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Vida Urbana
PATERNIDADE

Sem paternidade reconhecida, jovem alega ser herdeira dos Brennand e briga na Justiça por exame de DNA

A administradora Rayssa Cirino, de 28 anos, que cresceu sem pai, move ação de investigação de paternidade do empresário Antônio Brennand, já falecido; MPPE foi favorável à realização de exame de DNA

Felipe Resk e Marília Parente

Publicado: 25/02/2026 às 07:00

Rayssa Cirino/Foto: Crysli Viana/DP Foto

Rayssa Cirino (Foto: Crysli Viana/DP Foto)

Rayssa Cirino, de 28 anos, é uma moça bem magrinha, de braços esguios e com a columela proeminente (aquela carninha embaixo do nariz), que cresceu em Olinda, no Grande Recife, sem qualquer contato com o pai ou a família paterna. Há mais de duas décadas, ela trava uma batalha judicial para provar que é filha biológica de um membro da família Brennand, uma das mais ricas e influentes de Pernambuco.

A ação de investigação de paternidade tem como alvo o empresário Antônio Luiz de Almeida Brennand Neto, que morreu em 1998, aos 47 anos, vítima de um câncer no cérebro. Por causa do sobrenome envolvido, o processo, embora tramite sob sigilo, é comentado há anos em rodas da alta sociedade e nos corredores do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).

Esta é a primeira vez, no entanto, que Rayssa decide sair do anonimato e conceder entrevista. “Se eu tivesse alguma dúvida, nem estaria aqui falando com você”, diz a jovem, que conversou duas vezes com o Diario de Pernambuco, em um restaurante de Boa Viagem, bairro onde trabalha, e na sede do jornal, em Santo Amaro. “Minha família sempre falou que ele é o meu pai. Nunca foi algo escondido. Nunca foi uma informação que surgiu ‘do nada’.”

Recém-ingressa no mestrado, Rayssa trabalha desde os 17 anos, é formada em administração de empresas e faz carreira na área de procurement (compras e suprimentos). Discreta, ela fala baixinho e é de frases curtas, mas não deixa de responder educadamente nem quando lhe perguntam se teria interesse na fortuna dos Brennand.

“O dinheiro é o mínimo, de coração. O mais importante para mim é a questão da identidade”, afirma a jovem, que também não se esforça para esconder a angústia com o processo, marcado por poucas conquistas, mudanças de advogado e acusações mútuas de fraude. “É muito pesado ter uma história construída em cima de algo que não é reconhecido, entendeu?”

A investigação

A briga pelo reconhecimento da paternidade começou há 25 anos, em 2001, quando Rayssa ainda era criança. A ação foi movida pela mãe dela, a produtora de eventos Viviane Cirino, de 49, então uma jovem estudante, e terminou com a vitória dos Brennand. Ao julgar o pedido improcedente, o Tribunal considerou, sobretudo, que diferentes testes de DNA, realizados na época, deram negativo.

Em 2024, sem nenhuma outra pista sobre quem seria o seu verdadeiro pai, senão Antônio Brennand, a própria Rayssa decidiu pedir uma nova investigação. No processo, ela diz que o direito à filiação não prescreve e está “intimamente ligado” à dignidade humana. Também aponta supostas fraudes na coleta de exames e argumenta que a metodologia usada nos testes antigos é considerada obsoleta hoje.

A ação foi imediatamente rejeitada pelo TJPE, sem análise de mérito, por considerar que o caso já havia sido julgado. Rayssa recorreu. Em janeiro de 2026, após analisar os autos, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) deu razão à jovem, emitindo parecer favorável a cassar a sentença, reabrir a investigação e fazer novo DNA.

Para o órgão, Rayssa apresentou “argumentos plausíveis” e haveria “dúvida razoável” sobre o vínculo com Antônio Brennand. “O Ministério Público observa que o avanço tecnológico biogenético é um fato notório”, escreve o procurador, no documento. “Um exame realizado há mais de 20 anos pode não deter a acurácia necessária para selar definitivamente o destino de um direito personalíssimo (...) de conhecer a própria origem biológica.” O recurso ainda aguarda julgamento.

Busca por identidade

Rayssa Gabryelly Pessoa Cirino veio ao mundo às 19h25 de 27 de junho de 1997, na Maternidade Santa Clara, no Recife. Na certidão de nascimento, registrada mais de duas semanas depois em um cartório da Boa Vista, no Centro, o campo de filiação, em vez do nome do pai, aparece preenchido apenas por um tracinho.

“É uma coisa que incomoda muito”, diz a administradora, que foi criada em uma casa em Jardim Brasil, bairro popular de Olinda, onde ainda mora com a mãe, a avó e uma tia. “Fica um vazio. Por mais que eu tenha certeza do que a minha mãe fala, é diferente ter um documento que diz que alguém é o seu pai e que você tem o direito de pensar nele como seu pai. Eu quero ter esse direito.”

Segundo relata, ao ser perguntada sobre o pai na infância, a única reação que conseguia ter era mudar o semblante e chorar. A sensação de ausência seria ainda maior em datas comemorativas, principalmente no Natal, Dia dos Pais e no próprio aniversário. Hoje, trata do tema com serenidade. “Há anos, tento ressignificar isso através de terapia”, diz.

Rayssa estudou em escola privada. Entre familiares, era tida como uma aluna focada e exemplar. Em casa, vivia cercada por primos, mas sentia falta de mais convivência com Viviane. “Minha mãe estava sempre na rua tentando trazer a questão do alimento, essas coisas para casa, entendeu?”, afirma. “Ela penou muito para pagar as contas.”

Em contrapartida, a vida no subúrbio contribuiu para que a garota não se sentisse tão sozinha. Na rua, gostava de jogar vôlei e queimado com outras crianças do bairro. Não mais do que dois ou três amigos, contudo, sabiam que ela poderia ser herdeira de uma das famílias mais importantes de Pernambuco.

Memórias

Antônio Brennand é filho da filantropa Gracita Brennand (1929-2023) e do empresário Ricardo Brennand (1927-2020), famoso colecionador de arte, que chegou a figurar na lista de bilionários da Forbes em 2019. À ocasião, a fortuna foi estimada em R$ 3,1 bilhões.

Rayssa afirma já ter feito pesquisas sobre Antônio Brennand na internet, mas esbarrou na escassez de informação disponível. Entre as memórias que tentou construir, diz se lembrar de a mãe ter lhe mostrado, certa vez, uma foto do homem, provavelmente em um evento, vestido de terno. “Achei o olhar dele muito parecido com o meu”, comenta.

Na casa da jovem, a história que se conta é a seguinte. Viviane conheceu Antônio Brennand em um restaurante à beira-mar de Olinda, por meio de um amigo em comum, e os dois viveram um affair que resultou na gestação da garota. A relação amorosa durou de 1994 a 1997. O período corresponde ao tempo em que o empresário era casado com outra mulher e fazia viagens aos Estados Unidos para tratar o câncer, diagnosticado em 1995.

Viviane nega que soubesse do casamento. Já a família Brennand sustenta na Justiça que o caso extraconjugal nunca existiu, dada a “precariedade da saúde” de Antônio que o impediria até de sentir libido. Diz, ainda, que o empresário havia feito uma vasectomia bilateral, método de esterilização masculina, quase dez anos antes, em 1988, motivo pelo qual dificilmente poderia ter mais filhos.

Antônio Brennand morreu no dia 5 de agosto de 1998, em decorrência da doença, no Recife, deixando a viúva e quatro herdeiros legítimos. Rayssa, que tinha apenas 13 meses de vida, nunca interagiu com o empresário, a mulher dele ou os supostos irmãos. “Minha mãe procurava o pessoal e eu lembro que ia com ela no orelhão para ligar. Existia essa questão conturbada de estar em busca, de tentar falar…”, diz. “Mas toda essa minha história foi de rejeição.”

Embates no Tribunal

Na primeira ação, de 2001, Viviane alegou dificuldades financeiras para reivindicar herança e pensão alimentícia da família Brennand. A petição inicial dizia que a menina “nasceu quando o seu pai se submetia a diversos tratamentos médicos, dentro e fora do país, vindo a falecer sem ter tempo hábil para reconhecê-la”.

O processo, que durou quase dois anos, é recheado de troca de farpas entre as partes e de posturas consideradas incomuns no meio jurídico. Em uma delas, o ex-advogado de Viviane chegou a juntar um laudo que contradizia a cliente. Depois, concordou com a sentença que afastava a paternidade de Antônio Brennand e pediu que a decisão transitasse em julgado. A ação foi arquivada em 2003.

Outro episódio que chama atenção é que a própria Viviane chegou a lavrar um depoimento em cartório, em maio de 2000, ainda antes da ação, em que contava ter conhecido um rapaz que “se fez passar por Antônio Brennand” e com quem só houve “uma única relação sexual”.

“Por haver sido ela ludibriada por um sujeito inescrupuloso, a declarante serve-se dessa pública declaração para manifestar escusas pelos desagradáveis constrangimento e irreparável dano moral que causou à família de Antônio Luiz de Almeida Brennand Neto”, registra. O documento consta como prova nos autos.

À Justiça, Viviane alegou que foi coagida a assiná-lo. Segundo relata, essa teria sido uma condição imposta pelos Brennand para receber ajuda financeira. Os repasses, estipulados em cerca de R$ 100 mil, aconteceram após Rayssa nascer e parte foi usado para comprar a casa em Jardim Brasil, de acordo com a mulher.

Já a defesa dizia o oposto no Tribunal. A família, que admite ter feito as transferências, acusa Viviane de chantagem e de tentar “constranger” a viúva e os filhos de Antônio Brennand. “O dinheiro que os irmãos do investigado concordaram em fornecer-lhe foi realmente para tolhê-la a armar o escândalo que vinha ameaçando, no momento de extremo sofrimento de uma família que acabara de perder um ente querido”, registra uma petição de 2002. O caso, entretanto, nunca veio a público.

O Diario procurou o advogado Roberto Pimentel, que atualmente representa a família de Antônio Brennand em quatro ocasiões, por e-mail e telefone, para comentar a investigação de paternidade e os motivos dos repasses para a família de Rayssa. Todos os contatos foram ignorados.

O advogado Alberto Rabello, representante da jovem, também foi questionado e respondeu de forma sucinta. “Caro jornalista, por enquanto não posso dar informações do processo”, escreveu, por e-mail.

Encontros

É uma tradição. Toda criança matriculada em colégios do Grande Recife, pelo menos uma vez na vida escolar, deve fazer uma excursão ao Instituto Ricardo Brennand, localizado em uma área de 77,6 mil m², na Várzea, na Zona Oeste da capital, que abrange um complexo de edificações com pinacoteca, museu de armas, jardins de esculturas e galeria com exposições temporárias.

Considerado um dos mais relevantes colecionadores de arte do país, Ricardo Brennand é conhecido por reunir, por exemplo, a maior coleção do mundo do holandês Frans Post (1608-1669), primeiro pintor da paisagem brasileira. Quando o convite para visitar o espaço chegou à escola de Rayssa, ela preferiu não acompanhar os colegas. “Foi por causa disto, entendeu? Eu não sabia como ia me sentir lá”, conta.



Só aos 17 anos a jovem teria conhecido o famoso “Castelo de Brennand”. Segundo relata, o convite partiu do ceramista Francisco Brennand (1927-2019), primo de Ricardo Brennand, um dos maiores artistas plásticos do país. “Eu andei por lá, mas não pelo castelo todo. Fiz o caminho até o escritório dele e pronto”, descreve. “Ele foi o único [da família] que me procurou, que quis me conhecer.”

Rayssa diz que a sala de Francisco, repleta de livros, ficou na sua memória como um espaço de acolhimento. Durante algumas horas, o ceramista teria falado sobre suas obras, a paixão pela arte e demonstrado interesse na rotina da jovem, que estava no início da faculdade. “Me senti muito bem”, recorda-se. “Ele disse que sou a cara do meu pai e me deu um presente bem bonito: aqueles ovinhos que ele fazia, só que pequenos.”

As esculturas que recebeu de Brennand ficam expostas na estante da sala e no quarto, ao lado da cama, de acordo com Rayssa. O Diario tentou visitar a casa, mas a jovem, de perfil reservado, declinou da proposta e preferiu marcar as duas entrevistas em locais neutros.

No último encontro, em 5 de fevereiro, ela chegou ao jornal vestida de camiseta preta, calças jeans e sandálias rasteiras. Aparentava cansaço. Horas antes, havia feito um exame de endoscopia, para investigar dores que tem sentido no estômago. Também teria confessado a uma amiga, na noite anterior, que ainda pensava em desistir de se expor.

“Acho que hoje tenho uma vida ok com meu emprego. Consigo ter qualidade e fazer as coisas que eu quero”, comenta Rayssa, que diz estar às vésperas de ser promovida e tem consciência de que corre o risco de sofrer desgastes com a repercussão do caso. A vontade por um desfecho, entretanto, teria falado mais alto. “É muito ruim você viver com essa interrogação. Uma lacuna que, na minha cabeça, se resolveria muito facilmente.”

Para Rayssa, a mais recente manifestação do MPPE, favorável ao novo exame de DNA, também trouxe esperança de poder encerrar um ciclo em que se vê presa desde que nasceu. Ela faz planos de concluir doutorado, ocupar um cargo de gestão, ter dois filhos e constituir a própria família. “Acho que só vou conseguir fazer o luto por esse pai quando o processo se encerrar, independentemente do resultado.”

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