação de insegurança na comunidade. Os pais deixam de confiar na escola, que deveria ser um ambiente seguro. Isso pressiona o sistema público, gera mais demanda na saúde, na segurança e na assistência social”, diz.
Falhas no sistema
A partir desse contexto, o economista Jefferson Lucas avalia que o episódio aponta falhas acumuladas na forma como o ambiente escolar lida com situações de exclusão e violência. “Esse não é o momento de procurar culpados. Quando a gente soma esforços, ou seja, deixa de lado a polarização e as disputas, a gente consegue avançar e enxergar falhas sociais, emocionais e institucionais. Esse problema não é individual, ele é uma falha de estrutura”, afirma.
Na avaliação do especialista, o episódio de Barreiros poderia ocorrer em outras escolas do país, justamente pela ausência de mecanismos articulados de prevenção e acompanhamento.
“Esse exemplo da escola em Barreiros poderia ser replicado em outras escolas, e isso mostra justamente essa falha estrutural. Falta uma rede integrada de proteção envolvendo escola, família, poder público e profissionais especializados. No Brasil, de forma geral, ainda se trata a saúde emocional dentro das escolas como algo secundário, sem a devida importância e valorização”, observa.
O histórico de bullying, apontado por familiares do adolescente, é interpretado por Jefferson Lucas como parte de um processo que se desenvolve ao longo do tempo, muitas vezes sem intervenção adequada. Segundo ele, o problema começa em situações anteriores que acabam ignoradas ou subestimadas.
“Neste caso, o agressor também já foi vítima. Segundo a própria avó, ele já vinha sofrendo há anos. Isso vai se acumulando até chegar a um ponto de esgotamento. E isso precisa ser identificado e tratado desde o início”, afirma.
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Para o especialista, a ausência de resposta nos primeiros sinais agrava o cenário e dificulta qualquer tentativa posterior de controle. “Quando você identifica o risco no começo, é muito mais fácil de combater. É como uma gripe: você não espera virar pneumonia para procurar um hospital”, diz.
Iniciativas para prevenção
Ele cita que há iniciativas internacionais voltadas justamente para esse tipo de prevenção, com foco na formação de professores e na criação de ambientes escolares mais preparados para lidar com conflitos.
“A UNESCO, em parceria com o Brasil, com instituições de ensino e com a sociedade, pode desenvolver programas de prevenção, materiais pedagógicos e treinamentos para professores, focados na educação socioemocional, na cultura de paz e na identificação precoce de sinais de risco”, afirma.
Apesar disso, segundo ele, ainda há resistência por parte de gestores e instituições em tratar o tema como prioridade, especialmente quando envolve investimento em equipes especializadas.
“Muitas vezes, principalmente no setor privado, isso ainda é visto como um gasto. Há uma resistência em investir em profissionais de saúde emocional. Mas isso não é gasto, é investimento. É investimento na saúde de adolescentes, crianças e jovens”, argumenta.
No campo das soluções, o especialista afirma que não há necessidade de medidas complexas, mas de organização e continuidade nas ações.
“De forma bem concreta, o caminho não é complexo, mas exige coordenação. É preciso organização. Começa pelo básico, com capacitação de professores, rodas de conversa com alunos e pais, porque sem esse diálogo muita coisa fica reprimida e acaba se agravando”, afirma.
Ele também aponta falhas em protocolos de segurança dentro das próprias unidades de ensino, como no controle de acesso. “Também são necessários protocolos simples de identificação de risco. Como é que uma criança entra em uma escola armada, mesmo que com arma branca? Isso é inaceitável. É preciso ter protocolos de segurança na entrada, principalmente em escolas sem controle adequado.”
Para Jefferson Lucas, o Brasil já dispõe de experiências e modelos que poderiam ser aplicados com resultados visíveis, mas ainda enfrenta dificuldades de articulação entre diferentes setores.