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Recife: 15% dos moradores de comunidades ainda vivem em ruas sem acesso a ônibus, carros e ambulâncias

Diario visitou comunidade de Três Carneiros Alto, na Zona Sul, a terceira menos acessível a carros, ônibus e ambulâncias do Recife; saiba quais são as

Marília Parente

Publicado: 26/01/2026 às 05:00

Moradora de Três Carneiros Alto, Cláudia deixou de receber correspondências em seu endereço em razão do acesso ruim à comunidade. /Rafael Vieira/DP Foto

Moradora de Três Carneiros Alto, Cláudia deixou de receber correspondências em seu endereço em razão do acesso ruim à comunidade. (Rafael Vieira/DP Foto)

 Há alguns meses, a dona de casa Cláudia Pereira, de 43 anos, deixou de receber correspondências em sua casa, localizada na comunidade de Três Carneiros Alto, em área limítrofe entre Recife e Jaboatão dos Guararapes. Com vigas expostas e trechos quebrados, a ponte que dava acesso à região em que ela vive têm deixado moradores e entregadores inseguros, motivando a suspensão do serviço postal no local.

Agora, para pagar as contas de água e luz, ela precisa se deslocar até uma lan house da comunidade. “Eu não tenho internet em casa. Dá quarenta minutos de caminhada daqui para eu chegar lá em cima”, diz ela, referindo-se às longas subidas e escadarias que precisa encarar quase diariamente, inclusive quando precisa se deslocar até o terminal.

De acordo com a pesquisa “Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022, a comunidade de Três Carneiros Alto é a terceira menos acessível do Recife, com apenas 3,12% da população vivendo em domicílios localizados em vias com capacidade de circulação de ônibus e caminhões.

Nesse quesito, a comunidade só fica à frente da Vila da Imbiribeira (1,85%) e da Vila dos Motoristas (2,53%), na comunidade do Coque, área central do Recife. “A vida do pobre é assim mesmo. Luta por cima de luta. Um dia alguém olha pra gente, né?”, resume Cláudia.

Estado de ponte assusta moradores em Três Carneiros Alto - Rafael Vieira/DP Foto
Estado de ponte assusta moradores em Três Carneiros Alto (crédito: Rafael Vieira/DP Foto)

Segundo a Associação dos Moradores de Três Carneiros Alto (AMTC), cerca de 26 mil recifenses vivem na área. Eles só contam com duas avenidas, São Paulo e Tiradentes, para circulação de ônibus e caminhões.

O restante da comunidade é composta por ruas sem saída ou vias muito estreitas, que dificultam deslocamentos e acesso a serviços. “Só consigo sair de casa de Uber ou de moto. A pessoa vai ficando triste dentro de casa”, lamenta Josemar de Lima, que precisou amputar uma das pernas há dois anos, em razão do agravamento do quadro de diabetes.

Josemar não se sente seguro de circular com andador pela comunidade de Três Carneiros Alto - Rafael Vieira/DP Foto
Josemar não se sente seguro de circular com andador pela comunidade de Três Carneiros Alto (crédito: Rafael Vieira/DP Foto)

As ruas sem pavimentação, repletas de pedras e buracos, inviabilizam a circulação de cadeiras de rodas e tornam arriscada a locomoção com auxílio de andador. “Só saio para ir para a Igreja, porque meu filho vem me buscar de moto”, acrescenta.

Na Rua Ibitiranga, a costureira Aurineide Ferraz pensa em deixar a comunidade, onde cresceu e fez boa parte de suas amizades. Sua mãe, de 82 anos, também é cadeirante. “Se tiver uma emergência, não passa ambulância nessa rua”, preocupa-se.

Lixo

O mau cheiro da via também tem desgastado a relação da moradora com a comunidade. No cruzamento da Ibiporanga com a Avenida São Paulo, fica localizado um dos dois pontos de coleta do lixo a ser recolhido pelo caminhão de limpeza urbana da cidade, que não consegue acessar as vias mais apertadas. “Têm dias em que a quantidade de lixo fecha nossa rua”, acrescenta Aurineide.

Segundo Levi Costa, presidente da AMTC, a concentração de lixo na avenida principal é tanta que chega a interromper o fluxo de veículos na avenida. “A gente acredita que a prefeitura deveria instalar uma Ecoestação em um terreno da comunidade, para concentrar esses resíduos”, sugere.

Por enquanto, a comunidade vai tentando se proteger da proximidade com os resíduos. “Coloquei uma tela na porta de casa para os ratos não entrarem mais. Se deixar, entra tudo que é bicho”, conta a dona de casa Maria dos Prazeres Neves, vizinha de Aurineide.

No outro ponto de coleta de lixo, um mercadinho do bairro teve que fechar as portas, relatam os moradores, em razão das más condições de higiene do local. De frente para o lixo, segue funcionando o Mercado Público Municipal Jânio Alberto Nóbrega.

“Com certeza, essa sujeira espanta os clientes. Também é ruim de trazer os produtos pela avenida”, lamenta o permissionário Antônio Mendes, que vende frutas e legumes no mercado público.

Prefeitura do Recife

Por meio de nota, a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) disse que a coleta de lixo no local está regularizada e é realizada diariamente, “entretanto, a área possui dois pontos críticos de descarte irregular de lixo, alimentados pelos moradores, causando a poluição do ambiente”.

A autarquia informou que irá averiguar a execução do serviço e pediu “a colaboração das pessoas na manutenção da limpeza”. “A Prefeitura do Recife instalou uma Ecoestação em uma área próxima, no bairro da COHAB, e estuda a implantação de mais um equipamento em Três Carneiros”, acrescenta o posicionamento.

Na nota, Emlurb coloca ainda que fará um levantamento das ações necessárias para incluir as vias visitadas pela reportagem no Programa Rua Tinindo. A autarquia informou ainda que já realizou uma obra de urbanização na Rua Tanapé.

Prefeitura de Jaboatão

Também através de nota, a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, informou que a Secretaria Executiva de Infraestrutura (Seinfra) realizará uma visita técnica para avaliação da ponte citada na reportagem.

“Durante a ação, serão feitas medições, levantamento técnico e estimativa de custos, com o objetivo de definir as intervenções necessárias para a recuperação estrutural da área”, diz o posicionamento.

Confira as quatro comunidades menos acessíveis do Recife: 

% * (com acesso a caminhões e ônibus)

Vila da Imbiribeira 1,85% 
Vila dos Motoristas 2,53%
Três Carneiros Alto 3,12 %
Santo Amaro 3,66%

 

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