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SISU 2026

Novo modelo do Sisu amplia concorrência e prejudica candidatos, relatam estudantes e professores

Mudança inédita permite uso de notas de até três edições anteriores do exame e eleva notas de corte em cursos concorridos

Adelmo Lucena

Publicado: 08/03/2026 às 06:00

Inep anula questões do Enem 2025/Angelo Miguel/MEC e Bruna Araújo/MEC.

Inep anula questões do Enem 2025 (Angelo Miguel/MEC e Bruna Araújo/MEC.)

O novo modelo do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) tem gerado críticas de estudantes e professores após a edição de 2026. A principal mudança, a possibilidade de usar notas das três últimas edições do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ampliou a concorrência e, segundo educadores, tem prejudicado principalmente quem prestou o exame mais recente, em 2025.

A regra foi implementada pelo Ministério da Educação (MEC) com o objetivo de aumentar o número de candidatos e reduzir vagas ociosas em cursos menos disputados. Pela nova norma, o sistema considera automaticamente a melhor média obtida pelo candidato entre os exames de 2023, 2024 e 2025.

Na prática, porém, professores e candidatos afirmam que a mudança provocou efeitos contrários em cursos mais concorridos, como Medicina, Direito e Computação.

Aumento da disputa gera efeito em cadeia

Professor de Biologia e preparador de vestibulares, Arthur Costa afirma que a medida ampliou significativamente a competição pelas vagas mais disputadas.

Segundo ele, o sistema passou a permitir que candidatos aprovados em anos anteriores ou já matriculados em universidades voltassem a concorrer com notas antigas. “A ideia parecia positiva porque ampliaria o universo de candidatos e aumentaria a ocupação das vagas. Porém, nos cursos mais concorridos o efeito foi o contrário: houve aumento significativo da disputa”, afirma.

De acordo com o professor, muitos participantes sem interesse real na vaga participaram do processo novamente, fenômeno que ficou conhecido nas redes sociais como “colecionadores de aprovação”.

“Pessoas que já estavam dentro da universidade voltaram a concorrer usando notas antigas, muitas vezes sem intenção de cursar novamente. Isso elevou as notas de corte e deslocou quem realmente precisava da vaga.”

Esse movimento gerou, segundo ele, um efeito em cadeia, uma vez que candidatos que não conseguiram vaga nas capitais migraram para cursos e cidades menos concorridos, pressionando todo o sistema de seleção.

“Quem perdeu vaga em cima acabou empurrando quem estava abaixo. O sistema ficou caótico, especialmente para estudantes que fizeram o Enem mais recente”, explica.

Estudantes mais recentes são os mais afetados

O professor Arthur Costa destaca que os principais prejudicados são os candidatos que concluíram o ensino médio em 2025 e disputam pela primeira vez uma vaga.

Isso ocorre porque esses estudantes passam a concorrer com candidatos que podem usar resultados de anos anteriores, muitas vezes obtidos após períodos mais longos de preparação ou já com experiência no exame.

Segundo o MEC, a mudança tinha como objetivo ampliar oportunidades de acesso ao ensino superior público e reduzir a pressão sobre os participantes do exame. Por outro lado, candidatos apontam que a medida acabou favorecendo aqueles com maior histórico de desempenho e ampliando a desigualdade na disputa.

Outro efeito apontado é a ocupação provisória de vagas por candidatos que depois tentam nova aprovação em cursos mais concorridos.

Arthur Costa exemplifica que um estudante que não conseguiu vaga em Medicina em uma capital devido à alta nota de corte acaba optando por estudar no interior. Segundo ele, a regra permite que este candidato utilize a mesma nota futuramente para tentar nova aprovação sem precisar refazer o Enem. “A vaga que foi ocupada no interior pode ser perdida, e a sociedade deixa de formar um profissional”, alerta.

Apesar das críticas, o professor ressalta que os candidatos apenas utilizam um direito previsto nas regras do sistema. “O estudante não está errado. O próprio sistema incentiva esse comportamento.”

Uma destas candidatas que precisou ir para o interior é Ananda Davis, de 18 anos. Caso o sistema de seleção funcionasse como antes ela teria sido aprovada no curso no Recife, onde mora. “A gente ficou sabendo que a competição ia aumentar muito e que ia ficar mais difícil de passar. Então, realmente foi bem difícil. Fico um pouco ansiosa com essa mudança, mas tenho que aceitar. Eu vou para Garanhuns mesmo. Conheço alguns amigos e colegas que também se sentiram prejudicados. Todo mundo comenta, mas não tem muito o que fazer”, conta.

Objetivo do governo era reduzir vagas ociosas

A mudança no Sisu foi anunciada em edital publicado em 2025 e passou a valer na edição de 2026. O governo federal argumenta que permitir o uso das três últimas notas do Enem amplia o acesso ao ensino superior e ajuda a preencher vagas remanescentes, especialmente em cursos com baixa procura.

O Sisu é o principal mecanismo de acesso a universidades públicas brasileiras, utilizando a nota do Enem como critério de seleção.

 

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